A partícula de Deus

Faz tempo que não se escreve sobre ciência nesse espaço. Nesses dias, notícias vindas de Genebra deram-me o mote para falar de um dos assuntos mais midiáticos a envolver a física: o Bóson de Higgs, ou, como é popularmente conhecida, a “Partícula de Deus”.

Pra quem não lembra ou não assistiu, a busca pelo Bóson de Higgs é o pano de fundo sobre o qual se desenrola o thriller Anjos e Demônios, de Dan Brown. A pesquisa e suas implicações sobre a religião envolvem clérigos e laicos num suspense de enredo improvável. Mas fiquemos na ciência.

Apesar de tanta fama, o Bóson de Higgs é uma das coisas mais mal explicadas ao público em geral. Físicos ensimesmados em seus teoremas contribuem para isso, sem dúvida. E a imprensa, claro, pouco se importa em explicar o fenômeno. Quando muito, limita-se a dizer que o Bóson de Higgs é a partícula que confere massa a todas as outras, mas não explica como nem por que isso acontece.

Comecemos pelo nome. “Bóson” é o nome dado a uma coletividade de partículas que representam forças fundamentais. O mais conhecido bóson é o fóton, a famosa partícula responsável pela luz. “Higgs” é o sobrenome de Peter Higgs, um cientista britânico responsável pela sua formulação teorética.

Mas que raios é o tal de “Bóson de Higgs” e por que lhe apelidaram de “Partícula de Deus”?

Voltemos um pouco no tempo. Na antigüidade, os gregos começaram a pensar numa partícula fundamental, é dizer, algo do qual não se poderiam extrair partes ou reduzir-se o tamanho. O raciocínio era simples: se que quebrasse uma pedra em pedaços, poderia quebrar esses pedaços sucessivamente, alcançando partes cada vez menores. No entanto, chegaria a um ponto em que nenhuma força do universo poderia reduzir o pedaço a algo menor. A essa partícula fundamental, deram o nome de átomo.

Com o desenvolvimento da ciência, concluíram que o átomo não era a menor partícula do universo. Ele continha outras: elétron, próton e nêutron. Encurtando a história, foram achando cada vez mais partículas menores, até se reduzirem a 16 partículas fundamentais: 12 relacionadas à matéria e 4 portadoras de força.

O problema é porque nenhuma dessas partículas, individualmente considerada, possui massa. É como se, descendo aos confins uniparticulares do universo, só se encontrasse um mar de energia, sem nenhum peixe dentro. Com isso, torna-se impossível explicar como as coisas existem, isto é, como elas se tornam palpáveis. Como admitir que tenhamos massa se não conseguimos explicar como as partículas mais fundamentais não a têm?

Higgs tentou resolver justamente esse problema. Ele imaginou o seguinte (e aqui dou o crédito ao site da Veja):

Imagine um pedaço de praia. De repente, surge a Juliana Paes. Com a presença de Juliana Paes, logo os marmanjos de plantão vão se aglomerando e chegando perto dela, pra tirar fotos e pedir autógrafos. Por causa desse aglomerado de gente, Juliana Paes fica rodeada de gente e, quem vê de longe, enxerga um grande ponto na imensidão da areia.

Trazendo a comparação para a ciência, o pedaço de praia representa o “campo de Higgs”, onde as partículas interagiriam. Juliana Paes seria uma partícula fundamental qualquer, como um quark. E o aglomerado de gente tirando fotos e pedindo autógrafos ao seu redor seria justamente o Bóson de Higgs.

O Bóson, portanto, seria o responsável por transformar partículas destituídas de massa em algo “palpável”, por assim dizer. Essa transição energia-massa seria regida pelo Bóson de Higgs. Por isso ele ganhou o apelido de “Partícula de Deus”, pelo poder de dar “vida” a todas as coisas.

O problema é que ninguém nunca viu nem comprovou a existência do Bóson de Higgs. Para tentar resolver esse mistério, construíram o maior acelerador de partículas do mundo, o LHC, próximo a Genebra, na fronteira entre Suíça e França. Com ele, seria possível recriar as condições do universo original e, quem sabe, “enxergar” o Bóson de Higgs.

Mesmo tendo entrado em operação em 2008, até agora o LHC não conseguiu demonstrar a existência do Bóson. A comunidade científica, como esperado, está angustiada. Segundo as notícias, até o final deste ano terão uma posição definitiva para dizer se a “Partícula de Deus” existe ou não.

Se a resposta for negativa, jogue fora seus livros de física. Toda uma nova teoria de explicação do universo terá de ser construída.

Esse post foi publicado em Ciências. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.