Walking Dead, ou A República dos Zumbis

Parece coisa de ficção.

Ao melhor estilo Maxwell Smart, Joesley Batista, o bilionário dono da JBS, comprou um gravador de 5ª categoria e saiu gravando na cara dura quem aparecia pela frente. Fustigado por cinco operações policiais, Joesley conseguiu gravações comprometedoras de dois dos maiores expoentes da política nacional: Aécio Neves e Michel Temer. Um quase foi eleito em 2014, e o segundo assumiu no rastro do impeachment de Dilma Rousseff. De posse do áudio, barganhou um invejável acordo com a Procuradoria-Geral da República e, de Nova Iorque, assistiu ao país pegar fogo com a divulgação de sua delação premiada.

“E agora?”, deve estar se perguntando você.

Agora é que são elas.

Do ponto de vista jurídico, muita água ainda há de rolar por debaixo dessa ponte. Em menos de uma semana, pelo menos uma dezena de laudos já foi produzida acerca dos áudios de Joesley Batista. Não se sabe ao certo se houve ou não edição das gravações, muito menos que tipo de edição teria sido feita (inserção ou supressão de trechos). O presidente contesta com veemência a interpretação do principal trecho da gravação, segundo a qual o dono da JBS estaria comprando o silêncio de Eduardo Cunha. Até que se dê início propriamente ao processo judicial, é impossível antever o seu desfecho.

Do ponto de vista conjuntural, no entanto, o jogo está jogado. Politicamente, Michel Temer está morto. Ainda que consiga provar sua inocência em um processo judicial, as circunstâncias do encontro (fora da agenda, de madrugada, sem registro de visita), com um empresário investigado pela PF, deixam o presidente praticamente sem saída. Se a delação da Odebrecht já o deixara cambaleando, a da JBS funcionou-lhe como pá de cal. Resta agora saber o que fazer com o cadáver.

Fazendo jus à sua fama, os tucanos subiram no muro. Principal pilar de sustentação do governo “semiparlamentarista” de Temer, o PSDB fez que sairia, não saiu, mas vai acabar saindo. Com seu presidente afastado do mandato, os tucanos sabem que seu destino pode ser definitivamente selado caso afundem junto com o atual governo.

A hesitação aparente esconde, no fundo, uma nada discreta tentativa de não melindrar o PMDB, seja para conseguir apoio a um nome seu numa eventual eleição indireta (Tasso Jereissati?), seja para não esfacelar de vez a base que apóia as reformas econômicas. Se abandonarem Michel Temer ao relento, será difícil não deixar sequelas na aliança congressual que dá suporte ao governo. Daí a articulação nos bastidores para que o TSE casse a chapa de Dilma, levando Temer de roldão.

Falta, contudo, combinar com os russos. O julgamento do TSE está marcado para 6 de junho. No calendário gregoriano, pode parecer muito perto. Mas, no calendário político atual, o dia D se encontra no outro milênio. O estado de convulsão social com a divulgação da delação é tamanho que, enquanto escrevo este post, dois ministérios foram incendiados em Brasília e o Exército foi convocado para garantia da lei e da ordem. A idéia de esperar o “melhor momento” para tirar Temer pode não resistir ao ronco das ruas, ainda mais quando existe um grito tão poderoso como o “Diretas Já!” ecoando Brasil afora.

Nos bastidores, as candidaturas já começam a se insinuar. Dando de barato que o presidente não se segura por muito tempo no cargo, partidos e potenciais ocupantes do cargo já começam a se movimentar. Como desgraça pouca é bobagem, há rumores de que até o presidente da Câmara poderia concorrer no pleito indireto. Citado na delação da Odebrecht, Rodrigo Maia pode até ser inocentado no futuro, mas sua eventual eleição representaria um tapa na cara da população, que presta apoio maciço à Lava-Jato. As ruas, que tinham andado relativamente calmas, poderiam explodir novamente, como ocorreu em 2013.

Não se sabe como será o dia de amanhã, muito menos como estará o Brasil daqui a duas semanas. O que se pode afirmar com segurança é que o país não suportará por muito tempo ser governado por zumbis políticos. Ou a classe política encontra meios para superar rapidamente esse impasse, ou o Brasil vai se aproximar perigosamente do despenhadeiro.

E ninguém sabe aonde o despenhadeiro irá nos levar…

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