Recordar é viver: “O mito do PT e do PSDB”

Com o PT fora do jogo e o PSDB caminhando a passos largos para um processo público de autofagia, convém recordar um post de três anos atrás sobre uma das maiores besteiras já difundidas pela imprensa nacional.

É o que você vai entender, lendo.

O mito do PT e do PSDB

Publicado originalmente em 25.2.14

Dando sequência, ainda que forma indireta, ao post de ontem sobre as projeções eleitorais para 2014, creio ser conveniente desfazer um dos mitos mais reproduzidos hodiernamente pela imprensa tapada: o mito de que não há vida para a política nacional fora do PT e do PSDB.

Não sei exatamente quem começou com essa história, nem quando ela efetivamente se espraiou pelas redações, mas o adágio de que o PT e o PSDB são os “dois melhores partidos produzidos pela política nacional” é uma das maiores asneiras que eu já ouvi em todos os tempos. A um só tempo, ela encerra ignorância quanto ao passado, desprezo quanto ao presente e fatalismo quanto ao futuro.

Em relação ao passado, quem afirma que PT e PSDB são os dois melhores exemplares da fauna política nacional provavelmente nunca estudou história do Brasil. Ignora-se, por exemplo, o MDB, responsável direto pela queda da ditadura e pela redemocratização do país.

Pode-se argumentar que o MDB só fez tudo isso graças ao monopólio que detinha da oposição. Com o insano bipartidarismo instituído pelos militares, quem queria se opor só poderia se filiar a ele. Tudo bem. Mas será que PT e PSDB terão sido melhores do que o PTB da Era Vargas, responsável pela transformação de um país rural e atrasado em um dos maiores parques industriais do planeta? Ou mesmo a tão renegada UDN, que, a despeito do golpismo de grande parte de seus membros, exibia um nível de coesão ideológica muito maior do que ambos?

Quanto ao presente, afirmar que PT e PSDB podem ser reconhecidos como “melhor” em alguma coisa implica desprezar o noticiário judicial. No primeiro caso, o PT tornou-se o único partido de nossa história política a ostentar a condenação de seus membros por desvio de dinheiro público No segundo, o PSDB aguarda desfecho igual para um esquema semelhante de desvio. A única coisa a distingui-los era o propósito: enquanto no Mensalão Petista o desvio foi para comprar apoio político no Congresso, no Mensalão Mineiro o desvio foi para financiar a campanha (re)eleitoral de Eduardo Azeredo.

Seja como for, é muito triste pensar que “os dois melhores partidos já produzidos no país” sejam justamente aqueles que, vez por outra, transformam o noticiário político em sublegenda das páginas policiais.

No que toca ao futuro, a afirmação da superioridade petista e tucana implica reconhecer que a política nacional está condenada a viver de Fla x Flu até o fim dos tempos. Assim como Fukuyama em seu “Fim da História”, seria como se tivéssemos assistido na seara política a um esquema autofágico de teses e antíteses até chegar a esses dois sobreviventes. Daí pra frente, nada mais seria viável.

É óbvio que essa conclusão, além de fatalista, é profundamente reducionista. O Brasil não começou em 1994. Vivemos 500 anos sem PT e PSDB, e vivemos muito bem. Se ambos desaparecerem, seguiremos com outros partidos que, bem ou mal, tocarão a vida política do país. O mundo não vai se acabar por causa disso.

Não custa lembrar que, até o começo dos anos 90, tanto PT como o PSDB eram partidos pequenos, no máximo de média expressão, para ser bonzinho. No exercício do governo, ambos cresceram desmesuradamente, seguindo a lógica de que: onde há governo, há cargos e dinheiro; logo, haverá muita gente disposta a ser governo.

Fora do governo, no entanto, a coesão partdiária vai pro espaço. No Ceará da Era Tasso Jereissati, por exemplo, o PSDB detinha mais da metade das prefeituras, 70% da Assembléia Legislativa e todos os senadores eram apoiadores dele. Hoje, menos de uma década depois que foi alijado do Governo, contam-se suas prefeituras numa mão, não tem mais nenhum deputado estadual e todos os senadores fazem parte da outrora oposição ao PSDB.

Obviamente, a reprodução acrítica dessa tese esdrúxula embute uma mistura de preguiça intelectual com um certo desejo íntimo de que as coisas continuem como estão. Pode parecer estranho, mas os jornalistas políticos não gostam que as coisas fujam do padrão. Se surge uma terceira via, isso implica garimpar novas fontes e tentar compreender o tipo de pensamento representado por quem sai do status quo. Com o PT e o PSDB, tudo isso é desnecessário. As fontes já estão estabelecidas e o pensamento, de um lado e de outro, é amplamente conhecido.

PT e PSDB não são os melhores exemplares que o Brasil produziu em termos de partido político. São apenas os dois partidos que foram hegemônicos nas últimas duas décadas. A qualidade não tem nada a ver com isso.

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