“Estamos sós no Universo?”, ou A hipótese da “Terra Única”

Hoje, saiu a notícia de que o telescópio espacial Kepler, da Nasa, teria identificado três planetas nos quais poderia haver vida.Situados nas órbitas das estrelas Kepler-62 e Kepler-69, os três planetas estãona chamada “zona habitável”, ou seja, a uma distância do “Sol” deles distante o suficiente para que o calor não torne a vida insuportável, mas não longe o bastante para que o calor seja tão ínfimo que torne o planeta um grande globo gelado.

Situados a uma distância muito grande (entre 1200 e 2700 anos-luz da Terra), atualmente não há tecnologia disponível para que se possa pensar numa expedição astronômica que os alcance para tirar a dúvida. Se esses planetas responderão à famosa pergunta se “Estamos sós no Universo?” é algo difícil de saber a essa altura do campeonato. Mas meu intuito aqui é outro. É mostrar-vos a controvérsia que existe acerca da existência ou não de vida fora deste pequeno planeta do Sistema Solar.

Desde que Copérnico revolucionou a astronomia ao tirar a Terra do centro do Universo e colocá-lo como somente “mais um” planeta rochoso, a discussão acerca da existência de vida alienígena permeia o imaginário humano. Com a evolução dos instrumentos de investigação do espaço, descobrimos que não só a Terra não era o centro do Universo, como ainda havia zilhões de planetas orbitando um sem-número de estrelas espalhadas pelo Cosmos. Tal constatação conduziu a uma hipótese estatisticamente muito sedutora: se há tantos planetas girando ao redor de infinitas estrelas, não é possível que não haja um outro semelhante à Terra, onde a vida tenha conseguido se desenvolver e alcançar um patamar de evolução parecido com o que nós, humanos, percorremos. É a chamada “Teoria da Mediocridade”, favorita, entre outros, de Carl Sagan.

No entanto, se a Teoria da Mediocridade estiver certa, e de fato a vida inteligente for assim tão comum no Universo, cabe uma pergunta: se os alienígenas desenvolvidos são tantos assim, por que não conseguimos vê-los ou contactá-los? Esse é, em resumo, o “Paradoxo de Fermi”.

No rastro do Paradoxo de Fermi, os cosmo-céticos de plantão desenvolveram outra hipótese, para opor-se à primeira: a teoria da “Terra Única” ou da “Terra Rara”. Valendo-se do mesmo instrumento – a estatística – muitos cientistas são capazes de jurar que os acontecimentos astronômicos e biológicos que transformaram a Terra de um bloco quente de lava e enxofre em um planeta no qual a vida brota em quase todos os cantos são de tal maneira improváveis que não é esdrúxulo pensar que eles podem não ter se repetido em nenhum outro lugar.

Imagine, por exemplo, o nosso Sol. Considere, agora, que existam 5 bilhões de estrelas em nossa galáxia que estejam mais ou menos na mesma órbita dele. Imagine, então, que apenas 10% delas é rica em metais. Logo, ficaríamos com 500 milhões de estrelas. No entanto, considere que, desses 500 milhões, apenas 10% tem um tamanho parecido com o nosso Sol. Isso nos deixaria com apenas 50 milhões de estrelas. Agora, digamos que, dessas 50 milhões de estrelas, apenas 5% possuem um planeta rochoso numa zona habitável. Nosso universo de probabilidade seria reduzido a apenas 2,5 milhões.

Pra deixar a coisa ainda mais pesada, imagine agora que somente 0,5% desses 2,5 milhões possui oceanos ou água doce. De repente, ficamos com somente 12.500 possibilidades. Pra piorar, digamos que, dentre estes sobreviventes, apenas 1% reunissem condições para o surgimento da vida unicelular. Restariam somente 125 planetas.

Pra terminar, considere que, nesses planetas onde a vida unicelular se desenvolveu, em apenas 1% ela evoluiu até chegar à vida inteligente. Das 5 bilhões de possibilidades inicialmente existentes, subitamente estaríamos reduzidos a apenas 1,25.

Pra piorar, outro problema de ordem prática surge no horizonte: ainda que existam planetas nos quais a vida tenha se desenvolvido até atingir o nível da inteligência humana, eles teriam de estar suficientemente próximos para que pudéssemos encontrá-los antes de o Sol se extinguir, daqui a mais ou menos 5 bilhões de anos. Ou seja: pode até ser que efetivamente existam civilizações alienígenas no espaço sideral, mas pode simplesmente não haver tempo suficiente para que as encontremos.

A verdade, portanto, é que nós continuaremos a buscar respostas olhando para o céu. E, por muito tempo, não encontraremos nada além de dúvidas.

O mistério prossegue…

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3 respostas para “Estamos sós no Universo?”, ou A hipótese da “Terra Única”

  1. Mourão disse:

    Meu caro se a tal de vida inteligente tiver, em outros planetas, uma forma totalmente diferente da nossa e não precisar dos nossas mesmos recursos de sobrevivência ou se nem sequer tiver forma?

    • arthurmaximus disse:

      Excelente pergunta, Comandante. Sobre a qual atesto a minha mais humilde e completa ignorância. Parte-se do princípio de que, se vida houver, ela necessariamente terá de obedecer às mesmas regras da nossa. Todavia, como o senhor bem apontou, isso pode não ser valido universalmente. Literalmente, só Deus sabe. Um abraço.

  2. Pingback: Existe vida em outros planetas? ou O dever de honestidade intelectual | Dando a cara a tapa

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