Operação Juízo Final, ou O Brasil na encruzilhada

Todo mundo conhece mais ou menos a narrativa bíblica sobre o fim dos tempos.

No último dos dias, Jesus retornará dos Céus para comandar o julgamento dos vivos e dos mortos. Numa espécie de “audiência coletiva” presidida pelo Pai, todos serão chamados um a um para serem julgados sobre suas obras neste mundo (II Pedro, 3:10-13). Aqueles cujos pecados forem retidos serão lançados em um lago de fogo e enxofre, onde queimarão em tormento perpétuo, enquanto os justos serão levados para o lado do Senhor, para viver em paz a vida eterna (Mateus, 25:46). A essa dia, a tradição cristã resolveu dar o nome de “Juízo Final”.

De acordo com a Bíblia, Deus não fará distinção de lugar e data. Todos serão chamados na mesma bat-hora, no mesmo bat-local, para prestar contas com Ele. Mas, de algum modo, o que vem acontecendo no país nos últimos tempos leva a crer que o Juízo Final resolveu começar antes pelo Brasil.

Já faz uns dois anos desde que uma investigação da Polícia Federal de Curitiba desbaratou uma quadrilha responsável por lavagem de dinheiro. Envolvendo nomes já conhecidos de outros carnavais, como o doleiro Alberto Youssef, a Operação Lava-Jato começou a puxar o fio de novelo da grande corrupção nacional. Passo a passo, os investigadores foram subindo os degraus do organograma criminoso: do doleiro ao diretor da Petrobras; do diretor da Petrobras ao empreiteiro que o corrompeu; do empreiteiro que o corrompeu até o político que recebeu o dinheiro desviado do esquema. Daquilo que parecia um arranjo delituoso localizado, semelhante a tantos outros espalhados pelo Brasil, rapidamente chegou-se ao coração do poder, detonando a crise política que culminou com o impeachment de Dilma Rousseff.

Do lado de quem se opunha à deposição de Dilma, arguia-se sempre o caráter “partidário” das investigações, como se só o pessoal do PT estivesse sendo investigado. Fora isso, afirmava-se que os interessados no impedimento da presidente não estavam preocupados com eventuais crimes de responsabilidade que ela tivesse cometido, mas, sim, em salvarem seus próprios pescoços, ameaçados pela degola coletiva promovida pelo avanço das investigações da Lava-Jato. Ontem, no entanto, essa narrativa foi para o espaço.

Como todo mundo agora sabe, o ex-todo-poderoso presidente da Transpetro, Sérgio Machado, negociou um acordo de delação premiada com a Procuradoria-Geral da República. Tendo um telefone como arma e a cara-dura como munição, Sérgio Machado saiu gravando todos os diálogos que podia com seus padrinhos do PMDB do Senado. Até agora, tem-se a certeza de que o ex-presidente da Transpetro grampeou Romero Jucá e o presidente do Senado, Renan Calheiros. Murmura-se nos bastidores que outras cabeças coroadas estariam a prêmio, sendo a mais reluzente delas a do ex-presidente José Sarney.

Na bomba que explodiu na segunda-feira, Romero Jucá fala abertamente na tentativa de criar um “pacto” para “delimitar” as investigações da Lava-Jato. Embora o agora ex-ministro do Planejamento não fale em qualquer ação específica para deter a Operação, o desconforto com seu avanço é evidente. Daí a necessidade de “estancar a sangria” produzida pela “República de Curitiba”.

Explodido o artefato, o petismo enxergou seu retorno triunfal à ribalta. Os áudios vazados revelariam a farsa do “golpe”, ao mesmo tempo em que implodiriam o governo neonato do vice, Michel Temer. Restaria, agora, “reorganizar” as forças “à esquerda”, colocar a “massa na rua” e trazer de volta o “governo democrático e popular”.

Só que não.

Embora o governo de Michel Temer não fique nem um pouco bem na fita com a divulgação dos diálogos de Sérgio Machado e Romero Jucá – especialmente pela nomeação deste último para o Ministério -, o fato é que o vazamento dos áudios comprova que a Operação Lava-Jato, de partidária, não tem nada. Ou alguém por aí consegue imaginar que uma investigação “contra o PT” pode lucrar alguma coisa provocando uma crise política desse dimensão, ainda mais em um governo que mal completou duas semanas?

Como se isso fosse pouco, a bomba foi detonada por uma personagem que cresceu à sombra do petismo. Dos 13 anos em que o PT esteve na Presidência, nada menos do que 11 tiveram Sérgio Machado como presidente da Transpetro. Foi ele o responsável por gerir uma das jóias do projeto petista de “reconstrução nacional”: o Pronefro, Programa de Renovação da Frota. Ao melhor estilo “Brasil Grande”, prometeu-se o “renascimento da indústria naval brasileira”, com novos estaleiros, milhares de empregos e navios tinindo em folha. Como legado, restaram dívidas bilionárias de armadores quebrados, milhares de desempregados e uma penca de navios por entregar. Nesse contexto, é no mínimo irônico ver os petistas celebrando a explosão de um homem-bomba cevado durante mais de uma década por governos “de esquerda”.

Além de comprovar que a investigação não tem qualquer viés partidário, o episódio Jucá-Machado demonstra que o sistema político brasileiro tornou-se completamente disfuncional. E tornou-se disfuncional não por conta de fatores endógenos, como a proliferação hedionda de partidos políticos. Bem ou mal, o Brasil conviveu com mais de 20 partidos políticos por mais de duas décadas sem que jamais tenha experimentado crise semelhante. Não seriam 10 partidos a mais que fariam grande diferença. A grande disfuncionalidade do sistema político brasileiro é provocada por um fator exógeno: a Lava-Jato.

De fato, já se viu em vários episódios anteriores o mesmo enredo: há um escândalo na praça, vários políticos são envolvidos e, com o tempo, tudo é esquecido ou anulado por uma decisão controversa do Poder Judiciário. Salvo a entrega de um ou outro bagre como boi de piranha, os tubarões sempre passavam pela rede de Justiça lépidos e fagueiros, virtualmente imunes a qualquer tipo de investigação.

Agora, não. Desde junho de 2013, o jogo mudou. Hoje, a malta não parece mais disposta a engolir a seco ajustes espúrios travados nas sombras dos bastidores. A cada tentativa de frear o avanço das investigações seguem-se novos surtos de prisões e crises políticas, fazendo com que os agentes interessados em interrompê-las caiam em desgraça ainda maior do que a que já estavam.

Justamente em razão disso, o sistema assiste atônito à sua invasão por esse “corpo estranho”. Nada parece capaz de detê-lo. Antes, uma conversa de pé de ouvido com o integrante “certo” de um tribunal superior qualquer seria capaz de resolver o problema. Hoje, as gravações clandestinas vazadas só denunciam o inconformismo da classe política com o STF. “Acovardado”, ele recusa-se a integrar o “grande pacto de salvação nacional”.

Por isso mesmo, a classe política pode até ter pensando em derrubar Dilma Rousseff para salvar a si própria. Certamente houve quem acreditasse ser possível entregar a cabeça da Presidente da República para, com isso, escapar à turba sedenta de justiça. Mas, como ensinam as crônicas marciais, todos estavam lutando a guerra passada. A ninguém ocorreu que os tempos haviam mudado.

Agora, resta saber como organizar uma estrutura de governo despida dos velhos vícios da política tradicional. A nomeação de qualquer investigado pela Lava-Jato tende a ser apenas um escândalo esperando para acontecer. E ninguém tem o poder de parar a Operação.

O Brasil, pois, chegou numa encruzilhada. O antigo sistema político está podre e seu expurgo não pode mais ser detido. Enquanto isso, um novo sistema político, com novos atores, ainda não apareceu no horizonte. Como faremos para chegarmos vivos do outro lado?

Só Deus sabe…

Anúncios
Esse post foi publicado em Política nacional e marcado , , , . Guardar link permanente.

2 respostas para Operação Juízo Final, ou O Brasil na encruzilhada

  1. Pingback: Um país na berlinda, ou As instituições estão funcionando? | Dando a cara a tapa

  2. Pingback: Recordar é viver: “Um país na berlinda, ou As instituições estão funcionando?” | Dando a cara a tapa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s