Ajuste de contas

Se há uma coisa que falta no Brasil é gente disposta a falar mal dos Estados Unidos. Os americanos são isso, os americanos são aquilo, e etc., etc., etc… Na maior parte dos casos, as reclamações têm fundamento. Afinal, 11 em cada 10 problemas geopolíticos do mundo têm o dedo do Tio Sam por trás.

A grande questão, no entanto, é que quem costuma criticar os Estados Unidos se nega a reconhecer os méritos do Grande Irmão do Norte. Eles pisam na bola com freqüência, é fato, mas nenhum outro país do mundo é capaz de assumir e corrigir os seus erros com tanto desprendimento. É exatamente isso que está acontecendo agora com as agências de classificação de risco.

Todo mundo está careca de saber que a crise de 2008 começou nos Estados Unidos. Desde então, a economia mundial patina, graças à orgia financeira praticada à margem de qualquer regulação. As causas da crise são várias, muitas delas ainda não inteiramente esclarecidas. Mas sem tem algo com o qual todos os analistas concordam é o seguinte: as agências de classificação de risco tiveram papel decisivo na gestação da débâcle do final da década passada.

Como nos Estados Unidos a democracia e o sistema legal não são somente uma marca de fantasia – como em alguns países ao sul do Equador – o Departamento de Justiça americano arregaçou as mangas. Começou a investigar como foi possível que empresas cujo patrimônio não valia um tostão furado pudessem ter recebido notas máximas de avaliação da Moody’s, da Standard & Poor’s e da Fitch dias antes da quebradeira geral. Eu não estava na sala, óbvio, mas não é difícil imaginar que os investigadores do Departamento de Justiça tenha ficado estarrecidos com o que viram.

Viram, por exemplo, gente pagando diretamente às agências pela avaliação “camarada” de seus produtos, em uma estratégia conhecida como rating shopping, ou, em português claro, “compra de avaliação”. Devem ter visto também conflitos de interesse, como agências contratadas por bancos de investimento para avaliar a qualidade de um papel a ser lançado, com a remuneração vinculada ao sucesso da operação. Ou seja: quanto mais gente fosse convencida a comprar o papel, e quanto maior fosse o valor desse papel, mais dinheiro a agência ganharia. Com alguma sorte, devem ter enxergado até variações de self dealing, com apostas em altas ou baixas de determinados papéis no mercado futuro, para depois baixarem ou subirem a avaliação de determinada empresa conforme a aposta que fizeram.

A partir do início do processo, o roteiro é mais ou menos conhecido. As agências vão negar até a morte qualquer irregularidade, vão dizer que isso é interferência indevida do Estado na economia para, depois de muito espernearem, negociarem um acordo e diminuírem o tamanho do prejuízo que teriam com uma condenação judicial.

O ajuste de contas, no caso da S&P, deve ficar em torno de U$ 1 bilhão. Pode parecer muito, mas, pelo tamanho do prejuízo que causaram, a pancada deveria ser muito maior. Ainda assim, mais vale um processo com uma condenação certa na mão do que 200 documentários com críticas no ar.

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3 respostas para Ajuste de contas

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