A desistência de Doria, ou A volta dos que não foram

Você viu antes aqui.

Quando se escreveu neste espaço que Jair Bolsonaro e Lula eram, a um só tempo, os dois candidatos mais fortes (porque estavam à frente das pesquisas) e mais fracos (porque perderiam para qualquer outro candidato que não fosse um dos dois) da campanha presidencial de 2022, o Blog foi rápido ao admitir o erro e cravar que havia alguém que era mais fraco do que ambos: João Doria Jr.

Self-made man, empresário e apresentador de algum sucesso, Doria foi literalmente pinçado por Geraldo Alckmin na campanha de 2016 para se juntar ao PSDB. Sua idéia era trazer alguém de “fora da política” para fazer frente à campanha de reeleição do então prefeito paulistano, Fernando Haddad. Encarnando o anti-petismo visceral daquele tempo – não nos esqueçamos: Dilma acabara de ser deposta pelo impeachment e o partido representava quase a encarnação do Mal -, Doria venceu, primeiramente, a própria burocracia partidária (que preferia lançar Andrea Matarazzo ao cargo de prefeito) e, depois, as desconfianças da população. A aposta de Alckmin revelara-se certeira. Para assombro geral, Doria derrotaria no primeiro turno um prefeito incumbente, em pleno exercício do cargo, façanha inédita na maior capital do país.

Todavia, o tiro de Alckmin acabou saindo pela culatra apenas dois anos depois. Como lhe faltassem votos na campanha presidencial de 2018, seu então pupilo – já prefeito de São Paulo – agiu abertamente para passar a pena em seu padrinho. A idéia original, como parecia óbvio, era que naquele ano Doria deixasse a prefeitura paulistana e se candidatasse a governador do Estado. Alckmin, candidato à presidência, teria assim um cabo eleitoral forte no maior colégio eleitoral do país. Depois, quem sabe, um dia, Doria poderia suceder na presidência o próprio Alckmin, caso este tivesse sido eleito.

Vendo o “Picolé de Chuchu” patinar nas pesquisas, Doria vislumbrou a possibilidade de atalhar a tortuosa via que leva até a presidência e sair diretamente da prefeitura de São Paulo para o Planalto. Alckmin, por óbvio, jamais engoliu a traição, muito menos os chamados “tucanos históricos”, que sempre torceram o nariz para o ex-apresentador de O Aprendiz, por considerá-lo – não sem algum grau de razão – como arrivista. Daí pra frente, o roteiro é mais ou menos conhecido. Doria jogou Alckmin ao mar, abraçou-se a Jair Bolsonaro – dando azo ao hoje famigerado “BolsoDoria” -, para depois brigar contra o próprio Bolsonaro.

Para qualquer pessoa que olhe de fora semelhante trajetória, digamos, “profissional”, fica a impressão de que João Doria é um sujeito disposto até a vender a própria mãe para conseguir o que quer. Se isso por vezes pode fazer sucesso no obscuro e mui mal compreendido (no mau sentido) mundo empresarial, no mundo político em geral se torna uma receita de fracasso. As intenções de Doria, por melhor que pudessem ser, jamais conseguiram superar aquela barreira invisível colocada à frente pelo eleitorado daqueles de quem sempre devemos desconfiar. Só isso, afinal, explica como o sujeito que primeiro conseguiu trazer uma vacina de Covid para o Brasil – obrigando, por tabela, a que o Governo Federal providenciasse as demais para não ficar para trás politicamente – não tenha conseguido jamais capitalizar esse feito em termos de densidade eleitoral.

E agora?

Bem, para Joao Doria, o jogo está jogado. Pode até ser que os “doristas” mais fanáticos ainda nutram a esperança de que possa haver, no futuro, uma “renúncia da renúncia”, tal qual aquela em que Doria fingiu desistir da Presidência da República para tentar a reeleição em São Paulo, para só ser obrigado no final do dia a dizer que ia renunciar mesmo ao governo paulista.

A esperança, contudo, é absolutamente vã. Em 2022, Doria não tem mais chance alguma, seja lá para qual cargo queira concorrer. O melhor que o ex-governador poderá fazer, caso pense realmente em algum dia retomar a carreira política, será recolher-se em copas, lamber as feridas e assistir de camarote à guerra fratricida que consome o seu próprio partido (o PSDB) e os partidos que disputam o seu espólio. Porque – acreditem – a renúncia de Doria não encerrar a briga pela chamada “terceira via”. Muito pelo contrário.

Agora é que ela vai começar…

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