Há uma grande diferença entre precisar de terapia e precisar de exorcismo. Informe-se.
#FicaaDica
Há uma grande diferença entre precisar de terapia e precisar de exorcismo. Informe-se.
#FicaaDica
E hoje se comemoram os 80 anos do maior compositor da Música Popular Brasileira,
Para homenagear o grande, gigantesco Chico Buarque, uma de suas melhores.
Que, a propósito, bem espelha a situação de um amigo meu no momento…
A felicidade morava tão vizinha que, tolo, até pensei que fosse minha.
By Chico Buarque
Com tantos ataques da ala medieval do Congresso às mulheres, só mesmo recorrendo a Erasmo Carlos pra desopilar.
Só é corno quem é curioso.
#FicaaDica
E agora que a querida Courtney Henning Novak descobriu Dom Casmurro, talvez seja o caso de rememorar uma das resenhas mais antigas deste espaço, quando se defendeu a tese de que essa é a maior obra literária jamais produzida no Brasil.
É o que você vai entender, lendo.
Publicado originalmente em 6.8.12
Essa é das mais polêmicas.
Vira e mexe, resolvem juntar alguns escritores para estipular um cânone da literatura nacional, real ou ficcional. Os Sertões, Vidas Secas, Grande Sertão: Veredas… as figurinhas carimbadas estão sempre lá, seja qual for a ordem adotada. Mas, dentre todos estes, na modesta opinião deste que vos escreve, nenhum é maior do que Dom Casmurro.
Certa vez escrevi aqui que, se pudesse escolher um livro para chamar de meu – isto é, qual livro eu gostaria de ter escrito – escolheria Hamlet. Mas, na língua portuguesa, a mesma escolha recairia sobre Dom Casmurro.
Dom Casmurro é a obra definitiva de Machado de Assis. Depois de uma fase de, digamos, “conservadorismo” literário de romances como Helena e Iaiá Garcia, na qual Machado já se destacava, mas não operou grandes mudanças de paradigmas literários, o Bruxo do Cosme Velho resolveu mudar para sempre a literatura brasileira com Memórias Póstumas de Brás Cubas. A escrita ácida, a sinceridade assustadoramente cáustica de Brás Cubas fizeram com que até mesmo seu autor indagasse-se se aquilo poderia ser chamado de “romance”. A biografia do defunto-autor inaugura um novo estilo de escrita que atinge seu ápice em Dom Casmurro.
A história todo mundo conhece, pelo menos de ouvir falar.
Bentinho é uma criança nascida em berço de ouro (tal qual Brás Cubas), superprotegido pela mãe. De certo modo, ela dirige toda a cena em sua casa. Há até um agregado (José Dias) – que, na linguagem atual, poderia ser chamado de “escalado” – que ali vive a puxar o saco alheio para ter um lugar onde dormir e comer.
Como todo garoto imberbe, Bentinho é um idiota. Quer dizer, são brinquedos facilmente manipuláveis nas mãos de meninas da mesma idade, que fazem dos tolos projetos de homem o que bem querem. Natural, dado que a mulher desenvolve a perspicácia e a malícia antes do homem. Na maior parte dos casos, o adolescente só vai conseguir tornar o jogo mais parelho depois dos 20 anos, e verdadeiramente não o conseguirá igualar nunca.
Em Dom Casmurro, a puppeteer de Bentinho é Capitu. Filha do vizinho falido, Capitu é uma jovem bela e faceira. Talvez por isso mesmo, a mãe de Bentinho enxerga nela uma espécie de alpinista social, o que leva José Dias a fazer-lhe a “denúncia”: “Se eles pegam em namoro…“
A trama, então, se desenvolve em torno do relacionamento de Bentinho e Capitu. O que muita gente talvez não consiga captar é que Dom Casmurro não é propriamente um romance sobre o adultério, mas um romance sobre o ciúme. “Escrito” por um Bentinho velho, sozinho e amargurado, toda a narrativa encontra-se impregnada do ciúme doentio que Bentinho sentia de Capitu, principalmente como seu velho amigo de fé, irmão camarada, Escobar.
Afastando-se um pouco do narrador, é possível perceber que o livro segue um estilo forense. Trata-se de uma peça de acusação, com Bentinho na condição de promotor, Capitu na condição de ré e você, “caro leitor”, na condição de julgador.
Bentinho apresenta sua tese de acusação: foi traído por Capitu com Escobar e seu filho, Emanuel, é fruto dessa relação. Para “prová-la”, rememora as partes de sua vida, dando especial relevo à dissimulação e à sagacidade de Capitu. Entre um fato e outro, Bentinho produz algumas digressões – como o caso da mulher do barbeiro – destinadas a atrair a simpatia do “amigo leitor” à sua tese.
Sem defesa, Capitu fica à mercê da narrativa enviesada de seu marido. Como não há “nos autos” outras “provas” senão aquelas apresentadas por Bentinho, toda a acusação torna-se verossimilhante, dada a inexistência de contraditório. Por ela, pode-se até mesmo acreditar que Emanuel era a cara cuspida e escarrada de Escobar. Até mesmo seus trejeitos imitava, como se os tiques nervosos passassem com a herança genética.
No fundo, no fundo, não há como saber se isso é verdadeiro. Pode ser uma deformação da mente doentia de um velho amargurado. Pode ser também uma forçação de barra de um promotor ambicioso. O fato, meu caro leitor, é que você é apresentado a um “processo” kafkaniano: há acusação, não há defesa, e a pobre da ré não tem sequer o direito de fazer seu contraponto.
No final, Bentinho ainda produz uma trapaça. Toma do leitor até mesmo o papel de julgador. “O resto”, diz Bentinho, “é saber se a Capitu da Praia da Glória já estava dentro da de Matacavalos, ou se esta foi mudada naquela por efeito de algum caso incidente”, para, afinal, concluir que “uma estava dentro da outra, como a fruta dentro da casca”.
Sem dúvidas acerca da culpa de ambos, proclama o veredito: …”a minha primeira amiga e o meu maior amigo, tão extremosos ambos, e tão queridos também, quis o destino que acabassem juntando-se e enganando-me”.
E, ao final, expede a sentença:
“A terra lhes seja leve!”
O que faz de Dom Casmurro um romance único é justamente isso: ludibriar o leitor de modo que ele não perceba que foi enganado.
E, como uma certa síndrome de Estocolmo, é impossível não estabelecer uma relação de empatia com esse velho transtornado e trapaceiro.
Ah, como eu queria ter escrito Dom Casmurro…
Dê a cada um o que ele merece e quem escapará do açoite?
By William Shakespeare
Há males que vêm para o pior. Mas, mesmo se tratando de uma seara fértil maldades das mais bizarras, o que está agora em curso no Congresso Nacional avilta até mesmo os já rebaixados padrões brasileiros de tolerância e dignidade. Tal é a conclusão de quem observa o que a Câmara está prestes a votar acerca do aborto legal.
Como se sabe, o aborto no nosso ordenamento é crime (Código Penal, art. 124). Uma vez que, em regra, se trata de crime doloso contra a vida, a instância para julgamento desse delito é o tribunal do júri (art. 5º, inc. XXXVIII, da Constituição Federal). Em que pese algumas tentativas frustradas do próprio Supremo Tribunal Federal, no sentido de autorizar o aborto discricionário no Brasil, essa é a regra que prevalece em nosso sistema jurídico.
Ocorre, no entanto, que nem sempre o abortamento é punível. A lei põe a salvo das cominações penais duas situações: I – quando há risco à vida da gestante; e II – quando a gravidez é decorrente de estupro. Para além desses dois casos, há também a hipótese do abortamento do feto anencefálico, estabelecida (de forma anômala) por decisão do STF (ADPF nº. 54). Isso é o que está estabelecido na nossa lei penal desde 1940, ou seja, quando o país era muito mais rural, atrasado e conservador do que é hoje.
Agora, para fazer gracinha e excitar a malta de fanáticos religiosos, deputados da extrema-direita brasileira querem derrubar o que já está estabelecido há quase um século para retomar padrões quase medievais de legislação. Utilizando-se da já surrada tática de promover a “pauta de costumes” para “desgastar o governo”, essa horda de cretinos idólatras agora quer equiparar as penas do aborto às do homicídio, caso o abortamento ocorra após a 22ª semana de gestação.
Até aí, vá lá. É apenas mais um entre tantos casos de mau sopesamento, pelo legislador, de condutas humanas na hora de definir tipos penais. Não faz qualquer sentido, afinal, dizer que uma mulher que abortou seu filho tenha que cumprir a mesma quantidade de pena que, por exemplo, um homicida que matou um velhinho apenas porque ele encostou a mão no capô do seu carro (caso real).
Mas a coisa é muito pior que isso. Para além de equiparar o abortamento ao homicídio, a nova lei proíbe – isso mesmo que você leu: PROÍBE – qualquer tipo de aborto, mesmo aqueles amparados em risco para a vida da gestante ou decorrentes de estupro, após a 22ª semana de gestação. Trata-se do mais rasteiro e atroz atentado que se produziu contra os direitos da mulheres em toda a história da República.
Não sendo néscio ou fanático, qualquer pessoa minimamente razoável consegue entender o argumento por trás das hipóteses legais que estabelecem a exclusão da punibilidade em caso de aborto. Quer dizer: quem, em sã consciência, negaria a uma mulher o direito de abortar o feto caso sua própria vida estivesse em risco, ou, ainda, quando a gravidez tenha sido gerada por estupro? Mesmo católicos e evangélicos fervorosos, mas não fanáticos, conseguem enxergar que não há qualquer ofensa aos céus quando se sacrifica uma vida em gestação em casos assim.
Todavia, como tem sido hábito nos últimos tempos, o governo federal – tomado por um irritante sentimento fatalista diante da realidade adversa – meio que lavou as mãos e deixou ao cargo do Centrão de Lira tocar a pauta adiante. Além de tentar empurrar a questão com a barriga, procurando adiar a votação, os articuladores do governo pouco têm feito para contestar o mérito do projeto. Tomado pelo desejo de fazer seu sucessor na Presidência da Câmara, Arthur Lira parece ceder a todos os caprichos da “bancada do TikTok” na Casa, de maneira a conseguir votos para seu indicado.
A menos que a consciência moral dos brasileiros tenha descido a níveis tribais, ninguém pode admitir que se envie ao cárcere, por exemplo, uma menina de 12 anos, estuprada desde os 10 pelo próprio pai, somente porque o restante da família descobriu a gravidez depois da 22ª semana de gestação. E o que é pior: com uma pena mais de três vezes superior (vinte anos) à do criminoso responsável pela gravidez indesejada (seis anos).
É preciso dar um basta nesse tipo de estultice. O que está em causa não é uma discussão entre governo e oposição. É entre Congresso e Sociedade. Uma vez que não temos como contar com o governo, inoperante e impotente em temas dessa natureza, o que temos que fazer é ir às ruas e defender a nossa própria dignidade. Ou o Brasil toma as rédeas e começa a impor limites mínimos de civilidade à sanha fundamentalista da bancada medieval, ou daqui a pouco nos encontraremos discutindo o regresso do feudalismo como sistema de produção.
É esperar pra ver.