O julgamento da suspeição de Moro, ou Precisamos falar sobre Lula

Ontem, a Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal adiou novamente o julgamento do habeas corpus impetrado pela defesa do ex-presidente Lula no qual se discute a (im)parcialidade do ex-juiz e agora ministro Sérgio Moro. Embora negada a concessão de uma liminar de ofício para colocar o ex-presidente em liberdade, o julgamento do mérito ficou para o segundo semestre, quando o Supremo retorna do recesso.

Que a isenção do julgamento de Luís Inácio Lula da Silva encontra-se em xeque, parece ponto fora de questão. Sejam ou não produto do crime de um hacker, as conversas até aqui vazadas deixam claro que havia uma espécie de dobradinha entre Moro e a Força-Tarefa da Lava-Jato, com direito até a pedido do ex-juiz para que o Ministério Público soltasse uma nota em sua defesa para combater o que ele chamou de “showzinho da defesa”. Se o Supremo terá ou não cojones para enfrentar a matéria são outros quinhentos. Mas esse não é o ponto que se pretende abordar aqui.

Mal saiu a notícia de que o julgamento do HC, antes adiado, iria efetivamente ocorrer, o dólar começou a subir e a bolsa despencou. Nas redes sociais, as milícias digitais da extrema direita começaram a lançar “convocações” para que os “cidadãos de bem” fossem se manifestar na frente do STF, para “impedir a soltura do ladrão barbudo”. Do outro lado, o povo à esquerda voltou a se concentrar no acampamento de Curitiba e, no Twitter e Facebook, as “hordas vermelhas” faziam uma espécie de vigília pela soltura do seu líder político.

Parece mentira, mas já se passaram quase dez anos desde quando o torneiro bissílabo de São Bernardo desceu a rampa do Planalto, passando a faixa à primeira presidente eleita na história do país. Montado em boçais 90% de popularidade, Lula encerrava seu ciclo na presidência com impressionantes 7,5% de crescimento do PIB e o epíteto de “político mais popular do planeta”.

Nesse meio-tempo, pouca coisa parece ter mudado. O pessoal da esquerda continua orbitando, em maior ou menor grau, ao redor da figura de Lula, seja encarando nele uma espécie de “Dom Sebastião”, que traria de volta uma nova “era de ouro” para a economia brasileira, seja simplesmente por acreditar que ele continua sendo um cabo eleitoral imbatível. Na outra ponta, o pessoal da direita continua a utilizá-lo como espantalho de uma possível “volta da esquerda”, como se o retorno dela ao poder trouxesse consigo as dez pragas do Egito. A realidade, contudo, é bem mais complexa do que isso.

A menos que o sujeito esteja cego pelas paixões políticas, é inegável constatar que Lula fez um bom governo. Especialmente no seu segundo mandato, houve crescimento da economia, da renda e do emprego. Boa parte dessa riqueza foi distribuída entre os mais pobres, seja através de programas como o Bolsa-Família, seja através da política de valorização do salário-mínimo. Serviços públicos foram reestruturados e os servidores, especialmente os integrantes das chamadas “Carreiras de Estado”, viram um dinheiro com que nunca haviam sonhado. Parecia que enfim o Brasil tinha encontrado seu rumo.

Parecia.

Ao abandonar a idéia de pressionar o Congresso para arrancar-lhe um terceiro mandato, Lula pensou em um subterfúgio para driblar a restrição a uma segunda reeleição. Como seus mais fiéis escudeiros – José Dirceu e Antônio Palocci – já haviam caído em desgraça, Lula pensou em indicar um “poste” para a presidência, alguém tão politicamente inepto que ficaria a depender dele o tempo inteiro para governar. No limite, seria apenas alguém destinado a esquentar a cadeira por quatro anos, até que o ex-líder sindical pudesse retornar ao posto que considera eternamente seu. Foi nesse contexto que surgiu a “Mãe do PAC”: Dilma Rousseff.

Olhando-se em retrospecto, é evidente que a escolha de Dilma como candidata foi um erro, talvez o maior da carreira de Lula. A inépcia política e gerencial de Dilma era de tal maneira assustadora que, em pouco mais de três anos, o “tigre asiático” que se insinuava em 2010 transformou-se em um gato esquálido já em 2013, fazendo rugir o ronco das ruas nas jornadas de junho daquele ano. O pessoal da esquerda gosta de botar a culpa da débâcle petista na Lava-Jato, mas sempre é bom lembrar que a Operação só ganhou realmente as ruas em 2014, quando houve a prisão de Paulo Roberto Costa. Não há, portanto, como ligar uma coisa à outra.

É claro que, daí pra frente, a revelação do tamanho da corrupção havida nos anos PT não melhorou em nada a situação. A calamidade do governo Dilma, reeleita numa campanha suja e marcada pelo estelionato eleitoral que se lhe seguiu, fez o resto do serviço no quesito “destruição de imagem”. A soberba de indicar alguém incapaz para o cargo somente para poder exercer a presidência através de interposta pessoa cobrava agora um preço caro a Lula.

A questão, porém, é que, sejam quais forem as culpas de Lula, nada disso dá a quem não gosta dele o direito de suprimir-lhe um julgamento justo, coisa que aparentemente não aconteceu com Sérgio Moro à frente do barco. Mais ainda, não dá para transformar o sistema judicial numa máquina de justiçamento, como se juízes e procuradores fossem alguma espécie de “vingadores” de uma população sedenta por Justiça. Se Lula é culpado, mas não foi sentenciado por um juiz imparcial, a única solução possível é anular a sua condenação. Não dá para criar, como ironicamente faz referência Reinaldo Azevedo, um “Direito Penal para Lula”, como se o ex-presidente fosse o bode expiatório de todos os pecados do país.

Tampouco dá pra engolir a seco o discurso de seus defensores mais fiéis, segundo o qual Dilma foi derrubada por um “golpe” e que tudo mais que se seguiu depois foi uma grande “conspiração” da “mídia” e do “grande capital internacional” para impedir a vitória do “maior presidente que este país já teve”. Menos. Pode-se discutir a legalidade do impeachment, mas a verdade é que Dilma deveria ter sido cassada juntamente com Temer pelo TSE, ante o evidente abuso de poder econômico nas eleições de 2014.

Mais que isso, não há qualquer garantia de que, solto, Lula realmente pudesse ganhar de Bolsonaro no último pleito. Dado o grau de antipetismo enraizado na população, o mais provável é que Bolsonaro ganhasse de uma forma ou de outra, talvez com uma margem até maior caso o candidato do PT fosse realmente Lula.

O fato é que, com 73 anos de idade, Lula dificilmente voltará a concorrer novamente ao cargo de presidente. A esquerda fica presa a ele porque, até o momento, faltam-lhe alternativas viáveis eleitoralmente. E a direita segue no irritante discurso único contra o babalorixá petista simplesmente porque lhe é conveniente, dado que o ex-presidente – justa ou injustamente – personifica todos os pecados do PT no poder.

Ou o Brasil – à direita e à esquerda – resolve superar Lula e seguir adiante com a vida, ou então ficaremos condenados a esse FlaxFlu eterno até que o ex-presidente parte desta para uma melhor. Quando isso acontecer, o único julgamento que restará será o da História. E a História, como se sabe, é implacável.

Tanto de um lado, quanto de outro…

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