A singularidade da Terra, ou O cuidado que deveríamos ter com o nosso planeta

Desde que o primeiro homem levantou a cabeça, pôs os olhos ao céu e começou a imaginar as coisas que existiam na abóbada celeste, muitas dúvidas vieram à mente: “De onde viemos?”; “Para onde vamos?”; “Será que lá tem Internet?”. No entanto, desde que o homem começou a entender melhor o que se passava no céu estrelado sobre nossas cabeças, algumas perguntas mais inquietantes começaram a angustiar-lhe.

Sabe-se, por exemplo, que o nosso Sol é uma anã amarela, com expectativa de vida de 10 bilhões de ano, metades dos quais já foram para as cucuias. Ainda que de algum modo consigamos impedir a destruição do nosso planeta, em aproximadamente 5 bilhões de anos, não haverá choro nem vela: este pálido ponto azul no espaço será apenas uma lembrança rochosa e quente do planeta fulgurante e cheio de vida que conhecemos.

Diante disso, e também da avassaladora marcha que a própria humanidade engendra em direção ao seu próprio fim, muitos cientistas resolveram apontar seus telescópios para o espaço não em busca propriamente de explicações para o Universo, mas simplesmente e busca de um novo lar. O problema, como qualquer um pode imaginar, é que achar um planeta igualzinho ao nosso não é exatamente tarefa simples de se realizar. São tantas as condições e as variáveis necessárias para a manutenção do frágil equilíbrio da biosfera terrena que é achar outra “Terra” é quase como ganhar na Mega-Sena acumulada.

A primeira condição é que o planeta seja rochoso. Além de rochoso, ela precisa ter massa suficiente para segurar os gases ao redor de si. Do contrário, não terá atmosfera.

A segunda condição é que o planeta esteja na chamada “zona habitável”, isto é, situado numa órbita não tão próxima da sua estrela que a água não possa ficar no estado líquido, nem tão distante que só se encontra água no estado sólido.

A terceira condição, por óbvio, é que tenha água. Sem água, sem vida.

Até aí, sem problemas. Pelo que as observações indicam, encontrar planetas rochosos, com massa suficiente, numa zona habitável da estrela é tarefa difícil, mas não impossível. Com os recursos tecnológicos que temos hoje, já encontramos alguns na vizinhança. Não é difícil imaginar, portanto, que, com o avanço da tecnologia, poderemos encontrar muitos mais.  Além disso, considerando que vários de nossos vizinhos no sistema solar apresentam água (nem sempre no estado líquido), não é absurdo pensar que esse precioso elemento seja até mais abundante no espaço do que imaginamos.

A partir daí, contudo, a coisa fica mais complicada.

Além de ser rochoso, com massa suficiente, estar numa zona habitável e possuir água, o planeta ainda tem de ter um campo magnético. Para nossa sorte, a Terra possui um núcleo ferroso, possivelmente em estado líquido. Com o movimento de rotação, cria-se uma espécie de dínamo, que gera um poderoso campo magnético ao seu redor. É esse campo magnético que nos protege, por exemplo, da radiação cósmica e dos ventos solares. Sem ele, nossa atmosfera literalmente já teria ido para o espaço e a vida teria sido abortada em seu nascedouro.

Pra tornar a coisa ainda mais complicada, esse movimento de rotação não poderia ser nem tão lento que expusesse um lado do planeta por demasiado tempo à luz de seu Sol, nem tão rápido que tornasse impossível os ciclos de “noite-e-dia”, tão necessários ao desenvolvimento da vida.

Como se isso fosse pouco, o planeta tem que dar ainda a suprema façanha de fazer brotar a vida de alguma maneira. Só através dela será possível quebrar o equilíbrio tendencialmente inóspito da atmosfera para fazer brotar elementos que transformem o planeta em um ambiente receptivo a formas de vida mais complexas. Nosso oxigênio, por exemplo, vem das plantas e das algas. Sem elas, nós seríamos como Marte, só que um pouco maior, mas tão inabitável quanto o planeta vermelho.

Uma vez estabelecidas todas essas condições, restaria ainda contar com a sorte. Afinal, a própria Terra conseguiu reuni-las todas, mas já esteve à beira da catástrofe por várias vezes. Desde atividades vulcânicas exacerbadas, passando por tempestades solares maciças, até chegar no indefectível impacto de meteoros, tudo isso pode fazer com que o mais perfeito dos planetas transforme-se no pior dos lugares para abrigar a vida.

Há, claro, quem acredite ser possível pegar um planeta qualquer que atenda pelo menos a algumas condições básicas da vida e torná-lo em algo parecido com o nosso. Esse processo de “terraformação” permitiria que transformássemos um pedregulho que orbita ao redor de uma estrela em algo amigável para nos receber.

Noves fora o fato de que qualquer tentativa dessa natureza demoraria no mínimo milhões de anos para se efetivar, é o caso de se perguntar: se um dia tivermos tecnologia para transformar outro planeta numa Terra, porque não aplicar essa técnica no nosso próprio planeta, e assim eliminar os problemas que nós mesmos criamos para ele?

Supondo, numa hipótese extrema, que desenvolvêssemos tecnologia para essa empreitada e que ela pudesse ocorrer numa escala de tempo mais razoável, restaria ainda um problema difícil de contornar: teríamos de encontrar um planeta suficientemente próximo da Terra para poder nos receber. Nossa vizinha mais chegada, Proxima Centauri, está a pouco mais de 4 anos-luz de nós.

Embora isso pareça pouco numa escala astronômica, essa distância torna inviável qualquer tentativa de se chegar a ela. A Voyager 1, por exemplo, levaria mais de 70 mil anos para alcançá-la. Isso, claro, se houvesse um planeta para “terraformar” por lá, o que ainda ninguém descobriu.

Por isso mesmo, seria bom começarmos a cuidar melhor do nosso próprio planeta. Afinal, não há muitas Terras dando sopa por aí no espaço.

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