Por que a religião é tão importante?

Um dos assuntos que considero mais relevantes nas discussões aqui do Blog é a religião. A despeito de ser uma dos menos “postados”, ou seja, uma das que tenha menos posts escritos, ainda assim é uma das seções mais visitadas pelos marinheiros de primeira viagem, que aqui desembarcam após uma pesquisa aleatória no Google. Mesmo assim, há quem costume confrontar o Autor com uma pergunta incômoda: “Mas por que você escreve sobre religião?”

Por trás da pergunta – embora disfarçado – está um certo tipo de preconceito com quem a pratica. Indaga-se sobre a religião como se fosse algo desimportante na vida das pessoas. Curiosamente, as mesmas pessoas que me perguntam sobre a razão de escrever sobre religião não se espantam com o fato de também haver aqui uma seção de Culinária. Na escala deles, escrever sobre modos de surpreender o paladar talvez seja mais importante do que discutir a fé que nos move, suponho eu.

De todo modo, a pergunta dirigida ao Autor conduz a uma temática interessante: por que a religião é tão importante? Por que a imensa maioria da humanidade acredita na existência de um ser – ou seres – superior e se dispõe a seguir um determinado código de conduta definido supostamente por ele?

A questão é rica e controversa por natureza.

Pode-se dizer, por exemplo, que a religião oferece respostas para uma série de perguntas para as quais a ciência é simplesmente silente: “De onde viemos?” “Para onde vamos?” “Será que lá tem Internet?” Isso, no entanto, explica porque precisamos da religião, mas não explica a sua importância em si. Precisamos da religião como forma de nos confortarmos diante da nossa evidente irrelevância para o Universo, caso não houvesse um propósito na nossa criação. É dizer: se não há um Deus por trás de cada ação particular no Universo, teríamos de aceitar que somos fruto do acaso e da conjunção aleatória de partículas e eventos. E que, depois desta breve existência terrena, não nos restará outro destino senão seguir a Lei da Conservação das Massas de Lavoisier e nos transformar novamente em partículas e moléculas, que aleatoriamente formarão um pedaço de chão ou de água deste pequeno planeta.

A religião é importante não porque dá respostas para dúvidas existenciais, mas porque todas elas, de uma maneira ou de outra, estabelecem uma cláusula de compromisso com seus fiéis. Há uma série de regras que devem ser obedecidas para satisfazer uma determinada entidade divina e que, uma vez desobedecidas, lançam em desgraça quem não as segue. São essas regras que afastam uma liberdade de ação absoluta do homem, o que poderia conduzir a um estado permanente de caos social.

Isso por ser mais bem explicado citando-se Shakespeare. Durante a famosa reflexão de ser ou não ser, Hamlet questiona-se sobre a conveniência do suicídio, ao indagar quem levaria uma vida tão fatigante (“a weary life“) se não tivesse receio do que poderia lhe acontecer depois da vida, caso se matasse (“the dread of something after death“)? É dizer: o que impediria o suicídio senão o castigo divino para quem o pratica?

A existência de uma entidade divina superior nos impede de fazer tudo aquilo que nos dá na telha, sem nos preocuparmos com as consequências de nossos atos. A religião provém, pois, uma “consciência” permanente a todo ser humano. Pois quem se importaria em cometer qualquer tipo de atrocidade ou ignomínia se, no final das contas, a vida vai passar e nada vai acontecer depois dela?

Além disso, a religião é importante por conferir suporte moral às regras de conduta. Do ponto de vista estritamente jurídico, a linha divisória entre o certo e o errado é traçada por estar dentro ou fora da lei. Assim, se me conduzo dentro dos limites legais, estou agindo corretamente. Se, ao contrário, deixo de cumprir o que a lei determina, estou agindo de forma errada. Mas se a lei que divisa a fronteira entre o certo e o errado for injusta? Na Alemanha Nazista, por exemplo, todas as ações anti-semitas estavam firmemente amparadas no ordenamento jurídico. Terão Eichmann e os demais membros da trupe nazista agido de maneira correta? É evidente que não.

Esse exemplo radical serve apenas para demonstrar que a norma jurídica é, por definição, algo desprovido de conteúdo moral. Ela pode ser boa ou má, justa ou injusta, conforme o regime que a produziu. Tê-la, portanto, como régua para demarcar a fronteira entre o certo e o errado nem sempre pode ser a melhor opção.

É aí que entra a religião. Seja no cristianismo, no islamismo, no judaísmo e até mesmo numa religião “atéia” como o budismo, estabelece-se para os seus seguidores um código de conduta movido por princípios morais, como fazer o bem e respeitar o próximo. Quer queira, quer não, o fato é que boa parte do que hoje conhecemos como “direitos fundamentais” assenta-se em princípios religiosos estabelecidos há mais de dois mil anos: “Não roubarás”, “não matarás”, “não cometerás falso testemunho”, e por aí vai.

Muitos filósofos – como Sartre, por exemplo – tentaram desenvolver um código de condutas universal que não dependesse de uma religião qualquer. A chamada “moral laica” pretendia estabelecer uma série de regras baseadas unicamente na razão, na lógica e até na intuição para regrar o comportamento humano. Todas as tentativas, contudo, resultaram em retumbante fracasso. Ninguém até hoje conseguiu escapar da armadilha lógica do casuísmo, ou seja, da possibilidade lógica de que uma regra adotada em determinada sociedade pode não se aplicar e ser considerada até injusta por outra sociedade do outro lado do planeta.

A falha da filosofia em construir a chamada “moral laica” torna a religião cada vez mais importante nos dias de hoje. E é por isso que, pelo menos por um bom tempo ainda, ela continuará sendo um  tema muito relevante neste espaço.

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10 respostas para Por que a religião é tão importante?

  1. O Meio e o Si disse:

    Sugiro a leitura (e o compartilhamento no seu blog, caso goste!) desse post, “Graças a Darwin!”:
    http://omeioeosi.wordpress.com/2013/07/14/gracas-a-darwin/
    Abs

  2. adalberto nascimento disse:

    interessante, a Religião auxilia o ser humano no contato com o outro e consigo mesmo!!! Abs.

  3. San disse:

    Interessante o que você escreveu. Me ajudou a ter uma visão mais ampla de algumas coisas.

  4. Maria da Paz disse:

    Fomos criados para ser “um com o outro”, através da comunhão espiritual a fé nos aproxima.

  5. Michelly disse:

    Muito obrigado por me ajuda. Mas que eu tavo lendo que tem filosofia e outros ne

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