A questão do parto no Brasil

Sem dúvida alguma, um dos maiores flagelos não denunciados pelo silêncio cúmplice de mídia e médicos: a absurda quantidade de partos por cesariana realizados no Brasil.

Uma pesquisa realizada pelo Unicef em 2011 concluiu que o país ostenta o desonroso posto de país com o maior número de cesáreas por habitante quadrado do mundo: 52% dos partos foram realizados por meio cirúrgico. Isso representa mais de três vezes o percentual tido como aceitável pela Organização Mundial de Saúde (15%).

A questão é: por que existem tantos partos cesáreos no Brasil?

Em primeiro lugar, pela comodidade das gestantes. Acredite: muitas mulheres simplesmente não concebem a idéia de dar um filho ao mundo por vias naturais. A dor, as contrações, o sofrimento prolongado característico do parto normal inspiram pânico em algumas parturientes. Melhor e mais conveniente, seria, sob essa ótica, parir deitada numa maca, anestesiada, com o médico ao lado.

O que boa parte dessas mulheres ignora é o fato de que a dor do parto normal é passageira; vai embora logo após a criança vir à luz. Na cesariana, além dos riscos inerentes a todo e qualquer procedimento cirúrgico, a mulher sai ponteada, fica sem poder abrir a boca para não ingerir gases e sofrer cólicas. Em média, a gestante passará um bom mês convalescendo da cesariana.

Em segundo lugar, como sempre, está o vil metal. Quer dizer: não somente a ele, mas ao dinheiro associado à disponibilidade de tempo do médico. Sim, a imensa maioria dos partos não precisaria ser feito por método cirúrgico. Alguns médicos acabam empurrando a parturiente para a sala de cirurgia porque não querem perder tempo – nem dinheiro – esperando a boa vontade da criança vir ao mundo. Enquanto uma mulher pode entrar em trabalho de parto a qualquer hora do dia ou da noite e, após isso, esperar por até 24 horas para sofrer a dilatação necessária ao parto, uma cesariana acontece com hora e dia programados, e dura menos de meia hora. Do ponto de vista estritamente financeiro, no entanto, para o médico tanto faz acompanhar um parto normal ou realizar uma cesariana. A remuneração recebida será rigorosamente a mesma. Em suma: o médico que resolve esperar uma parturiente conceber de modo natural “perderá” a oportunidade de realizar outras cirurgias, consultas ou procedimentos atendendo a uma única paciente

Aí, boa parte dos médicos pensa: “Pra que correr o risco de ter de acordar no meio da noite e passar um dia inteiro esperando para um bebê nascer quando eu posso marcar dia e hora e resolver tudo sem atrapalhar minha rotina e minhas finanças?”

Esse problema também está ligado, de forma indireta, à privatização da saúde no país. Claro, o raciocínio monetário só vale para os médicos particulares ou que atendem por planos de saúde. Para o médico da rede pública, esperar ou não pelo parto normal é uma opção estritamente técnica, pois ele não recebe mais ou menos por cada parto realizado. Não à toa, o total de cesarianas na rede privada alcança o inacreditável percentual de 82%, enquanto na rede pública atinge “apenas” 32%.

Fora esses aspectos, o parto cesáreo traz uma série de problemas de diferentes níveis de gravidade, para a gestante e para o bebê. No parto natural, quatro dos maiores sistemas hormonais de um ser humano são ativados ao mesmo tempo. Dentre os hormônios injetados em quantidades boçais pelo organismo, destaca-se a ocitocina, também conhecido como o “hormônio do amor”. Tudo misturado, a mulher que dá à luz de forma natural “apaixona-se” imediatamente pelo filho, e agirá com todas as forças para defendê-lo. Sim, a mulher que deu à luz volta a um estado quase primitivo. E isso é bom.

Nas mulheres que parem por cesárea, nada disso ocorre. As drogas responsáveis pela anestesia inibem a produção hormonal. Por isso, a mãe “aprende” a se apaixonar pelo filho, mas essa relação não se desenvolve de maneira imediata. Na verdade, essa “frustração” hormonal conduz muitas mulheres submetidas à cesariana a transtornos de várias ordens. Daí vem uma série de conseqüências negativas, como depressão, negação do filho e um sentimento constante de de que “não pariram”.

Há algum tempo, uma reportagem do Fantástico abordou essa temática. Numa entrevista, um médico falou algo tão óbvio como singelo: o parto é um ato natural, não cirúrgico. É dizer: o parto é um processo elaborado e desenvolvido pela natureza ao longo de toda a evolução da espécie para acontecer de forma espontânea, sem a necessidade de intervenção médica. Se fosse o contrário, possivelmente a humanidade já estaria extinta há muito tempo.

Foi o que bastou para o mundo vir abaixo. Logo veio a grita dos corporativistas dizendo que tal obviedade era “um absurdo” e a enaltecer os “benefícios” do parto cesariano. Houve até quem sugerisse punir o pobre coitado por enunciar um truísmo desse quilate. Claro, desmistificar a “necessidade” e a “conveniência” do parto cesário atinge muitos intere$$e$.

O problema já atingiu tal proporção que, a permanecer este estado de coisas, daqui a alguns anos não haverá médico razoavelmente habilitado a realizar um parto natural. Só saberão fazer cesáreas.

Ou se muda a cultura da cesárea no Brasil, ou daqui a pouco toda mulher que quiser ter um filho estará condenada à mesa de cirurgia.

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10 respostas para A questão do parto no Brasil

  1. Ana O. disse:

    Sem falar nos benefícios do parto natural para a amamentação…
    Parabéns pelo post. Muito oportuno.

  2. Ana O. disse:

    E sobre essa sensação de ‘ não parir’ recomendo a leitura do relato de parto e das impressões da Anne Rammi
    http://www.superduper.com.br/2012/08/o-buraco-na-barriga.html

  3. Luciana Maia disse:

    Claro que eu não podia deixar de me pronunciar a respeito! Eu, natureba metida a hippie, que cultivo minha hortinha e daqui a pouquíssimo tempo estarei preparando minha própria granola (ora, ora, minha senhora!) tive um parto natureba, por via vaginal, sem anestesia de nenhuma espécie, ficando doida de ocitocina na cabeça e muito amor em cada parte do corpo!
    Uirá participou tão ativamente quanto eu: massagens e muita paciência. Nasceu Hector, no dia 9 de junho de 2011, com 3,6 kg e 50 cm e uma circular de cordão umbilical no pescoço, que para 90% da parcela ignorante da população seria motivo pra uma “desnecesária”, como chamam os grupos de apoio ao parto ativo, dos quais faço parte de maneira indireta, já que a vertente ativista e quase sempre desrespeitosa me impede de exercer com mais robustez.
    Hector mamou logo após o nascimento e mama até hoje, com 1 ano e 7 meses. Confesso que sofro uma espécie de pressão social/familiar pra desmamar o menino, mas fazer o que se eu li mais sobre parto e amamentação do que sobre direitos fundamentais?
    Digo a todas as mulheres: vivam essa experiência! É completamente transformadora! A sensação de parir um bebê, o seu bebê, que dançou a dança dos hormônios com você, que se empenhou em nascer porque é assim que tem que ser; que chega nos seus braços e deve ser aquecido por você (esse contato apressa o leite, mulheres de fé!) e seu peito derrama amor na cor branca… sério, isso deve ser vivido. Nasce uma mãe daí! Feliz por você ter abordado esse assunto!
    Beijos!

    • arthurmaximus disse:

      Que bom, Luciana. Mulheres como você são um exemplo para que outras se encorajem e percebam que o parto é um ato da natureza, e não um ato cirúrgico. E você lembrou muito bem a questão da amamentação, tão importante quanto a do parto. Segundo pesquisas, o bebê deve ser levado ao peito da mãe até no máximo uma hora após o parto. Nas cesarianas, o bebê tem que ficar na encubadora, esperando a mãe ser ponteada e o procedimento cirúrgico terminar. Isso para não falar na burocracia dos hospitais, que nem sempre respeitam esse mandamento natural. Nos partos normais, isso fica muito mais fácil, pois o bebê já sai do útero direto para o peito. Seu relato descritivo da emoção de parir é realmente tocante. Beijos.

  4. Luciana Maia disse:

    Ficou claro que a primeira parte do comentário anterior foi irônica? É que eu ouvi muito blablabla nesse sentido e é uma forma menos ácida de lidar com o preconceito: PARTO NORMAL EM PLENO SÉCULO XXI?!!!!!!!!

  5. Luciana Maia disse:

    Menção deve ser feita a esse documentário http://www.youtube.com/watch?v=3B33_hNha_8, que conta com a participação de Ricardo Hebert Jones, uma das maiores autoridades em humanização do parto no Brasil. Referência deve ser feita também à médica Dra. Melânia Amorim, médica pós-doutora em ginecologia e obstetrícia. É uma das maiores contribuidoras em pesquisa científica acerca do assunto no Brasil. E mora aqui, em Campina Grande. Já pensou, que sorte a nossa?

    • arthurmaximus disse:

      Sorte a sua, Luciana, e de quem mora em Campina Grande. Em Fortaleza, por exemplo, daqui a pouco não haverá mais médicos habilitados a fazer parto normal, tal é a quantidade de cesarianas que se realiza. Na rede privada, arrisco-me a dizer que mais de 90% dos partos são cesáreas. Um verdadeiro absurdo. Beijos.

  6. Pingback: A questão do parto no Brasil – Parte II | Dando a cara a tapa

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