La Gioconda, ou Os mistérios da Mona Lisa

Com tanta coisa ruim acontecendo no mundo, eis que irrompe no noticiário mais uma daquelas estupidezes tragicômicas do nosso dia-a-dia. Ontem, sem mais nem menos, um sujeito entrou no museu do Louvre e “atacou” a Mona Lisa, o quadro mais famoso do local (e possivelmente do mundo). O ataque veio na forma de ovo, misturado à farinha, manteiga e cobertura. Não se sabe o que recheava o bolo, mas o leitor amigo haverá de imaginar que tipo de coisa recheia a cabeça do imbecil responsável pelo “atentado”.

Embora o alívio cômico sirva como lenitivo neste tempo de infinitas agruras, o episódio pitoresco serviu para lembrar que, por aqui, também há uma seção de Artes. E, por mais abandonadas que elas estejam, sempre é tempo para revisitá-las. Neste caso, para reparar uma das maiores faltas deste espaço. Porque é simplesmente inadmissível que, em mais de onze anos de Dando a cara a tapa, o famoso retrato pintado por Leonardo Da Vinci não tenha objeto sequer de um mísero post neste espaço.

La Gioconda

Do ponto de vista puramente artístico, a fama da Mona Lisa parece um tanto desproporcional ao tamanho do quadro. Medindo meros 77cm x 53cm, o quadro está longe de embasbacar o visitante desavisado. Na ponta oposta à parede em que a Mona Lisa está exposta, por exemplo, estão as Bodas de Caná. Com quase 7m x 10m, o monumental afresco de Veronese ocupa de fato uma parede inteira do maior museu do mundo. Toda essa grandiosidade, contudo, parece de pouca relevância para efeito de público, pois as pessoas quase se estapeiam na fila para tirar uma foto com a obra de Da Vinci, enquanto o quadro de Veronese fica em geral entregue às moscas, servindo-se dos poucos visitantes que resolvem olhar à sua volta para ver o que há no ambiente.

As Bodas de Caná

Mas afinal: por que as pessoas se aglomeram e fazem fila para tirar uma selfie de frente para a Mona Lisa, mas não fazem o mesmo com o gigantesco e belíssimo quadro às suas costas?

Há, claro, o efeito Dan Brown. De fato, Código da Vinci, com seu enredo tão fantástico quanto inverossímil, contribui bastante para o interesse recente por esse quadro de cinco séculos. Mas, verdade seja dita, a Mona Lisa já era muito famosa bem antes disso. Para saber a razão de tanto apreço, é preciso voltar um pouco no tempo.

Em 1506, Leonardo da Vinci já era um gênio reconhecido “mundialmente” – entendendo a”Europa” como sendo o “mundo” daquela época. Convidado pelo Rei Francisco I para visitar a corte francesa, Da Vinci levou consigo algumas de suas obras. Dentre elas, o retrato de uma certa senhora. Lisa Gherardini casara-se com um rico comerciante florentino, Francesco Del Giocondo. Por isso mesmo, a obra é chamada pelos íntimos de La Gioconda. “Mona Lisa” é o apelido da distinta senhora representada no quadro, e a expressão nada mais significa do que “Senhora Lisa”. Embora haja outras diversas teorias sobre a real identidade da modelo representada na foto, os especialistas já não nutrem mais grandes dúvidas: a mulher pintada é, sim, Lisa Del Giocondo.

Do ponto de vista estético, o que faz a fama da Mona Lisa foi justamente o fato de ela ter se tornado uma espécie de “padrão” para os retratos da modernidade. Leonardo concebeu uma modelo sentada, retratada sobre um fundo paisagístico aleatório. Há nela um “esquema de pirâmide”, através do qual a luz refletida na pintura reflete com mais ênfase a cabeça (que seria o topo de uma pirâmide imaginária) e as mãos (que seriam a base) da modelo, sem esquecer do ombro, pescoço e face.

O grande lance, contudo, reside no misterioso sorriso expresso pela modelo. Da Vinci usou aqui uma das suas técnicas mais conhecidas: o sfumato, através do qual o pintor retrata diferenças muito suaves de tonalidade, de modo que o observador externo não consiga distinguir muito bem as pinceladas e as variações na passagem da luz para a sombra. Por isso mesmo, o famoso “sorriso de Mona Lisa” parece tão intrigante e enigmático. Para um olhar mais desatento, fica a dúvida se a modelo está de fato a sorrir ou se está séria, com cara de poucos amigos.

Sorriso de Mona Lisa, sob a técnica do sfumato

Todavia, talvez o principal fator para alçar a Mona Lisa a verdadeiro ícone não só da pintura, mas também da cultura mundial, foi o fato de tela ter sido roubada do Louvre em 1911. O dia era 21 de agosto. E, como era praxe naquela época (e também hoje em dia), às segundas-feiras todos os museus – incluindo o Louvre – fechavam. Afinal, os funcionários e seguranças também são filhos de Deus e merecem o devido descanso. Era nesse período, também, que se aproveitava para fazer a limpeza e a manutenção dos equipamentos do museu. Na ocasião, reformavam-se alguns salões do Louvre. E, dentro os funcionários, estava um certo Vicenzo Peruggia.

Sem ninguém ao lado e sem que a obra contasse com o enorme esquema de segurança que existe hoje, Vicenzo Peruggia tirou a tela da moldura, colocou-a debaixo do braço e saiu tranquilamente pela porta da frente do museu, sem ser incomodado. Segundo o próprio Peruggia confessaria mais tarde, sua idéia era de “repatriar à força” o quadro que havia sido “roubado” de sua pátria-natal, a Itália. O “patriota” de ocasião, contudo, não soube explicar por que estava tentando vender a relíquia a quem lhe oferecesse o melhor preço, ao invés de entregá-la a algum museu local. Pela “graça”, Peruggia tomou um ano e quinze dias de cana. A Mona Lisa, claro, foi devolvida pela Itália, com mil desculpas, à França, para que pudesse ser novamente exposta no Louvre.

Como a imprensa estava começando a surgir e fazer-se influente nos meios sociais, o famoso “roubo da Mona Lisa” terminou por lançar a obra de Leonardo definitivamente ao estrelato. De lá pra cá a fama só aumentou, assim como a curiosidade do público em tentar compreender o que faz de um quadro tão pequeno uma obra tão grandiosa.

Para poder desfrutar de alguns momentos praticamente “a sós” com La Gioconda, a dica é chegar cedo ao Louvre e tentar entrar pela Portes des Lions. Trata-se do acesso mais rápido e desconhecido do grandioso museu, com o bônus de ser também o mais próximo da pintura de Da Vinci. Com alguma sorte, se você entrar rápido, poderá desfrutar de cinco a dez minutos sozinhos com o quadro mais famoso do mundo.

Só não vale, claro, tentar dar uma de Vicenzo Peruggia….

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