O vice ideal

Manter um Blog quase sempre é uma tarefa árdua. O sujeito não ganha nada com isso, o trabalho toma tempo e, salvo pelos 93 fiéis seguidores deste espaço, sempre fica aquela estranha sensação de que você está escrevendo para ninguém. Mesmo assim, de quando em vez, o dono do Blog é premiado com pequenas alegrias cotidianas. E, na maior parte dos casos, o prêmio vem em forma de “você viu antes aqui”.

Quem acompanha o Dando a cara a tapa viu, antes que houvesse sequer murmúrio de algo do gênero na grande imprensa ou em qualquer site de análise política, uma projeção indicando a possibilidade de que o Senador Tasso Jereissati encarnasse essa tal “terceira via” nas eleições de 2022, com chances bem concretas de ser um candidato competitivo. O que antes nem sequer se especulava começou a ser sussurrado e, depois de negacear por algumas vezes, o “Galeguim dos Óio azul” já admite até participar de prévias para disputar o palanque presidencial pelo PSDB.

A tarefa de Tasso, por óbvio, não será fácil. Além das questões pessoais (incluindo a sua frágil saúde cardíaca), o senador cearense precisa passar à frente do governador de São Paulo, João Dória. Candidato ao Planalto desde quando se elegeu prefeito, é no mínimo duvidoso acreditar que Dória – marqueteiro assumido e arrivista aparente – abra mão do sonho de alcançar a cadeira mais poderosa da República de mão beijada. O mais provável é que haja um embate feroz patrocinado pelo governador paulista contra qualquer candidatura interna que lhe faça frente. Só aí, então, será possível aferir com exatidão até onde vão as disposições presidenciais de Tasso Jereissati.

Seja lá como se resolva o imbróglio no ninho tucano, o passo seguinte de qualquer candidato – incluindo o atual inquilino do Planalto – será escolher um companheiro de chapa. O que à primeira vista pode parecer uma escolha trivial – afinal, o senso comum ensina que “ninguém vota em vice” – o parceiro de candidatura pode muito bem acelerar um candidatura que está decolando, como também pode afundá-la de vez, caso esteja fazendo água.

Mas quem seria o “vice ideal”?

Tudo depende, claro, do tipo de público que se queira agregar ao cabeça da chapa. Por exemplo: uma chapa Tasso-Ciro (ou Ciro-Tasso, tanto faz) não faz sentido nenhum do ponto de vista político-eleitoral. Ambos fizeram carreira no Ceará e trafegam quase na mesma pista em todas as matérias do cenário nacional (com um viés mais intervencionista de Ciro Gomes na Economia, mas é praticamente só isso). O vice ideal, portanto, não pode ter a mesma origem do cabeça da chapa e, se possível, deve atuar como “complemento” às qualidades que o candidato a presidente costuma exibir na propaganda. O caso clássico é o da chapa Lula-José de Alencar. A compra do passe do bem sucedido empresário do setor têxtil permitiu que o torneiro bissílabo de São Bernardo conseguisse quebrar parte da resistência que o empresariado tinha contra sua candidatura, de viés marcadamente mais “popular”.

No cenário atual, há vices para todos os gostos. Se o candidato quiser trazer para si o “Partido das Forças Armadas”, a solução óbvia seria escolher o general Santos Cruz como companheiro de chapa. Desde pelo menos o famoso tweet do General Villas Bôas, o Exército passou a atuar com mais desenvoltura na seara política e seria no mínimo ingênuo não reconhecer que a sua “benção” pode impulsionar uma candidatura ao poder, ainda mais se for oposicionista.

Caso o drama do candidato seja ganhar a confiança do pessoal do tal “Mercado”, o vice mais indicado seria, sem dúvida nenhuma, Henrique Meirelles. Cria do próprio mercado, Meirelles teve uma atuação bastante elogiada quando esteve como presidente do Banco Central no governo Lula. Além de trazer para dentro da coligação o PSD de Gilberto Kassab – uma das mais astutas raposas da nova geração política brasileira -, o ex-presidente do BC poderia quebrar resistências a candidatos com fama de serem hostis ao “Mercado” – por exemplo, Ciro Gomes, embora uma chapa Ciro-Meirelles seja das mais bizarras de todos os tempos.

Se, no entanto, o problema for trazer a chamada “política tradicional” para dentro da candidatura – leia-se: tempo de TV e estrutura nos estados e municípios -, não haveria candidato a vice mais indicado do que Henrique Mandetta. Embora ele mesmo conste hoje na lista de presidenciáveis, é improvável que Mandetta venha a concorrer no ano que vem. Falta-lhe estofo eleitoral e, por mais que sua imagem tenha saído praticamente ilesa na pandemia, o ex-ministro da Saúde não parece ter a dimensão necessária para concorrer como cabeça de chapa. No entanto, uma eventual parceria com, por exemplo, Luciano Huck, permitiria sublimar a inexperiência de um neófito na política a partir da junção de um verdadeiro background político formado por gente com experiência de gestão. Ademais, não seria de todo estranho que o DEM de Mandetta carregasse consigo mais ou um dois partidos do Centrão, adicionando musculatura para um embate que promete ser o mais feroz da história recente do Brasil.

A escolha do “melhor vice” passa, portanto, pelo tipo de candidatura que o cabeça da chapa vai encarnar. Mais que isso, o companheiro de chapa representa que tipo de público o candidato a presidente entende importante acolher e pretende contemplar com a escolha. Para quem presta atenção nas entrelinhas, aprende-se muito mais com a escolha do vice do que com a própria escolha do candidato a presidente.

É bem verdade que ainda estamos em 2021. Mas 2022 é logo ali no calendário. E, no tempo da política, as eleições já chegaram (ou então não estaríamos assistindo à CPI da Covid no Senado). E, como se isso não bastasse, desde a redemocratização fomos governador por três vices (Sarney, Itamar e Temer). Logo, considerada a instabilidade da cadeira presidencial em nossa frágil democracia, convém também que a população abra bem os olhos quando for ver quem está colocado ao lado de seu candidato favorito.

Porque, afinal, ninguém sabe o dia de amanhã…

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