Passando no vestibular

Quem é mais novo nunca vai saber, mas nada era mais terrível para um adolescente do que o vestibular. Tragédia em forma de questões, o vestibular detonava os nervos de qualquer um à medida que a fatídica data do exame se aproximava. Se já não bastassem os hormônios explodindo por todos os poros, o sujeito ainda tinha que se virar pra decidir o que iria fazer para o resto da vida quando não tinha sequer 18 anos. E o que é pior. Tudo decidido numa única tarde de prova. Se a coisa era naturalmente pesada para qualquer estudante, ganhava ares de conto de Stephen King para quem não tinha nascido em berço de ouro.

Na Fortaleza da década de 90, por exemplo, a estudantada lisa – a imensa maioria – tinha que se virar entre UFC (Federal) e UECE (Estadual). As duas únicas universidades públicas ofereciam cursos superiores gratuitos, o que era uma mão na roda para quem não vinha de famílias mais abastadas. O problema é que nem sempre as duas ofereciam o mesmo curso. A Estadual, por exemplo, não oferecia os cursos de Medicina e Direito, os mais concorridos de qualquer vestibular. Logo, se o liso quisesse ser médico ou advogado, ou passava no vestibular da Federal, ou dava um jeito de pagar o cursinho no ano seguinte.

Quem tinha um pouquinho mais de recursos, no entanto, sempre poderia se safar com a Unifor. Única universidade privada que havia nas redondezas, a Universidade de Fortaleza oferecia quase todos os cursos da grade, com a vantagem de possuir muito mais vagas. Melhor: ainda que o sujeito não estivesse entre os primeiros colocados, sempre havia a possibilidade de ingressar através de alguma desistência, já que quem passava na UFC ou na UECE acabava por escolher a pública para não pagar a privada.

Lá pelo final da década, o panorama começou a mudar. Como as universidades públicas não se expandissem, muita gente começou a cobiçar o filão dos estudantes que não conseguiam passar de primeira no vestibular. A Unifor, até então monopolista no ramo do ensino superior privado, começou a sofrer concorrência de outras faculdades.

Sem o respaldo ou a tradição da pioneira, as novas faculdades desenvolviam uma estratégia agressiva de arregimentação de estudantes, valendo até enviar cartas de felicitação pela aprovação a quem não tinha ido sequer fazer a prova. A seleção, por óbvio, não obedecia a critérios meritocráticos, mas, sim, a padrões financeiros: quem tinha disponibilidade em caixa para fazer frente às mensalidades poderia se considerar dentro. Por isso mesmo, os estudantes apelidavam jocosamente as novas universidades de PPP: “Papai pagou passou”.

Sabendo disso, Rafaela, que nascera em berço de ouro e nunca quisera ovo com a vida, resolveu prestar vestibular para uma dessas novas faculdades. O terceiro ano nem sequer tinha terminado, mas ela já havia recebido as felicitações pelo Correio. Bastava pegar o diploma do segundo grau e passar no guichê da nova faculdade que ela seria agora uma universitária.

Feliz da vida, Rafaela passeava nos corredores do colégio quando avistou seu professor de História. Grosso e carrancudo, o educador batia papo com mais duas alunas sobre as agruras do vestibular. Uma delas acabou por lhe informar que havia passado no vestibular de uma outra universidade federal.

“Ah, meus parabéns!”, felicitou todo contente o Professor.

“Professor! Professor! Eu também passei no vestibular da faculdade X!”, apressou-se Rafaela em avisar.

O velho mestre não mexeu uma sobrancelha. Limitou-se a acender mais um cigarro.

“Professor, o senhor não me ouviu, não? Eu passei na faculdade X!”, insistiu Rafaela.

“Sim , eu ouvi”, respondeu laconicamente o professor, enquanto dava mais um trago no seu cigarro.

“Ué? E o senhor não vai me dar os parabéns, não?”, perguntou incrédula Rafaela.

“Ora, porra! Tu nem fez vestibular!”, encerrou o velho professor.

E Rafaela aprendeu que nunca se deve fazer perguntas se você não estiver preparada para ouvir a resposta.

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