Dando a cara a tapa – Semana especial de aniversário: O Brasil dos anos 20

Dando sequência ao especial de aniversário do Dando a cara a tapa, vamos às projeções do Blog para esta década que se inicia no nosso Brasil varonil.

Prever como estará o país daqui a dez anos, obviamente, é quase um exercício de quiromancia. A confiabilidade de projeções em um país no qual mal se consegue prever o dia seguinte já seria, de cara, um exercício de frivolidade. Mas, se é certo que elaborar cenários para um horizonte de tempo tão longo quase certamente resultará debalde, também é certo que permite ao analista afastar-se da miudeza ordinária da nossa política quotidiana para exercer o saudável distanciamento dos ruídos que as crises, reais ou fabricadas, que surgem nesse grande ofidiário conhecido como “Brasília”.

Afinal, que país teremos no final de 2030?

O primeiro passo para entender o que se pode esperar destes anos 20 que se iniciam agora é tentar procurar no passado respostas para o que as novas décadas prometiam quando se iniciavam. Olhar os exemplos na nossa história permite, de alguma forma, imaginar o que pode ocorrer no transcorrer deste decênio.

Evidentemente, os exemplos não podem retroceder muito no tempo, sob pena de desnaturar a comparação em si mesma. Parece evidente que os anos 20 deste novo milênio não serão iguais, por exemplo, aos anos 20 do século passado. Quem celebrou o réveillon de 1920 para 1921, viu o país assistir, a um só tempo, à Semana de Arte Moderna de São Paulo e à Revolta Tenentista de 1922. Na virada de 1930 para 1931, quem havia vivido sob o império da República do Café-com-Leite agora via no governo um estancieiro gaúcho que havia perdido a eleição presidencial para o seu rival. O Brasil de 1920 jamais poderia imaginar que acabaria no Brasil de 1930.

Para minimizar os problemas decorrentes dos paralelos históricos, a única alternativa é tentar restringir ao máximo a tecla de rewind do videocassete, de modo que os paradigmas não pareçam absurdamente desconexos no quadro comparativo. Adotando-se essa regra (que está mais para conselho), pode-se admitir como possível invocar as décadas pelas quais passou o Brasil desde a redemocratização, em 1988.

Olhando-se em retrospecto as décadas de 90, 2000 e 2010, observa-se algo similar em todas elas: os primeiros dois anos foram decisivos para o desenrolar do que se passou posteriormente. A tal ponto que não seria exagero dizer que os anos 1 e 2 dessas três décadas acabaram por definir como Brasil as terminaria, quando o numeral zero voltasse à quarta casa da contagem milenar.

Em 1991/1992, o Brasil viu a esperança depositada na primeira eleição de um presidente desde o golpe de 64 soçobrar inapelavelmente diante da corrupção e do desastre administrativo provocado por Fernando Collor de Mello. O impeachment, nesse caso, ao invés de funcionar como “trauma”, serviu como bálsamo. O país pareceu retomar o caminho e, a partir dali, viveu uma espiral virtuosa que o conduziria à virada do milênio em condições razoavelmente melhores do que o começo da década.

2001/2002 não fugiu à regra. A tragédia do governo Fernando Henrique, que se arrastou durante oito longos anos graças à compra da emenda da reeleição, encerraria seus últimos atos com direito a apagão (em 2001) e uma crise cambial que quase pôs o tripé câmbio-flutuante-metas de inflação-rigor fiscal a perder. O desastre foi tão grande que permitiu a Lula eleger-se enfim presidente da República, depois de perder por três vezes. Tal foi a ojeriza que o povo desenvolveu ao PSDB que Lula, mesmo alvejado pelo escândalo do Mensalão, pôde terminar o seu mandato, reeleger-se e, ainda por cima, eleger sua sucessora, com o bônus de ainda receber de Barack Obama o epíteto de “político mais popular da Terra”.

Em 2011/2012, no entanto, a regra parece ter sido abandonada. Os furos no caso da nau petista já faziam água por todo o lado, mas o comando do navio havia sido entregue às mãos ineptas de Dilma Rousseff. É verdade que Dilma só viu a coisa realmente ficar feia a partir de junho de 2013. Mas já naqueles dois primeiros anos era possível enxergar o caldo engrossar e a panela começando a pegar pressão. Quem quiser tirar a dúvida, pode consultar os posts daquela época aqui no Blog.

À reeleição de Dilma – numa campanha marcada pela infame difamação de Marina Silva e pelo uso escancarado de dinheiro público sorvido, principalmente, da Petrobras (o famoso “Petrolão”) – seguiu-se esse cenário de horror que vivemos até o momento. O traumático impeachment da ex-guerrilheira, sucedido pelo governo natimorto de seu vice, Michel Temer (que oficialmente acabou no dia do grampo do Jaburu), acabou redundando na eleição de Jair Bolsonaro. Nesse meio tempo, tivemos mais uma “década perdida” na economia e o retrocesso democrático acontece a olhos vistos. Pela primeira vez desde a redemocratização, portanto, o Brasil encerra uma década pior do que quando a iniciou.

Considerando-se tudo isso, pode-se imaginar que muito do que nos espera em 2030 passa pelo que vai acontecer por aqui nos próximos dois anos. O caminho que o país – e por “país”, entenda-se: Presidente, Congresso, Supremo, empresariado e população – decidir trilhar neste biênio que se inicia será decisivo para saber que Brasil teremos ao final deste decênio.

Pode ser, por exemplo, que Jair Bolsonaro e sua equipe descubram uma vocação gerencial que até agora não conseguiram demonstrar, e façam com que o país aproveite essa absolutamente boçal inundação de liquidez promovida pelos bancos centrais para reorientar o eixo econômico do governo e, de fato, operar uma “recuperação em V” (que, por ora, só existe no discurso gasto de Paulo Guedes). Ou pode ser que a coisa descambe para o populismo mais descarado, com volta da inflação e artifícios macroeconômicos “à la Dilma”, como a infame “contabilidade criativa”. Seja como for, o jogo aí é binário: ou acontece uma coisa ou acontece outra, sem espaço para meio-termos.

Não se olvide, por óbvio, da garantia das franquias democráticas. Mesmo com o bisonho recorde de abertura de inquéritos com base na Lei de Segurança Nacional e um sem-número de manifestações fascistóides nas redes insociáveis, ainda vivemos formalmente numa democracia. Uma eventual recaída autoritária por parte dos ocupantes do poder, contudo, pode jogar tudo a perder, principalmente porque o Brasil não é os Estados Unidos, um lugar onde, de fato, as tais “instituições” funcionam.

O que esperar, portanto?

Considerando-se o estado atual das coisas e a dinâmica do país em que estamos vivendo, parece justo concluir que, muito possivelmente, os anos 20 seguirão o exemplo dos anos 10. Consequentemente, teremos em 2030 um país pior do que o que temos hoje. Mas, se servir de consolo para o pessimismo deste que vos escreve, também é possível intuir que o Brasil do final desta década será melhor do que o Brasil do meio da década.

Entendedores entenderão…

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