Os tiros em Cid Gomes, ou O Brasil a caminho do fascismo

Se faltava alguma coisa, agora pode-se dizer que não falta mais.

Depois de ver policiais em “greve” aterrorizando a população comum e transitando em viaturas para ordenar que o comércio fechasse as portas, o ex-governador do Ceará e atual senador pelo estado resolveu enfrentar uma tropa de amotinados no batalhão da PM de Sobral. Com uma retroescavadeira, pôs abaixo o portão que separa o quartel da rua. O resultado? Dois tiros no peito, disparados por policiais encapuzados.

Você pode estar se perguntando a razão das aspas, mas o que está em jogo é muito claro. Fala-se aí na imprensa de uma “greve de PMs”. Mas não há greve alguma. O que há é um motim, ao qual Cid Gomes – do jeito destrambelhado de sempre, bem ao feitio dos Ferreira Gomes – quis enfrentar.

Não se pode falar em “greve de PMs” simplesmente porque, constitucionalmente, não lhes é conferido o direito de fazê-la. Ainda que se admitisse genericamente, em nome de alguma consciência trabalhista, o direito de paralisarem suas atividades, isso jamais incluiria o direito de ocupar quartéis com arma em punho e capuz na cabeça. Muito menos o de sair por aí determinando toque de recolher a uma população aterrorizada, indefesa diante do levante daqueles que se supõe agentes da lei.

Pode-se, claro, discutir a forma atabalhoada e populista com a qual Cid Gomes quis enfrentar os revoltosos. Mesmo assim, nada justifica o disparo covarde a um cidadão que estava desarmado. De resto, o que há de ser feito com tropa amotinada é justamente isso. Salvo o sincero desejo de que tudo transcorra em paz, não há o que se negociar com militares amotinados. É sempre preferível vê-los desentocados sem negociação alguma, pelo simples medo do uso da força. Em 1922, por exemplo, o Presidente Epitácio Pessoa mandou passar em armas revoltosos que desfilavam pela Avenida Atlântica. Os “dezoito do Forte” hoje são heróis, mas Epitácio Pessoa fez o certo. A tropa amotinada comprou um risco e pagou o seu preço. Jogo jogado.

Quando um policial militar sai à rua para prender bandido, sabe que em algum momento está colocando sua vida em perigo. Quando esse mesmo PM resolve se amotinar em um quartel, usando o mesmo capuz que costuma enfeitar a cabeça dos bandidos que persegue, promovem covardia em dose dupla. A uma, porque brandem força atrás de uma barricada e com armas nas mãos, de modo a intimidar os mais fracos. A duas, porque cobrem o rosto com medo da responsabilidade. Em ambas as hipóteses, ofendem a democracia e aqueles que pagam os seus salários.

Para quem acompanha de fora, pode parecer que o atentado à vida de Cid Gomes tenha sido um caso isolado no meio dessa balbúrdia chamada Brasil. Não é. Quando altas autoridades falam no retorno do AI-5 como quem fala da volta de Dom Sebastião; quando altas autoridades atacam a imprensa em geral e xingam, com emprego de largo vocabulário de baixo calão, jornalistas em particular; quando a Lei de Segurança Nacional é insistentemente invocada para justificar perseguição a adversários; e quando, diante de tudo isso, as tais “instituições” preferem permanecer acocoradas embaixo da mesa, chorando copiosamente em posição fetal, numa atitude a um só tempo servil e pusilânime; casos como esse podem ocorrer. E não só isso. Tornam-se naturais, quase inevitáveis.

Numa quadra em que a bestialidade se tornou banal, são demasiados os desaforos praticados contra a ordem democrática. Resta saber se o atentado a Cid Gomes foi o mais triste episódio deste último período, ou apenas o primeiro ato de uma série de horrores que ainda está por vir.

Se eu fosse votar, chutaria a segunda opção…

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