Por que o dinheiro é finito? Ou os mistérios do sistema bancário

Algo que pouca gente sabe – porque o Governo e os bancos não gostam de divulgar – é que, se todo mundo corresse ao mesmo tempo pra sacar o dinheiro no banco, não haveria dinheiro pra todo mundo.

“Como assim? A pessoa não depositou? O dinheiro tem que estar lá!”

Bom, de um certo modo ele está, sim. Virtualmente. Mas o dinheiro físico em circulação, ou seja, aquilo que você pode realmente pegar (cédulas e moedas), é muitas vezes menor do que o dinheiro que “existe” em contas e obrigações financeiras.

Seguinte:

Imagine que você tem R$ 1.000,00 em cédulas de 100. Previdente, você guarda os R$ 1.000,00 em uma poupança.

Como você não vai precisar do dinheiro agora, o Banco pega seu dinheiro e empresta pra alguém. Obviamente, o Banco, pra usar seu dinheiro, vai lhe pagar por isso. Daí a remuneração em juros que você recebe a cada mês na poupança.

Mas, pra ganhar dinheiro, o Banco cobra da pessoa que tomou um empréstimo um percentual de juros maior do que o que paga a você. Tipo: enquanto você ganha 1% a.m de rendimento, o Banco cobra do pobre coitado 5% a.m no empréstimo. Essa diferença – chamada spread – é o lucro do Banco na operação. É esse o princípio básico da atividade bancária: remunerar quem tem mais emprestando pra quem tem menos.

Pois bem. Feito o empréstimo, o sujeito saca o dinheiro. Suas dez cédulas de R$ 100,00 vão para em outras mãos. São as mesmas cédulas, mas, no total, há agora R$ 2.000,00: R$ 1.000,00 depositados na sua poupança, e R$ 1.000,00 nas mãos do sujeito que pegou o emprestado.

Agora, suponhamos que o sujeito que pegou o empréstimo faz a feira . Com o dinheiro da venda, o supermercado gasta R$ 200,00 de impostos, R$ 300,00 de luz e R$ 500,00 com o salário do caixa.

O caixa, por sua vez, gasta R$ 500,00 pagando a escola do filho. A Companhia de Eletricidade pega os R$ 300,00 e compra um poste. E o Governo pega os R$ 200,00 pra melhorar a sua vida construindo uma nova estrada (calma, gente, é só um exemplo, ok?)

Perdeu-se nas contas? Pois é. A intenção era justamente essa. O dinheiro começou a circular e, ao todo, já há muito mais em ativos financeiros (depósitos, aplicações financeiras, empréstimos) do que aqueles R$ 1.000,00 que você tinha inicialmente.

“Quer dizer, então, que o dinheiro pode-se multiplicar ao infinito?”

Não é bem assim.

Pra impedir que a multiplicação de ativos seja infinita, há um negócio chamado depósito compulsório. Parte do dinheiro depositado nos Bancos – seja em contas-corrente, seja em poupança, seja em aplicações – tem que necessariamente ser depositado no Banco Central. Então, dos R$ 1.000,00 que você depositou na poupança, o Banco só poderá empresta, p. ex., R$ 900,00. R$ 100,00 terão que ficar no Banco Central, imobilizados, sem sair do canto.

Do mesmo modo, caso alguém que pegue esses R$ 900,00 emprestado e também deposite no Banco, o Banco somente poderá dispor de R$ 810,00 (R$ 900,00 – 10%). E assim sucessivamente. Por isso, por mais que seja grande, a capacidade de multiplicação de ativos financeiros é finita.

Como aconteceu recentemente, uma das formas do Banco Central restringir a oferta de crédito é elevando a taxa de compulsório dos Bancos. Com o compulsório elevado, menos dinheiro circulará na economia.

Bancos e governos não gostam de divulgar que não há dinheiro físico em circulação para todos porque temem que pessoas ignorantes, em pânico, corram pra sacar todo seu dinheiro dos bancos (é isso que chamam de corrida bancária). Como não há dinheiro pra todo mundo, haveria uma quebradeira geral. Foi o que aconteceu há uns 10 anos na Argentina, quando todo mundo tinha dólares depositados na conta corrente e todo mundo sabia que não havia dólares suficientes pra todo mundo.

Por isso, se – Deus nos livre isso vir a acontecer no Brasil – um dia começarem boatos de que haverá uma corrida bancária, não se iluda com os desmentidos oficiais: corra, sim, e guarde todo seu rico dinheiro em baixo do colchão, que é mais seguro.

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