Recordar é viver: “Apocalipse trumpista, segundo ato: A economia e o mundo na segunda Era Laranja”

Falta de aviso que não foi.

É o que você vai entender, lendo.

Apocalipse trumpista, segundo ato: A economia e o mundo na segunda Era Laranja

Publicado originalmente em 13.11.24

Trump está eleito. O que esperar da economia e do mundo nessa segunda Era Laranja que se avizinha?

Do ponto de vista macroeconômico, o analista menos propenso a tomar riscos se limitaria a dizer que o que nos espera a partir de 2025 é mais do mesmo. Quem acompanhou o primeiro mandato de Donald Trump na Casa Branca sabe bem o que isso quer dizer: menos impostos para os mais ricos, expansão monetária desenfreada e desregulamentação agressiva do mercado de capitais. É um erro, porém, achar que a coisa vai se resumir a isso.

Para além da aplicação do mesmo receituário que redundou na inflação que vitimou os democratas nessa última eleição, Trump já deu toda a pinta de que irá pisar no acelerador em algumas áreas antes tidas como inexpugnáveis pela classe política. É o caso, por exemplo, do Federal Reserva (FED), o Banco Central deles. Mesmo sendo responsável pela nomeação de Jerome Powell a presidente do FED, Trump responsabiliza-o em parte pela sua derrota na última eleição. Na sua mente distorcida, se Powell tivesse injetado mais dinheiro ou mantivesse os juros negativos por mais tempo, ele não teria perdido para Joe Biden.

Agora, Trump fala abertamente em acabar com a independência do Banco Central, demitir sumariamente Powell e colocar o FED debaixo da sua asa. Se ele vai conseguir fazer isso ou não, são outros quinhentos. Mas só o fato de essa idéia ser ventilada já coloca salseiro suficiente na gafieira do Sr. Mercado. Tendo em vista que um dos fatores que mantém o dólar com reserva financeira mundial é justamente a confiança de que o FED não se sujeita a pressões políticas, dá pra imaginar o tamanho da confusão caso isso realmente venha a acontecer.

Noves fora a economia, é na seara da política internacional que o mundo deve observar os piores efeitos da eleição do Nero dos nossos tempos. Se com a eleição de Joe Biden os Estados Unidos tinham sido trazidos de volta para o mundo, Trump já prometeu mandar o mundo ir se danar, pois o negócio dele é colocar America First.

De cara, pode-se imaginar que a guerra da Ucrânia tem data para acabar. Uma vez que a antiga república soviética só se mantém graças à ajuda externa, quando Donald Trump fechar as torneiras do auxílio norte-americano, Volodimyr Zelensky será forçado a negociar uma trégua com o Putin, o parça do Laranjão. Com isso, ficará entendido para o resto do mundo que uma nação mais forte pode invadir e tomar território de uma mais fraca, pois não haverá consequências para seus atos.

E é justamente aqui que entra o fator China. Uma das últimas disputas territoriais do subcontinente chinês encontra-se a 130km da terra firme. Ela atende pelo nome de Taiwan. Refúgio dos nacionalistas de Chiang Kai-Shek, a ilha atua na prática como território independente há mais de 70 anos. Mesmo assim, a China continental nunca se conformou com esse status e defende há anos uma reunificação rejeitada pela imensa maioria da população taiwanesa. Se não houve ainda invasão da ilha, parte disso decorre do pacto de proteção segundo o qual os Estados Unidos viriam em seu socorro caso isso acontecesse. Trump honrará esse acordo? Difícil acreditar que sim, ainda mais depois de ele ter entregado a Ucrânia – ou parte dela – de mão beijada para a Rússia.

Pior que isso mesmo, só a promessa de acabar com a Otan. Por mais que se diga que Trump não prometeu de fato acabar com a aliança do Atlântico Norte, no fundo é isso que acabará acontecendo se ele levar a cabo a idéia de “cobrar” pela proteção americana. Se a Europa não se afunda em um conflito fratricida desde o fim da II Guerra, parte disso decorre de que os países que a compõem deixaram de ser estimulados a promover uma corrida armamentista. Afinal, havia o “irmão mais forte” para garanti-los, caso a União Soviética viesse a se engraçar deste lado da Cortina de Ferro. Sem essa garantia, a Europa estará à mercê de Putin. Empoderados pela provável vitória na Ucrânia, os russos podem muito bem querer testar fronteiras mais a oeste. Quem haverá de impedi-los?

Os mais céticos dirão que o mundo pode muito bem andar sem os Estados Unidos dentro dele. É o mesmo dizer que um velocista poderá correr os 100m rasos mesmo que perca uma perna. Além de maior potência militar do planeta, os EUA respondem, sozinhos, por 1/3 do PIB mundial. Não existe a possibilidade de o mundo seguir a vida sem eles, como se nada tivesse acontecido.

A ausência dos EUA do panorama internacional aumenta, portanto, a incerteza global e deixa potenciais tiranos à solta para fazer todo tipo de atrocidade. E isso inclui tanto inimigos como Kin Jong Un, como aliados carnais, como Bibi Netanyahu. A eleição de Trump conduz, em resumo, a um mundo mais inseguro, mais instável e muito mais sombrio.

God help us.

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Trilha sonora do momento

“Mas ele vai moderar”, eles disseram. #ironiaON

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Pensamento do dia

É melhor ser um estranho para os outros do que para si mesmo.

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As condições para a vida na Terra, ou A singularidade da Terra sob uma perspectiva matemática

Saindo um pouco dessa loucura em que o mundo se precipitou – cortesia do Nero dos nossos tempos, Donald Trump -, vamos reorientar as polêmicas deste espaço para uma seção que andava meio esquecida por aqui: as Ciências.

Há quase dez anos, aqui se escreveu que a existência da Terra é tão singular que deveríamos tomar muito bem conta dela, porque planetas como este não estão sobrando por aí no espaço. Naquela ocasião, foram enumeradas cinco variáveis que já transformavam o terceiro planeta do sistema solar em algo fora do comum. Ele é: 1) rochoso; 2) encontra-se na zona habitável de sua estrela (onde a temperatura é suficiente para existir água líquida, mas não muito quente que torne inviável a vida); 3) ter água; 4) possuir um campo magnético; e 5) produzir um movimento de rotação numa velocidade adequada (não necessariamente as nossas 24 horas, mas não muito longe desse padrão, sob risco de termos um lado demasiadamente quente e outro, demasiadamente frio).

Pois bem. Como ainda há gente que insista, sem qualquer embasamento científico, no “argumento estatístico”, segundo o qual “tem tanta galáxia-estrela-planeta por aí que não é possível que não exista vida igual a nossa espalhada pelo universo”, vamos analisar a questão sob uma ótica estritamente matemática-estatística, para desmontar a soberba cientificamente estúpida dessa galera.

Do ponto de vista biológico, as condições para surgimento e, mais importante, manutenção da vida na Terra ultrapassam em muito as cinco citadas no artigo acima. Na verdade, são ao todo 122. Isso mesmo. Você não leu errado. Cento e vinte e duas condições necessárias para que a vida exista e não desapareça por inviabilidade nesse pedaço de rocha a vagar pelo espaço.

Além das que você já conhece, existe, por exemplo, a condição do percentual de oxigênio na atmosfera. São aproximadamente 21% da composição do ar que respiramos. “Não seria melhor ter mais oxigênio, pra gente respirar melhor?” Não. Se esse percentual fosse minimamente diferente, por exemplo, de 25%, teríamos combustão espontânea a torto e a direito. O planeta viveria em chamas e a vida como nós a conhecemos seria impossível. E isso é apenas uma das 122 variáveis indispensáveis para a vida. Há mais de cem outras, como transparência atmosférica, gravidade, etc.

Sabendo de todas essas variáveis, vamos à tão propalada estatística. Deixando-se de lado o fato de que não se sabe ao certo como a vida começou na Terra – o que exclui à partida qualquer chance de se produzir um cálculo estatístico cientificamente honesto -, vamos nos concentrar somente nas variáveis condicionais, isto é, aquelas necessárias para que a vida surja e se mantenha em um determinado lugar.

Operando-se um cálculo probabilístico, verifica-se que a possibilidade de que essas 122 variáveis reúnam-se conjuntamente em um determinado lugar é de 10 elevado à 138ª potência. Ou seja: 10 seguido de 138 zeros.

“E daí?”, pergunta você.

Daí, respondo eu, do ponto de vista puramente estatístico, qualquer hipótese que exceda a 10 elevado a 50 é, matematicamente, considerado uma impossibilidade (ou “chance = zero”). Sim, isso mesmo. Se a chance de uma sequência de eventos ocorrer é de apenas 1 em cada 10 elevado a 50, isso significa dizer que essa coisa é impossível do ponto de vista matemático.

Apenas para deixar ainda mais evidente o quão absurdo é a proposição dos adeptos do argumento estatístico, se 1 chance em 10 elevado a 50 é igual a impossível, 1 chance em 10 elevado a 51 é igual a “10 vezes impossível”. 1 chance em 10 elevado a 52 é igual a “100 vezes impossível”. 1 chance em 10 elevado a 53 seria “1000 vezes impossível”. Quem quiser brincar com números, pode continuar a contagem até chegar em 10 elevado a 138.

Portanto, antes de sair por aí arrotando “verdades” inexistentes, baseadas em cálculos probabilísticos fantasiosos, convém revisitar a sábia humildade de Sócrates, quando reconheceu:

“Só sei que nada sei”.

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Trilha sonora do momento

Com o Trump taxando até ilha desabitada, onde só existem focas e pinguins, só mesmo lembrando do velho mote do Titãs pra desopilar…

Homem primata

Capitalismo selvagem

#Piadapronta

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Pensamento do dia

Você só se torna realmente um adulto quando aprende a se comunicar, a pedir desculpas, a ser sincero e a aceitar a responsabilidade sem colocar a culpa em outra pessoa.

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Trilha sonora do momento

Não perguntei pra ele, mas acho que ele aprovaria…

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Pensamento do dia

O bom do 1º de abril é que você pode contar um monte de verdades e sair depois dizendo que era mentira.

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Amizade tardia

Raul sempre fora um crente na Justiça. Desde os tempos de colégio, quando a perseguição promovida pelos coordenadores de disciplina lhe inspiraram a tornar-se advogado, Raul desenvolveu o inconformismo como moto de vida. Ao chegar na Faculdade, cheio de sonhos, o pretendente a causídico só pensava nos tipos de causas que pegaria quando se formasse. Nenhuma do crime, por óbvio, pois havia uma intenção real de advogar para causas verdadeiramente justas, ou seja, aquelas em que o sujeito realmente tem razão no que pede. O tempo, contudo, encarregou-se de desfazer essa doce ilusão rapidamente.

Logo no seu primeiro ano portando a carteirinha da OAB, Raul pegou a causa de um servidor público federal. Assim como ele na escola, este servidor havia sido perseguido impiedosamente pela direção do órgão ao qual ele estava vinculado. O Diretor-Geral da instituição, sentindo-se ultrajado em sua autoridade pelo servidor “desobediente”, resolvera abrir dois PADs contra a figura. A intenção era declarada: demitir o sujeito, não importava o que custasse. Para isso, valia tudo: mudar a comissão do PAD, depois da primeira indicar que votaria contra a demissão; aplicar lei revogada; e, no limite, até mesmo nomear para presidir o segundo PAD o mesmo servidor que denunciara a suposta infração. Tudo para garantir que a sanha vingativa do Diretor-Geral alcançasse a finalidade pretendida.

O caso era tão esdrúxulo que até mesmo a Justiça Federal local, conhecida por ser “fazendária” – isto é, ser pró-governo e contra o cidadão – mandou suspender os PADs, impedindo que o servidor fosse demitido. Em um dos casos, porém, a Direção do órgão, chateada com o que considerava uma “intervenção” indevida do Judiciário nos desígnios do seu chefe, ficou remanchando o cumprimento da obrigação. Foram necessários seis meses e três ordens judiciais explícitas, com aplicação de multa à União, para que enfim o órgão publicasse a portaria determinando a suspensão do PAD.

Finda a causa, era hora de ir à desforra. Afinal, não bastava apenas impedir que o sujeito fosse demitido. Para que a Justiça se aplicasse por completo, era necessário cobrar da União a multa pelo descumprimento da decisão. A idéia era menos fazer com que o sujeito fosse “recompensado” pela perseguição, e mais punir o Diretor-Geral, que seria cobrado posteriormente pela própria União, uma vez que tinha sido ele o responsável direto pelo descumprimento da ordem judicial.

Embora os dispositivos legais fossem claros, o juiz que julgara a causa inicialmente tinha acabado de ser removido para outra localidade. Quem ficou responsável pelo caso foi um daqueles juízes que vestem a toga, mas desempenham melhor o papel de advogado da União. Com o propósito de mitigar essa frustração existencial, tais juízes não hesitam em abandonar a imparcialidade para fincar bandeira ao lado do Governo. E dane-se se isso viola a paridade de armas entre as partes.

Numa decisão completamente sem pé nem cabeça, o juiz negou o pagamento da multa, alegando simplesmente – veja você – que a decisão não havia sido descumprida. O “atraso” de seis meses teria se dado por conta da “burocracia” interna do órgão. Ao melhor estilo passador de pano, o juiz ainda achou por bem tirar onda com o pedido de Raul, dizendo que no seu pedido “sobrava retórica, mas faltava base jurídica”.

O tempo passou, mas aquela cicatriz ficou marcada na alma daquele jovem advogado. Mais de uma década depois, Raul já se tornara um advogado conhecido, mestre e doutor em Direito, livros publicados, requisitado para dar aulas e palestras em várias universidades. Numa dessas ironias do destino, Raul foi chamado para participar de um seminário numa determinada faculdade. Na sua mesa, estaria justamente o juiz federal que havia tirado onda com a sua cara.

Sem se recordar do episódio, o juiz veio cumprimentar Raul todo pimpão. Simpático, o magistrado – agora desembargador – quis fazer-se de amigo, quando do outro lado havia apenas uma pedra de gelo, quase um iceberg, de tão frio que era Raul ao responder às investidas do sujeito. Era muito fácil querer tornar-se amigo do palestrante famoso. Difícil mesmo era tratar com justiça uma causa certa e respeitar um advogado em começo de carreira, com a caneta de juiz na mão.

Sem entender a aversão comportamental do palestrante, o juiz insistiu:

“Dr. Raul, aconteceu alguma coisa? O senhor está tão monossilábico nas suas respostas…”

“Sim, Dr. Aconteceu”.

Foi quando Raul pôs-se a relatar o caso de anos atrás e recordou ao magistrado a injustiça que ele havia cometido naquela ocasião.

“Mas Dr. Raul, essas coisas acontecem. Veja bem: agora você é um advogado respeitado, eu sou desembargador. São tantas as coisas que a gente pode fazer juntos agora”, respondeu o magistrado, pretendendo uma intimidade que Raul claramente não desejava. Após alguns segundos de constrangedor silêncio, o agora desembargador mordeu o lábio. Subitamente reduzido à condição de suplicante, o juiz insistiu pelo armistício uma última vez:

“Não há nada que eu possa fazer pelo senhor agora?”, perguntou o magistrado, em voz baixa.

Raul apenas sorriu e respondeu na lata:

— Sim, Desembargador. Mantenha distância.

E foi assim que aquele juiz descobriu que, às vezes, a Justiça levanta a venda para piscar, nem que seja ironicamente…

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Trilha sonora do momento

Tradicionalmente…

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