Campanha rachadinha, ou O áudio explosivo de Flávio Bolsonaro a Daniel Vorcaro

De tédio ninguém morre neste país.

Há apenas duas semanas, o governo Lula foi dado como morto. Depois da queda (a rejeição de Messias para o Supremo), veio o coice (a derrubada do veto da dosimetria). Numa jogada conjunta do Centrão com a extrema-direita bolsonarista, uma mão sujou a outra. Em troca do alívio na pena dos golpistas, os bolsonaristas concordaram em ajudar os manda-chuvas do Congresso a enterrar a CPI do Master.

Flanando nos bastidores, Flávio Bolsonaro – o candidato a “anti-Lula” desta eleição – subiu em um salto 15 e começou a discutir não se ganharia a eleição, mas a quem distribuiria os ministérios quando fosse eleito. Como sói acontecer neste país ao sul do Equador, o que era sólido desmanchou-se no ar. Semana passada, caiu o “vice perfeito” da chapa oposicionista, o grão-duque do PP Ciro Nogueira. Ontem, foi a vez de o cabeça da chapa, o filho 01 de Bolsonaro, ser flagrado em um diálogo vadio com Daniel Vorcaro. Se antes Flávio Bolsonaro se achava eleito, agora há quem duvide até de que continue como candidato.

No áudio extraído pela PF e revelado pelo site Intercept Brasil, Flávio Bolsonaro cobra de Daniel Vorcaro o pagamento dos valores que teriam sido acertados para financiamento do filme Dark Horse, uma suposta cinebiografia de cunho claramente eleitoral que os Bolsonaro pretendiam lançar às vésperas da eleição de outubro como forma de alavancar a candidatura do filho 01 do clã. Com o vazamento da conversa, deu tudo errado.

Registre-se, antes de mais nada, que, do ponto de vista estritamente legal, o diálogo entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro não revela nada necessariamente ilegal. Em princípio, é teoricamente possível que o picareta dono do Master tenha simplesmente resolvido despejar uma montanha de dinheiro numa produção cinematográfica de gosto e caráter duvidosos. Algumas contradições nessa história, porém, deixam várias pulgas pululando atrás da orelha.

A primeira contradição surge com uma jogada genial da galera do Intercept. Antes de publicar a matéria, o site enviou um de seus jornalistas ao Supremo, onde Flávio Bolsonaro havia ido para conversar com o presidente Edson Fachin. Na saída, o jornalista perguntou na lata: “Por que o filme do seu pai foi bancado pelo Vorcaro?” Resposta do 01: “É mentira. Da onde você tirou isso”. Se não havia nada de errado com o financiamento, por que a negativa mentirosa de Flávio Bolsonaro?

A segunda contradição diz respeito ao próprio montante do “financiamento”. Consta que Vorcaro teria acertado transferir para os Bolsonaro nada mais, nada menos do que R$ 134 milhões. Esse valor sozinho representa mais do que o dobro dos orçamentos de O Agente Secreto (R$ 25 milhões) e Ainda estou aqui (R$ 45 milhões) somados, ambos indicados (o segundo vencedor) do Oscar. O valor ultrapassa até mesmo superproduções hollywoodianas, como Conclave, Birdman, A lista de Schindler e Um sonho de liberdade. Que tipo de superprodução nacional custaria tanto?

A terceira contradição diz respeito à própria destinação do dinheiro. Logo após o estouro do áudio, a produtora do filme veio a público negar que a película tivesse recebido dinheiro do Master. Mas se Flávio Bolsonaro cobrava o pagamento do que estava faltando, onde foram parar os R$ 61 milhões que Vorcaro já tinha desembolsado.

Como se tudo isso não bastasse, sabe-se que pelo menos parte desse dinheiro transitou por um fundo estrangeiro chamado Havengate. Sediado no Texas, o fundo é administrado por um advogado da confiança do irmão de Flávio, Eduardo Bolsonaro. E onde mora o famoso Dudu Bananinha? Justamente no Texas.

Se parte desse dinheiro serviu para custear as despesas do Bananinha no seu autoexílio norte-americano, é algo que só as investigações vão poder dizer. O fato, porém, é que ninguém sabe ao certo é: 1) Por que Daniel Vorcaro, àquela altura já atolado até o pescoço na pirâmide do Master, resolveu “investir” em cinematografia?; 2) Por que tanto dinheiro investido numa produção que, até onde se sabe, não pretende replicar produções como Os Vingadores, da Marvel?; 3) Onde esse dinheiro realmente foi parar?

Como era de esperar, o escândalo caiu como uma bomba na pré-campanha de Flávio Bolsonaro. Por mais que todo mundo soubesse do seus rolos com as rachadinhas de Queiroz e da Fantástica Fábrica de Chocolates da Kopenhagen (que só vendia a dinheiro vivo), os organizadores da sua campanha vendiam a imagem de um candidato “antissistema” que iria “lutar contra a corrupção” (risos). Agora, implicado diretamente no maior escândalo da atualidade, manter esse figurino vai exigir uma dose redobrada de cinismo por parte dos seus patrocinadores.

Se do ponto de vista jurídico é impossível cravar qualquer coisa a essa altura do campeonato, do ponto de vista político o dano já está dado. Claro que, para o gado da Bozolândia, nada disso importa. No limite, eles sempre terão a indefectível saída de recorrer à surrada fórmula “E o Lula, hein? E o PT?”. Mas a parcela do eleitorado que habita este mundo paralelo onde a Terra é plana é francamente minoritário no eleitorado. Um escândalo como esse atinge justamente o eleitor independente, que ainda mantém firmes os laços com a realidade. E essa galera não vai fechar os olhos para algo do gênero simplesmente porque, do outro lado, está um anti-petista.

Será um erro, contudo, dar por morta a candidatura de Flávio Bolsonaro. Quem acredita em tal hipótese parte do pressuposto equivocado de que, ao lançar seu filho 01, Bolsonaro pretendia escolher o candidato mais viável para bater o atual inquilino do Planalto. Mas a idéia dele nunca foi essa. O projeto era simplesmente inviabilizar o surgimento de uma candidatura alternativa que tirasse dos Bolsonaro o monopólio que hoje eles têm da “direita brasileira”.

Na verdade, a ex-primeira-família só tem existência política enquanto houver perspectiva de poder associada a ela. Quando houver um substituto nesse campo – qualquer que seja -, os Bolsonaro serão escanteados. É por isso que Jair se recusa a indicar até sua própria esposa como legatária dos seus votos. O medo da traição e a paranóia de ser abandonado são tão atávicos que ele só confia no próprio DNA como “herdeiro” do seu espólio eleitoral.

Considerando isso, a estratégia dos Bolsonaro doravante é bastante óbvia. Jair vai dobrar a aposta e manter a candidatura do filho 01 a ferro e fogo. Essa linha de ação baseia-se em duas esperanças: 1) o escândalo do áudio com Vorcaro não vai piorar; e 2) em algum tempo, surgirá algum outro escândalo do lado petista que permita eclipsar o escândalo de agora. Sem dúvida, trata-se de uma aposta arriscada. Mas, do ponto de vista dos Bolsonaro, essa é basicamente a única alternativa que sobra.

Em resumo, a campanha de Flávio Bolsonaro, já devidamente rachadinha, foi alvejada gravemente. O tiro será fatal? Não sabemos. Há alternativa imediata à mão? Não, até porque ninguém consegue imaginar o chefe do clã abençoando alguém de fora da família. A dúvida agora é saber como o restante da direita vai se comportar. Vai abandonar o barco e tentar construir uma alternativa fora dos Bolsonaro? Ou vai se arriscar a seguir em um navio cuja proa bateu em um iceberg?

Aguardemos as cenas dos próximos capítulos.

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