Os 5 melhores testamentos musicais de todos os tempos

Se tem uma coisa da qual não se pode reclamar deste espaço é quanto à música. Isso porque, faça chuva ou faça sol, o doce som que costuma embalar as nossas vidas sempre esteve aqui no Blog, mesmo nos momentos mais difíceis.

No entanto, se é verdade que a Trilha sonora do momento é a única certeza deste espaço dado a tantas incertezas, também é certo que os posts efetivamente dedicados à Música não costumam ter a mesma frequência no Dando a cara a tapa.

Para reparar esta falta, vamos retomar nossas tradicionais listas musicais aqui do Blog. Desta feita, com algo que geralmente passa despercebido a muita gente: os “testamentos musicais” de cantores famosos?

“Testamento musical?!? Mas como assim?!?”

Palma, palma, não criemos cânico, como diria Chapolin Colorado.

“Testamento musical” não é um documento escrito no qual o sujeito, em disposição de última vontade, distribui as letras que escreveu em vida. Não, não, absolutamente. O termo aqui está empregado como uma espécie de legado que o cantor ou cantora presta à posteridade quando, por alguma razão, sabe que está nas últimas. Ao melhor estilo one last show, o “testamento musical” representa o último grande sucesso do artista, no qual ele tenta expressar tanto o que foi quanto a forma com a qual quer ser encarado quando já tiver partido para uma melhor.

Tratando-se de uma lista inequivocamente formulada a partir de idiossincrasias e preferências pessoais, vale aqui a mesma regra utilizada para em todas as outras listas elaboradas pelo Blog: se o distinto leitor concordar, pago-me da tarefa a que me propus; se não concordar, pode pegar a lista e enfiar no ralo da banheira (ou em outro buraco que esteja à mão).

Sem mais delongas, vamos ao Top 5 dos melhores testamentos musicais de todos os tempos:

5 – Rehab (Amy Winehouse)

Nossa lista é inaugurada com a mais recente das canções que a integram. E sim, pode-se sempre argumentar que Rehab não é propriamente um testamento musical, porque Amy Winehouse não estava nas últimas quando a compôs. No entanto, nenhuma outra canção da cantora britânica retrata de maneira tão fiel quem foi a artista que a escreveu. Afinal, Rehab conta a própria (e triste) história pessoal de Winehouse que, mergulhada em um alcoolismo desenfreado, tentava ser convencida pelos amigos a internar-se numa clínica de reabilitação. Depois de muito relutar, ela enfim concordou com a sugestão. Porém, decidiu antes contar a seu pai, que a aconselhou em sentido contrário. E foi justamente daí que surgiram os primeiros versos da canção:

They tried to make me go to rehab, but I said: “No, no, no”

(Eles tentaram me fazer entrar em reabilitação, mas eu disse: “Não, não, não”.

Yes, I’ve been black but when I come back you’ll know, know, know 

(Sim, eu estive mal, mas quando eu voltar vocês vão saber, saber, saber)

I ain’t got the time and if my daddy thinks I’m fine…

(Eu não tenho tempo e se meu pai acha que eu estou bem…)

4 – Via Láctea (Renato Russo)

A quarta colocada da nossa modesta lista traz um espécie nacional. Afinal, Renato Manfredini Jr. só tinha de russo o apelido. Entrando nos anos 90 já sabendo que era portador do vírus HIV, Renato Russo convocou sua Legião Urbana para fazer aquele que seria seu último álbum de estúdio. Foi assim que nasceu Tempestade. Como era óbvio, o disco traz um misto de otimismo e desesperança. E, dentre suas faixas, nenhuma retratou de forma tão viva essa contradição existencial do que Via Láctea:

Quando tudo está perdido
Sempre existe um caminho
Quando tudo está perdido
Sempre existe uma luz
Mas não me diga isso
Hoje a tristeza não é passageira
Hoje fiquei com febre a tarde inteira
E quando chegar a noite
Cada estrela parecerá uma lágrima

3 – Je ne regrette rien (Édith Piaf)

Nosso pódio é inaugurado com um dos maiores clássicos da música francesa e – por que não dizer? – universal. São muitos os que já ouviram pelo menos uma vez na vida os tristes versos de Je ne regrette rien, mas são poucos, muito poucos, os que conhecem a história por trás da voz que lhe deu fama. Com tantas idas e vindas, tantos amores mal resolvidos, tanta bebida, tanto cigarro, tantas drogas, Piaf encontrou na canção de Charles Dumont (música) e Michel Vaucaire (letra) o resumo de sua existência a um só tempo trágica e gloriosa. Mesmo diante de todas essas agruras, gritava ela em alto e bom som que não se arrependia de nada:

Car ma vie

(Porque minha vida)

Car mes joies

(Porque minhas alegrias)

Aujourd’hui

(Hoje)

Ça commence avec toi…

(Começam com você)

2 – O tempo não pára (Cazuza)

Nossa medalha de prata é, literalmente, prata da casa. Afinal, nada é mais brasileiro do que Agenor de Miranda Araújo Neto. Ou, como era mais conhecido, Cazuza. Também vitimado pela AIDS, Cazuza definhava a olhos vistos. Mesmo assim, queria levar até o último suspiro de vida sua vontade de mudar o mundo através das suas canções. Com a ajuda de Ney Matogrosso, organizou o que seria seu último espetáculo ao vivo, no Canecão do Rio de Janeiro. E não só isso. Desse show seria lançado um álbum, contendo músicas inéditas, das quais a canção-título seria seu testamento musical para as gerações seguintes. Felizmente, alguém teve a idéia de assim fazer, porque a versão que conhecemos de O tempo não pára é a justamente aquela gravada no show ao vivo, pois não existe gravação dela em estúdio. Sem o registro do show no Canecão, o mundo ficaria privado de uma de suas mais belas canções, que registra como poucas a coragem e também a raiva de um sujeito indignado diante da idéia de morrer:

Mas se você achar
Que eu tô derrotado
Saiba que ainda estão rolando os dados
Porque o tempo, o tempo não para

1 – The show must go on (Freddie Mercury)

Quem juntou lé com cré ao ler o enunciado desse post deve ter sentido, até de forma intuitiva, que a medalha de ouro seria para esta música. Se não concluiu assim antes de chegar até aqui, de duas, uma: ou nunca ouviu The show must go on, ou então não entende muito deste Blog. Nenhuma música, antes ou depois dela, retrata de forma inspiradora o que foi a vida de um artista e o seu legado para a posteridade. Freddie Mercury estava tão mal, mas tão mal, que nem sequer um videoclip foi gravado para a canção. O vídeo oficial da música resulta de uma montagem de vários outros videoclips da banda. Escrita por Brian May, a música descreve a luta e o esforço de Freddie Mercury para continuar gravando até o fim de seus dias. E assim foi. Um mês depois de seu lançamento, Freddie Mercury nos deixaria. E alguém dirá que não importa. Afinal:

The show must go on

(O show deve continuar)

Inside my heart is breaking

(Por dentro meu coração está se partindo)

My makeup may be flaking

(Minha maquiagem pode estar escorrendo)

But my smile still stays on…

(Mas meu sorrido ainda continua…)

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