A dor na consciência, ou As vantagens de se seguir na retidão

Já faz muito tempo.

Eu deveria ter algo com uns 8 anos. Minha avó, uma imigrante tão desenrolada quanto sábia, dirigia seu Fusca 1900 e bolinha levando-me não sei para onde. Precoce como só eu, resolvi discutir com ela um caso de corrupção rumoroso da época. Não me recordo qual, o que, tratando-se de Brasil, não chega a ser espantoso. Como eu argumentasse – crianças são sempre cheias de toda a razão, por mais estúpida que seja – que o sujeito envolvido no escândalo tinha mais era que roubar mesmo, uma vez que a investigação não daria em nada, vovó replicou com seu sotaque indisfarçável algo mais ou menos assim:

“Se os corruptos soubessem a satisfação que dá deitar a cabeça no travesseiro sabendo que nada de mal pode lhes afetar, praticariam a honestidade o tempo todo”.

Sabe-se lá por que razão, mas o fato é que essa frase nunca me esqueceu. E olha que nem sequer estava ligada a algum fato grave da minha vida ou a algum caso incidente. Foi uma conversa trivial, quase desimportante, entre uma senhora septuagenária dirigindo um automóvel proletário e uma criança presunçosa sentada no banco de trás, onde cabia pouca coisa, muito menos o seu ego.

Ultimamente, com todas essa sequência estonteante da Lava-Jato, em que as fases da operação se sucedem com a rapidez de um jogo de videogame, tal pensamento voltou a trespassar minha mente. Com efeito, é difícil não ver na TV aquelas imagens de outrora poderosos Senhores do Universo, que viviam em um mundo no qual tudo era possível, menos a persecução penal, e imaginar que havia algo de verdadeiramente sábio nas palavras aparentemente despretensiosas da minha avó.

Se nós formos olhar a fundo a lista de pessoas presas e/ou indiciadas e/ou condenadas pela Operação Lava-Jato, dificilmente veremos pés-rapados que não têm onde cair morto. Não, não, absolutamente. Todos formam aquela nata que trafega elegantemente entre os discursos de agradecimento dos governantes e as capas da Revista Caras. Bajulados, paparicados, adulados pelos pretensos Donos do Poder, são eles os verdadeiros titereiros a movimentar esse imenso teatro de fantoches representado diuturnamente pela mídia do Brasil. Assim como os responsáveis pelo movimento dos bonecos, eles não gostam de aparecer. Afinal, a grande graça reside em manipular os títeres de maneira que o público acredite na farsa de que eles possuem vida própria. E, no final das contas, não seria exagero dizer que são os próprios espectadores que são manipulados por eles.

Entre carros importados, iates de 250 pés e jatinhos de última geração, todos eles viviam uma fantasia de pompa e circunstância. Montados em toda a comodidade que o dinheiro pode proporcionar, esses novos (ou seriam velhos?) Senhores do Universo transportavam seus cotidianos por dentro de um mundo paralelo que parecia retirado de algum romance do Oitocentos: tudo é fácil, tudo é permitido, nada será condenado.

Eis que de repente surgem Sérgio Moro e a turma de procuradores do MPF para trazer os maganos de volta à realidade. Quer dizer: realidade não, porque nada parece mais irreal no Brasil descoberto por Cabral do que gente poderosa vendo o sol nascer quadrado. Subitamente, aquele universo paralelo no qual deitavam e rolavam se desmancha no ar, e o sujeito se descobre tão alcançável pelo braço da Justiça como o ladrão de galinhas preto, pobre e prostituído.

Pode-se sempre argumentar que nenhum desses Senhores do Universo pensava conscientemente em praticar o mal. Do ponto de vista estritamente filosófico, o mal não existe. Não existe algo como “dor na consciência” para eles. O mal praticado sempre será um bem, a seu ver. Mesmo os atos mais sórdidos são postos em execução sob a perspectiva individual de que há algo de bom por trás deles.

Todavia, quando se observa os senhores dos banquetes em mesas de linho fino almoçando marmitex e gente que mandava e, sobretudo, desmandava no governo sofrendo de insônia por medo de ser preso pela Polícia Federal, algo de novo surge no horizonte. De repente, aquele cinismo inconsequente presente no raciocínio daquela criança imberbe deixa de fazer qualquer sentido. Sim, quem vive na honestidade leva grande vantagem  sobre quem resolveu viver no mundo das sombras. Põe a cabeça no travesseiro, dorme e acorda sem o receio de ser levado em um camburão, sob os holofotes incessantes da mídia.

Pode parecer pouco e até trivial para boa parte da população, mas pergunte a qualquer desses maganos: você trocaria a vida de luxo que levou pela tranquilidade que hoje poderia ter?

E isso se aplica não somente a grandes atos de corrupção. Até mesmo casos banais, como mentir para um amigo ou traição entre cônjuges, despertam o mesmo tipo de problema. Para quem sai da linha, a mentira ou a traição pendem sobre a cabeça tal qual a espada de Dâmocles: “E se alguém descobrir?”, pensa o sujeito que acha que passou a perna no outro.

Já para quem caminha na retidão, a situação é o exato oposto: faça chuva ou faça sol, independentemente do tamanho da crise ou do problema, o sujeito pode colocar a cabeça no travesseiro e dormir como um bebê.

Hoje, mais do que nunca, vejo que Vovó tinha razão: não há preço que pague a tranqüilidade da consciência.

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2 respostas para A dor na consciência, ou As vantagens de se seguir na retidão

  1. Mourão disse:

    Que bom seria se muitos dos que ainda hoje arrotam poder e moralidade, encastelados em trincheiras da Justiça, pudessem, também, ser livremente de denunciados.

    • arthurmaximus disse:

      Mas isso já acontece, Comandante. Vide o caso dos desembargadores do Tribunal de Justiça do Estado do Ceará afastados pelo CNJ após a descoberta de um esquema de venda de liminares. Um abraço.

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