Explicando os mecanismos de inflação

Ultimamente se discute no Brasil a atuação do Banco Central e do Governo no combate à inflação. Pergunta-se se o aumento de juros foi suficiente, se o governo deveria cortar mais gastos, enfim, de que modo seria menos penoso impedir que a inflação precipete-se numa espiral desenfreada.

A inflação é um fenômeno curioso, embora relativamente simples de explicar. Para ilustrar melhor, convém voltar aos primórdios do dinheiro.

Na Antigüidade, depois da invenção da cunhagem, as moedas passaram a circular pelos impérios. Valiam o equivalente a seu peso em ouro ou prata, os principais metais garantidores do valor da moeda. Estabelecia-se uma relação arbitrária entre o valor nominal da moeda e o valor real em metal que ela representava. Assim, uma moeda que levasse na sua cunhagem 10 gramas de ouro (Valor real) valeria, por exemplo, 10 sestércios (Valor nominal). Cunhava-se a efígie e fazia-se circular a moeda com o valor de face, representado pelo seu equivalente em ouro.

Até aí, tudo bem. O problema começava a aparecer quando os impérios passavam a gastar mais do que as suas reservas em ouro e prata. Isso acontecia principalmente em tempos de guerra, quando era necessário pagar soldados, mercenários e fazer frente a diversas despesas imprevistas. Se o Império Romano, por exemplo, precisava emitir mais sestércios mas não tinha reserva em metal precioso o suficiente para isso, o que fazer?

Acertou quem disse: “Ué? Diminui a quantidade ouro e prata e emite-se uma quantidade maior de moeda”.

Pois era justamente isso que todo mundo fazia. No exemplo citado, o que aconteceria seria que o Império continuaria a cunhar moedas de 10 sestércios mas, na sua fabricação, seriam usados somente 5 gramas de ouro. Com isso, seria possível cunhar o dobro de moedas.

Seria um truque fantástico, não fosse um pequeno problema. Desde Arquimedes (“Eureka!”) era possível saber quanto de ouro e prata havia na moeda. Se a quantidade de metal precioso caísse, é evidente que os comerciantes exigiriam mais moeda para vender a mesma mercadoria. Um sujeito que vendesse um cacho de bananas por 10 sestércios passaria a cobrar 20, apenas para garantir que receberia os mesmos 10 gramas de ouro de antes. A mágica, portanto, esvai-se como pó.

Note que o valor nominal continua o mesmo. Mas o valor real da moeda caiu pela metade. A esse fenômeno de depreciação do poder de compra da moeda dá-se o nome de inflação.

Na atualidade, acontece mais ou menos a mesma coisa. Se o governo gasta mais dinheiro do que o possui de equivalente em reservas para garanti-lo, o valor real da moeda cai. São necessários mais zeros à direita para se comprar uma mesma mercadoria.

Evidentemente, esse não é o único mecanismo de inflação. Há vários outros. Por exemplo: se muitas pessoas procuram uma mesma mercadoria e ela começa a rarear no mercado, seu valor nominal subirá. Não porque houve alguma depreciação no poder de compra da moeda, mas por conta da lei da oferta e da procura.

Apesar de aparentar o contrário, a inflação não é necessariamente um mal. Sendo controlada, ela é uma aliada do processo econômico, porque significa um aumento gradual e seguro do valor real dos vários ativos existentes (bens móveis, imóveis, etc.). Na verdade, ela é melhor do que o seu oposto, a deflação. Nesse caso, o valor dos ativos e das mercadorias cai ao invés de subir. Normalmente, a deflação só ocorre em momentos de depressão econômica, quando a atividade da economia cai de tal forma que ninguém mais compra. Daí, pra não ficar com a mercadoria pendurada na mão, o comerciante vai baixando o preço até aparecer alguém para comprá-la. No limite, a deflação pode significar o empobrecimento da população, ao invés de aumentar o poder de compra da população.

Com essas noções, talvez seja possível entender melhor o noticiário econômico.

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4 respostas para Explicando os mecanismos de inflação

  1. Shopping disse:

    That was very illustrative read

    • Phillipe Jonson disse:

      Entendi perfeitamente a inflação para as sociedades que utilizavam moedas valiosas, mas nós não usamos mais o ouro, usamos cédulas e dinheiro eletrônico, ou moedas que de ouro nada têm, mas apenas representam valor. Não podemos simplesmente mandar alguém verificar se o valor nominal coincide com o real, por isso é bem possível imprimir mais notas e cunhar mais moedas sem que isso cause inflação.

      • arthurmaximus disse:

        A questão é um pouco mais complicada do que isso, meu caro Philipe. Na verdade, desde o abandono do padrão-ouro, a questão gira em torno do dólar, que faz as vezes de garantia do valor da moeda. Além disso, há outras questões a considerar, como a demanda por moeda física, diretamente influenciável pela taxa de juros do mercado. O que pretendi no post foi apenas dar uma visão geral sobre a inflação. Se fosse explicar tudo isso nos mínimos detalhes teria que escrever um livro sobre o assunto, o que fugiria à idéia do blog. De todo modo, obrigado pelo comentário. Abraços.

  2. Pingback: Imposto sobre grandes pobrezas, ou Esse tal de “imposto inflacionário” | Dando a cara a tapa

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