Triste fim de Policarpo Quaresma

Uma das vocações naturais deste Blog – como, de resto, deveria ser de qualquer outro Blog – é a difusão da cultura. Não por acaso, há aqui uma seção inteiramente dedicada às Artes, nas quais cinema, pinturas e a tão necessária literatura acabam se combinando para passar ao distinto público um pouco da experiência deste que vos escreve.

Entretanto, já há algum tempo os pots dedicados à essa seção rarearam, ficando quase que exclusivamente restritos ao nosso tradicional bolão anual do Oscar. Para reparar esta falta indesculpável, vamos hoje retomar esse assunto tão importante com uma das mais belas obras da literatura nacional e um bálsamo para a mente de um adolescente pré-universitário do final dos anos 90: Triste fim de Policarpo Quaresma.

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Escrito por Lima Barreto, Triste fim de Policarpo Quaresma foi primeiramente publicado através de três folhetins no Jornal do Commercio do Rio de Janeiro. Posteriormente, o texto foi reunido numa única publicação e tomou a forma com a qual o conhecemos hoje. Desde então, tornou-se presença obrigatória em qualquer cânone da literatura nacional.

O livro conta a saga de Policarpo Quaresma, o protótipo do patriota nacionalista. A vizinhança o respeitava, mas de certa forma estranhava seus hábitos, digamos, “diferentes”. Seu amor pelos livros, somado ao seu nacionalismo exacerbado, tornavam-no uma figura a um só tempo curiosa e estranha.

Quaresma adorava exaltar o Brasil como o país de berço esplêndido, rico em minérios e em natureza, pronto para despontar como potência mundial. As coisas pioram um pouco quando ele resolve escrever um ofício ao Congresso solicitando a troca do português pelo tupi-guarani como língua oficial do país. O texto resume bem o que é a personagem:

“Policarpo Quaresma, cidadão brasileiro, certo de que a língua portuguesa é emprestada ao Brasil; certo também de que, por esse fato, o falar e o escrever, em geral, se vêem na humilhante contingência de sofrer continuamente censuras ásperas dos proprietários da língua; usando do direito que lhe confere a Constituição, vem pedir que o Congresso Nacional decrete o tupi-guarani como língua oficial e nacional do povo brasileiro. Senhores Congressistas, o tupi-guarani, língua aglutinante, é a única capaz de traduzir as nossas belezas, de pôr-nos em relação com a nossa natureza e adaptar-se perfeitamente aos nossos órgãos vocais e cerebrais, por ser criação de povos que aqui viveram e ainda vivem”.

Escrito o ofício, Policarpo tomou seis meses de hospício para “ajustar as idéias”. Desgostoso com a política e com a cidade, resolve então se mudar para um sítio no interior, cujo nome é sugestivo das intenções de seu dono: Sossego.

Mas sossego é tudo que não ocorre a Policarpo quando ele se muda para lá. Sem querer se imiscuir na politicagem local, Quaresma arrosta taxas e impostos por cima de impostos, tudo para persegui-lo. Se isso não bastasse, nem mesmo sua recém-descoberta paixão pela botânica sobrevive às agruras da labuta do interior. Às voltas com uma infestação de saúvas, decreta: “Ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil”.

Desgostoso agora com o campo, Policarpo volta à cidade. Agora, para se tornar “Major” do Marechal Floriano Peixoto. Alistado para combater na Revolta da Armada, Quaresma. A tensão do ambiente revoltoso abre espaço para aquilo que é de hábito em sedições: prisões arbitrárias e violências de toda sorte. Acompanhadas, é claro, pelo carreirismo de cupinchas e puxa-sacos que adoram vender lealdade à primeira oportunidade de ascensão social que aparece.

Desgostoso, enfim, com o Exército, Policarpo resolve escrever ao próprio Floriano para denunciar o estado de coisas que estava a assistir. Resultado? Entra em cana, acusado de ser um traidor da causa. Ou seja: o único e verdadeiro patriota de todo o livro é justamente o sujeito que toma uma cadeia por “traição à pátria”. Entristecido, Policarpo só então se dá conta de que a “pátria” à qual dedicara sua vida não passara de uma ilusão. Quaresma, por fim, é fuzilado por um pelotão por ter “traído” a pátria que, com tanto gosto, amou.

A narrativa de Lima Barreto se sobressai porque, no meio de tudo isso, ele consegue desconstruir de forma elegantemente irônica o ideal de um país romântico sonhado pela personagem principal. Entre aquilo que Policarpo Quaresma sonhava e aquilo que era o Brasil real, havia uma imensa distância a percorrer.

Não faltam, por evidente, críticas sarcásticas aos funcionários públicos, em especial os carreiristas. Lima Barreto brilha ao ridicularizar em sua obra um país no qual prevaleciam um general que não participa de qualquer batalha (General Albernaz), e um almirante que não possuía sequer navio para exercer seu comando (Almirante Caldas).

Claro, há um quê de autobiográfico no relato da vida de Policarpo Quaresma. Descendente de escravos, Lima Barreto sentiu na pele o que era viver no Brasil da virada do Oitocentos, com pouco mais de duas décadas de abolição da escravatura. Ele mesmo um funcionário público de carreira, Lima Barreto conhecia a fundo a estrutura burocrática do Brasil. Talvez exatamente por isso, a obra retrata de forma tão pouco lisonjeira o funcionalismo.

Seja como for, o fato é que Triste fim de Policarpo Quaresma desconstrói de forma sagaz, irônica e divertida o mito do “Brasil Grande”, retratando o país exatamente como ele é, com todos os seus defeitos e contradições. P

Para quem gosta de literatura, é livro de leitura obrigatória e presença indispensável na biblioteca. Nele, aprende-se muito sobre o Brasil, e muito mais sobre nós mesmos. É o que você vai entender, lendo-o.

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