A Semana Mundial do Aleitamento Materno

O Brasil anda tão surrealista que as crises política e econômica acabam por monopolizar a atenção dos posts aqui no Blog. Como esta semana nos brindou com mais do mesmo (o que, registre-se, está longe de ser boa notícia), nesta semana vamos retomar uma das seções mais esquecidas aqui do Blog: as Variedades. E a temática não poderia ser mais feliz: o aleitamento materno.

Quem está fora do Planeta Bebê sequer ouviu falar, mas agosto começou com a Semana Mundial do Aleitamento Materno. Promovida pela ONU e pela OMS, a Semana Mundial do Aleitamento Materno pretende encorajar e fomentar a prática da amamentação por todo o globo, principalmente a partir da difusão de uma arma simples, mas muito poderosa: a informação.

Pra começo de conversa, o aleitamento materno deve ser encorajado por uma constatação óbvia: nós fomos feitos para nos alimentarmos dele. Quando o sujeito (ou a sujeita) troca o peito por uma mamadeira cheia de leite artificial, está jogando fora todo o trabalho que a Natureza teve em 6 milhões de anos para fazer com que a humanidade chegasse onde chegou.

E por falar em leite artificial, é dele que vem a maior parte das más notícias. Apesar de a maioria das pessoas estar familiarizada com o conceito embutido na palavra “artificial”, o fato é que quase ninguém fora do universo materno sabe que aquilo não é leite. Na verdade, o que há ali é a chamada “fórmula”, um alimento processado desenhado para replicar algumas das características do leite materno. Parece piada, mas pra toda uma geração que cresceu à base de “leite Ninho” ou assemelhados, é um choque descobrir que quase ninguém nascido nos anos 70 ou 80 soube na infância o que era leite de verdade.

Pra piorar, a fórmula – como de resto quase todos os outros alimentos produzidos à base de leite – é concebida a partir de proteínas presentes no leite da vaca. Tudo bem que os hominídeos se acostumaram a tomar leite bovino há uns 10 mil anos, mas tomar leite de vaca faz tanto sentido para um ser humano quanto tomar leite de girafa. Da mesma forma que você não toma leite de rato, tampouco deveria pensar em se alimentar do leite da vaca.

Mas a desgraça não pára por aí. O leite de vaca é pobre em ferro. Crianças alimentadas à base dele têm ou terão em algum momento da vida anemia. Pior. O leite de vaca é um dos alimentos mais alergênicos de que se tem notícia. Não por acaso, 11 em cada 10 crianças de hoje em dia desenvolvem intolerância à lactose. Quer mais?

Pois tem. Otites, rinites, sinusites e toda uma família inteira de “ites” estão cientificamente comprovadas como efeito do consumo de leite de vaca desde a mais tenra idade. Fora isso, há estudos que associam ao leite bovino outras patologias, como osteoporose, autismo e vários tipos de câncer.

Se é assim, por que é tão difícil amamentar?

Em primeiro lugar, por razões mercadológicas. Não são muitas as mães que trabalham ao abrigo da CLT ou de algum regime jurídico público. A maioria vive no subemprego ou menos que isso. Logo, passar seis meses longe do trabalho “apenas” amamentando é algo completamente fora de cogitação. Aliás, é sempre bom recordar que, embora a OMS recomende aleitamento materno exclusivo nos primeiros seis meses de vida, apenas as funcionárias públicas e as sortudas empregadas de algumas poucas empresas privadas dispõem desse período de licença maternidade. A maior parte das mulheres tem que se virar em quatro meses (e que se dê por satisfeita, dirão os patrões).

Em segundo lugar, há muita desinformação nessa área. Diz-se, por exemplo, que “nem toda mulher consegue amamentar”, o que é um completo disparate. Salvo mulheres mastectomizadas ou que possuem alguma disfunção hormonal raríssima (menos de 1% das mulheres), toda mulher é capaz de amamentar.

Há até mesmo quem invoque a diferença no sono do bebê como prova da “superioridade” da fórmula em relação ao leite materno. Como o bebê alimentado por fórmula geralmente dorme mais, alega-se que esse efeito seria porque o leite da mãe não seria capaz de “sustentar” a criança por muito tempo. Daí o sono “melhor” do bebê alimentado artificialmente.

Embromação reles. Na verdade, o bebê que toma fórmula dorme mais porque as moléculas do leite de vaca são muito maiores do que as do leite materno. Por isso, o leite de vaca é digerido de forma muito mais lenta pelo organismo da criança, sobrecarregando seus rins. Como você se sente após comer um pratão de feijoada? Pois é. É exatamente assim que se sente um bebê alimentado com leite de vaca ou artificial. Com um detalhe: enquanto o leite de vaca é inerte, o leite da mãe contém células vivas, que transferem para o bebê a imunidade a agentes infecciosos da mãe.

Por fim, há, claro, o velho e bom vil metal. Mãe que alimenta com peito não dá dinheiro a ninguém. Ao contrário. Só economiza pra ela. Mãe que alimenta com fórmula movimenta uma cadeia econômica tendencialmente infinita: mamadeiras, fórmulas, bicos, chupetas e respectivos acessórios (instrumentos de esterilização, por exemplo). Não por acaso, há um pesado jogo de marketing martelando diariamente a mensagem segundo a qual dar leite artificial ou de vaca “é bom para o seu filho”. Se toda mãe – ou, pelo menos, a imensa maioria delas – amamentasse seus filhos, toda a grana jogada nessa indústria iria pelo ralo.

Na verdade, a alimentação através do leite materno foi uma das maiores invenções com a qual a Evolução presenteou o ser humano. É fácil, é barata e é muito mais saudável. Por isso mesmo, informe-se, discuta e, sobretudo, não se conforme. Não deixe que esse ato tão importante de amor seja jogado fora pela preguiça, pela ignorância ou pela ganância de alguns.

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