Curiosidade infantil

Criança é uma graça. Quando não estão aprontando, estão pensando em alguma forma de aprontar. Mesmo quando nenhuma traquinagem lhes atravessa o intelecto, por vezes a própria curiosidade faz despertar o sorriso alheio.  Era o que acontecia com Raul.

Sempre peralta, Raul exalava esperteza pelos poros. Era como se nada pudesse estar fora do seu radar. Ainda que seus sete anos não permitissem maiores aventuras literárias, a argúcia do seu raciocínio desafiava a credulidade dos adultos que lhe rodeavam. Quando não contraditava professores com teorias sobre a evolução da vida na Terra (especialmente quando ela envolvia dinossauros), lá estava ele a dissecar as diferenças entre as correlações de poder entre as forças econômicas (especialmente quando o que estava em jogo era o tamanho da mesada que ele iria receber).

Como o menino fosse bom de contas, resolveu Raul indagar sobre a sua própria existência. E não, ele não começou a desenvolver um raciocínio do tipo “penso, logo existo” (até para um rapaz da sua sagacidade tal nível de intelectualidade seria demais). Na verdade, Raul começou a projetar uma retrospectiva muito simples da sua idade. Sabendo a data de casamento de seus pais e o período de gestação de um bebê, Raul poderia perfeitamente calcular quando teria sido concebido. A partir daí, bastava que a Aritmética fizesse a sua parte.

Como o guri havia nascido em outubro, a data de sua concepção deveria girar entre janeiro e fevereiro do mesmo ano. Qual o problema? Os pais dele haviam casado só em maio. Logo, só poderia haver uma explicação para o dilema:

“Mãe, eu sou prematuro, né?”, perguntou um desconfiado Raul à sua genitora.

“Não, meu filho. Que história é essa? Você nasceu normal, de nove meses”, retorquiu na hora a mãe de Raul.

“Mas, mãe, como eu posso ter nascido normal se vocês casaram em maio e eu nasci em outubro? Só dá seis meses entre o casamento da senhora com o papai e o meu nascimento”, explicou pormenorizadamente o menino.

Pega na mentira, à mãe não restou outra alternativa senão recorrer à fantasia:

“Não, meu filho, sabe o que é? É que você era um menino tão querido, papai e mamãe queriam tanto que você viesse, que você foi gerado antes do casamento”.

E foi assim que Raul descobriu que não era só o casamento que fazia nascer bebês.

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