O aluno sem futuro

Escola é um problema. Escola no Brasil, então, é quase uma tortura. São poucas as pessoas que passam ilesas pelo massacrante sistema de ensino organizado nos educandários, aqui e alhures. Não à toa, a melhor metáfora já feita até hoje às escolas foi o moedor de carne do álbum The Wall, do Pink Floyd (Roger Waters sabia o que estava dizendo).

Certa feita, um aluno brilhante foi colocado numa das mais requintadas máquinas de moer carne disponíveis no mercado. O impacto de semelhante reunião é equivalente ao do encontro da matéria com a anti-matéria: uma liberação explosiva de energia. Nesse caso, na forma de fricções entre o aluno e sua mente irrequieta contra o sistema disciplinar opressivo da escola. Depois de vários atritos, suspensões, reclamações e avisos, a coordenação da escola resolve tomar uma medida drástica: mudar o aluno de sala. No meio do semestre, esse tipo de medida é sempre entendida como a antessala da expulsão; na próxima, o sujeito ganha o meio-fio.

Um mês depois da mudança, o aluno, acabrunhado, esconde-se por trás da mochila aposta por cima da carteira escolar. Seu intuito é óbvio: passar despercebido. Afinal, o que a escola pretende é a padronização. Quando um sujeito sai do script, para cima ou para baixo, o sistema faz de tudo para colocá-lo entro do esquema, nem que seja a marretadas. O problema é que, depois que você foi “marcado”, não há força no mundo que lhe faça passar incógnito. Qualquer mijada fora do penico será tida como afronta pessoal. E o risco da coisa desandar de vez é grande.

Depois de um mês em silêncio, um dia o cara chega atrasado à escola. A culpa nem era dele, mas da mãe, que dormira mais do que o previsto. Não houve choro nem vela. Ao invés de esperar a passagem da primeira aula para ingressar no começo da segunda, o cidadão foi “convidado” a ir à sala do coordenador.

“Sente-se”, disse em tom mandamental o coordenador. “Você não está dando mais certo nesta escola. Se eu fosse você, ia buscar outro lugar para estudar, porque aqui você não tem futuro nenhum”.

Impassível, o aluno nada disse. Em silêncio estava, em silêncio ficou. Guardou para si a ameaça e não tratou dela com mais ninguém.

Dois anos se passam. Contrariando a “sugestão” do coordenador, o aluno permanece na escola. Também contrariando as expectativas, o sujeito passa no vestibular de primeira, para o curso mais concorrido da universidade federal do seu lugar.

No dia seguinte à divulgação da lista, o aluno volta à escola. E vai ter com o coordenador. Ao abrir a porta da sala, o seu antigo carrasco se levanta da poltrona. Braços abertos, um sorriso radiante nos lábios, exclama em direção ao aluno:

“Eu sabia que você ia passar! Eu sempre acreditei em você!”

E o aluno, sorrindo, responde:

“Nunca desconfiei…”

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