A questão do parto no Brasil – Parte II

Já há alguns anos, escreveu-se aqui um post em que se discutia a questão do parto no Brasil. Em resumo, tratou-se da controvérsia acerca da hedionda proliferação de cesarianas no país, em números absurdamente superiores aos que a Organização Mundial de Saúde indica como normais. Depois de tanto tempo, convém revisitar o assunto, para abordar questões que não foram tratadas naquela oportunidade.

Por que, afinal, o parto normal é melhor do que a cesárea?

Deixemos de lado, por ora, o óbvio fato de que a cesariana é um procedimento cirúrgico e, como tal, está sujeito a todo tipo de intercorrências, como em qualquer cirurgia. De cara, o parto normal ganharia porque os riscos envolvidos no procedimento simplesmente não existem, porque a mulher não se sujeita a anestesia, nem muito menos a cortes profundos na sua pelve. Para além dessas vantagens evidentes, o parto normal exibe ainda muitos outros benefícios para o bebê e para a parturiente.

Em primeiro lugar, todo bebê que nasce por cesariana precisa fazer aspiração, um procedimento destinado a retirar líquidos e secreções das vias respiratórias. Bebê que nasce pela via vaginal, na maioria absoluta dos casos, não precisa “aspirar”, pois o próprio trabalho de parto se encarrega de fazer o serviço.

Em segundo lugar, percorrendo a via vaginal, o bebê recebe em torno de 300 bactérias “boas”, que o ajudarão na defesa contra micro-organismos prejudiciais. Essa colonização tornará o bebê mais saudável e mais infenso a infecções. Bebê que nasce de cesariana não recebe uma sequer. Tal é a “esterilidade” dessa via de parto que já há médicos desenvolvendo uma técnica chamada de “seeding”, através da qual os técnicos “semeiam” bactérias na boca do recém-nascido para tentar substituir a colonização que ocorre naturalmente no parto vaginal.

Em terceiro lugar, o parto normal favorece imensamente a amamentação. Quando o recém-nascido vem ao mundo pela via vaginal, pode ser colocado imediatamente em contato com a mãe. O contato “pele-a-pele” estimula a liberação de prolactina, hormônio responsável pela produção do leite materno.

Por essas e por outras razões, o risco de morte da mãe ou do feto numa cesariana é cerca de cinco vezes maior do que em um parto normal. A idéia de que se submeter a um médico para dar à luz é algo mais seguro não passa de uma ilusão. Desde os riscos da anestesia, passando pela chance de lesões urológicas e até chegar na hipótese de um tromboembolismo, tudo recomenda o parto pela via vaginal.

Para além das diferenças entre o parto cesariano e o parto normal, há coisas que simplesmente não se explicam nas maternidades do Brasil. É o caso, por exemplo, da aplicação de nitrato de prata nos olhos das crianças. A idéia seria impedir a conjuntivite gonocócica, que pode levar à cegueira. O problema é que isso somente se justificaria para mães que têm ou que tiveram gonorréia, pois o bebê poderia contrair a bactéria ao passar pelo canal de parto. Se a mãe nunca teve gonorréia, o procedimento não faz qualquer sentido. Sabendo disso, torna-se bizarro que, ainda hoje, o procedimento padrão dos hospitais indique a aplicação de nitrato de prata mesmo para bebês nascidos por cesariana, o que representa um completo disparate.

Se tudo isso não fosse o bastante, o pós-operatório e a vida após o parto tomam outra dimensão quando se troca um parto normal por uma cesariana. Além de a mulher retornar com muito mais rapidez e facilidade ao corpo anterior, o aleitamento materno – favorecido pela via vaginal – torna a vida da família bem menos complicada após o nascimento. Eis a rotina de um bebê nascido de cesariana que não mama:

Bebê acorda com fome. Mãe ou pai levantam para preparar a fórmula (leite artificial). Enquanto isso, o bebê fica se esgoelando de fome. Preparada a mamadeira, é necessário acalmar o bebê, que do contrário não tomará nada. Acalmado o bebê, dá-se o leite artificial, coloca-se o bebê para arrotar, troca-se a fralda e coloca-se o bebê para dormir. Depois de terminar tudo isso, você ainda terá de lavar a louça e escaldar a mamadeira, já se preparando para acordar de novo dali a poucas horas para fazer tudo de novo.

Compare, agora, com o quotidiano de um bebê que nasceu pela via vaginal e se alimenta de leite materno:

Bebê acorda com fome. Mãe se levanta, coloca o bebê no peito e pronto. Terminada a mamada, coloca-se o bebê para arrotar, troca-se a fralda e devolve-se o bebê para o berço. Terminado isso, volta-se a dormir. Qual das duas opções você acha que exige mais da mãe e, por tabela, do pai?

Sabendo de tudo isso, é simplesmente inacreditável que tantas pessoas no Brasil ainda se deixem levar pelo canto da sereia de médicos preguiçosos e/ou descompromissados, que empurram cesarianas a parturientes desavisadas e desinformadas por conveniências financeiras e de horário. A única chance de fazer com que casos assim não ocorram mais é disseminar informação. Uma gestante consciente saberá fazer a melhor opção para si e para o seu rebento, sem cair em contos do vigário, como o de que o bebê está enrolado no cordão (o que, a rigor, não quer dizer absolutamente nada).

Fica, pois, a dica a todos.

Anúncios
Esse post foi publicado em Variedades e marcado , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s