O capitalismo caminha para um paradoxo?

Todo mundo está careca de saber que o Brasil está endividado até às cuecas. O déficit público já alcançou níveis obscenos e, pelo andar da carruagem, é possível que a divulgação do aumento da dívida pública seja proibida a menores de 18 anos. O resultado dessa combinação explosiva todo mundo sabe: juros lunares, extorquindo o nosso pobre orçamento de cada dia.

Já se escreveu um bocado aqui sobre esses problemas e seria um tanto maçante voltar a fazê-lo sem correr o risco de falar mais do mesmo. Para sair da mesmice, talvez seja interessante analisar a coisa em escala global. Será que o capitalismo está caminhando para um paradoxo?

Todo mundo entende mais ou menos como funciona o capitalismo (ou o modo de produção capitalista, nome científico do bicho). A cada trabalho ou mercadoria em particular corresponde um determinado valor, expresso em capital (moeda), pelo qual se estabelece uma relação de troca. Trabalhos e mercadorias mais valorizados rendem mais, enquanto ofícios e produtos menos valorizados rendem menos. Em regra, o trabalho ou de uma mercadoria não possui um valor intrínseco. Ele normalmente é encontrado a partir da velha e boa lei da oferta e da procura: quanto mais há, menor será o preço; quanto mais gente procurá-lo, maior será o valor cobrado.

Obviamente, o objetivo desse sistema é acumular o máximo de capital possível. Com mais capital, é possível investir mais. E, investindo mais, mais fácil será gerar mais capital, seja através da apropriação de lucros em atividades produtivas, seja através de juros nas diversas aplicações financeiras existentes.

E daí?

Daí que, desde mais ou menos o começo do século XX, o sistema financeiro em geral começou a arquitetar-se em torno das dívidas públicas. O Estado arrecadava por um lado e emitia moeda (dívida) do outro, a fim de facilitar a circulação de riqueza. Como ninguém empresta sem esperar retorno, eis que aparecem os juros da dívida pública para remunerar os credores do Estado.

Ocorre, no entanto, que a acumulação de capital – fim último do sistema capitalista – tem gerado uma quantidade verdadeiramente boçal de milionários. Até aí, nada de demais. É até esperado. O problema é que é cada vez maior o número de pessoas que possui uma tal quantidade de dinheiro que simplesmente não precisa mais trabalhar. Não precisa sequer investir em alguma atividade produtiva. Basta emprestar ao Governo e ganhar a vida a partir dos juros que ele paga.

O que em princípio pode parecer uma saudável consequência de um sistema de produção que se funda na meritocracia, no fundo pode acabar implicando severa contradição no capitalismo. Se o modo de produção capitalista assenta-se na força do trabalho para gerar capital e, por conseguinte, riqueza, a diminuição da massa de pessoas que precisam trabalhar para ganhar a vida faz com que, no geral, a quantidade de riqueza real caia.

Uma coisa é, por exemplo, a pessoa pegar o dinheiro que tem e investir na construção de um prédio. Depois de investir o capital e tirar seu justo lucro da operação, no final restarão apartamentos que representam riqueza real. O valor do imóvel pode subir ou cair, mas o fato é que, faça chuva ou faça sol, ele estará ali, como transformação material do capital em riqueza.

Outra coisa, completamente diferente, é emprestar seu capital ao Governo, ganhar rios de dinheiro com isso e não produzir um bem material sequer que se reflita na vida real. É o que acontece com 99% dos rentistas mundo afora, que ganham seu dinheiro não somente sem precisar empurrar um prego numa barra de sabão como, ainda, sem fazer com que seu dinheiro não se transforme em nada de útil (além de mais dinheiro, é claro).

Olhando-se a fundo, não é de todo estranho constatar que a explosão generalizada da dívida pública – não só no Brasil, mas nos Estados Unidos e também na Europa – reflete mais ou menos essa perversão do sistema. Como há cada vez mais gente com muito dinheiro pra investir e sem precisar trabalhar, maior a necessidade de aumento da dívida pública para fazer frente a esse excesso de capital. E, com o aumento da dívida pública, normalmente haverá o aumento dos juros pagos, retroalimentando a espiral que gerou os milionários rentistas.

Até agora, a coisa tem funcionado. Mesmo com crises ali e acolá, o sistema continua operando como se tudo corresse às mil maravilhas. Mas a pergunta que não quer calar é a seguinte: quando houver mais gente que vive de renda do que gente que precise trabalhar, como o Estado financiará a sua dívida pública? Eis o paradoxo do capitalismo.

E, ao contrário do que muita gente prega, ele parece mais perigosamente próximo do que nunca.

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