Abaporu

O Twitter, assim como as redes sociais em geral, constitui um espaço amplo para quem, desprezado pela maioria, sente-se no direito de arrotar besteiras para “causar” ou “lacrar”. A vítima de então foi o mais famoso quadro da moderna pintura brasileira: o Abaporu. Embora desprezando, como de resto devem ser desprezadas todas as manifestações idiotas, a “polêmica” serve para revisitarmos um dos recantos mais esquecidos deste espaço: as Artes.

Pintado por Tarsila do Amaral em 1928, o quadro surge como expressão genuína de um movimento que lhe é anterior: o Modernismo. Seis anos antes, o Brasil era sacudido por uma verdadeira revolução no seu panorama cultural e artístico. Com o propósito confesso de deixar pra trás a experiência de simplesmente reproduzir os padrões estéticos que predominaram no cenário europeu durante o Oitocentos, o movimento modernista pretendia não apenas renovar as artes, mas, principalmente, torná-las nossas. Em outras palavras, o que se queria era buscar uma criação artística genuinamente brasileira, livre das amarras estabelecidas pelo padrão vigente.

Reza a lenda que o quadro foi pintado por Tarsila para ser dado de presente a seu marido, o escritor Oswald de Andrade. A pintura, porém, nascera sem nome, tendo Tarsila legado o batismo ao presenteado. Fundador do Movimento Antropofágico, Oswald de Andrade teria se juntado a seu amigo Raul Bopp e, numa blague, resolveram dar-lhe um nome derivado do tupi: Aba (homem), pora (gente) e (comer), ou seja, um homem comedor de gente. A idéia, por óbvio, era traduzir no quadro a idéia do antropofagismo cultural: “comer” as artes estrangeiras para, no seu processo, dar vazão a uma arte transformada, genuinamente brasileira.

Do ponto de vista estético, o quadro em si não apresenta grandes dificuldades. Qualquer pessoa consegue identificar as figuras do homem nu sentado, do cacto e do sol. O que torna o quadro diferente, portanto, são as suas dimensões, exageradas em algumas partes e diminutas noutras. A mão e o pé do homem, por exemplo, são absolutamente desproporcionais à cabeça, que é ridiculamente pequena. Uma das interpretações possíveis é a de que a artista pretendeu destacar o trabalho braçal do homem brasileiro, ao passo que a cabeça diminuta relevaria a falta de consciência crítica da população. O sol e o cacto, por sua vez, revelariam a difícil lida do ambiente brasileiro. Mas há versões para todos os gostos nessa área.

Fato é que, depois de algum tempo, Tarsila resolveu vender sua obra-prima. Primeiramente, ao fundador do Museu de Arte São Paulo, Pietro Maria Bardi. Bardi, no entanto, sabe-se lá por quê, resolveu se desfazer da obra ao invés de pendurá-la nas galerias do Masp. De mão em mão, o quadro foi vagueando entre colecionadores das mais diversas estirpes, até que, em 1995, foi arrematado em um leilão da Christie’s por um colecionador argentino, Eduardo Constantini. O valor pago, US$ 1,35 milhão, foi recorde para qualquer obra brasileira à época.

Para infelicidade geral da nação, portanto, a maior obra da pintura brasileira hoje não se encontra em solo brasileiro. E, para a fúria daqueles que nutrem uma rixa tão provinciana quanto arcaica, ela está hoje acondicionada pelos argentinos no Malba, em plena capital portenha. Ironia das ironias, a obra do Abaporu talvez seja, hoje, o retrato mais bem acabado da arte brasileira: genial em sua concepção, desprezada pelos nacionais e adquirida a preço de banana pelos estrangeiros.

Durma-se com um barulho desses…

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