Reflexões sobre a vida e a morte – Parte II, ou A beleza da finitude da existência

Diz o ditado que as únicas coisas certas na vida são a morte e os impostos. Embora haja quem consiga escapar destes últimos, ninguém consegue driblar a indesejada das gentes: cedo ou tarde, você terá um encontro com ela. E esse será um encontro do qual você jamais vai retornar.

Em que pese a certeza da finitude da vida, ninguém pára pra pensar a respeito da morte. Talvez por superstição, talvez por autoengano, mas o fato é que pouca gente se dá o trabalho de refletir sobre o dia em que irá prestar contas da sua existência. No limite, a mente humana opera com a perspectiva da eternidade. Para a imensa maioria da população, a morte sempre é um evento muito distante, que acontecerá em algum ponto imaginário de um futuro longínquo, com o qual não é necessário se preocupar agora.

Todavia, quando alguém é subitamente trazido para essa realidade da qual todos tentamos fugir – seja pelo diagnóstico de uma doença grave, seja pelo falecimento de alguém próximo -, o terror volta a dar as caras. “Ninguém vive para sempre. Logo, eu também não vou viver para sempre”, é a conclusão imediata a que chega qualquer um submetido a semelhante impacto.

Do ponto de vista estritamente lógico, o medo da morte não faz lá muito sentido. Afinal, a maior parte da existência deu-se sem que você estivesse por aqui. Ou, por outro lado, na maior parte do tempo você já esteve morto (ou não-vivo, como queiram). Contando para trás, são 13,5 bilhões de anos nos quais sua existência representou efetivamente nada para o Universo. Não que hoje represente muita coisa (pelo menos para quem não é religioso), mas pelo menos o sujeito poderá argumentar que, neste exato momento, está aqui e faz parte do conjunto de forças e matérias que regem o Cosmos.

Entretanto, uma vez que passamos a existir e nos damos conta da nossa própria existência, a perspectiva de voltar ao estado anterior, isto é, o de não existir, subitamente devolve nossas mentes ao estado de negação original. Ninguém consegue suportar a idéia de morrer, ou, mais especificamente, de deixar de viver. Mesmo para quem acredita na existência de uma entidade divina superior ou em alguma forma de continuar vivendo como espírito em outro lugar, a perspectiva de abandonar este plano da existência é cruel e desoladora. E essa visão é agravada por uma constatação ainda mais angustiante: aconteça o que acontecer, o Universo em geral e o mundo em particular vão continuar existindo depois que você se for.

O problema dessa visão aflitiva da morte é que ela conduz a conclusões precipitadas, ou, no mínimo, parciais. É verdade que, na maior parte do tempo, nós não existimos. O espaço temporal compreendido entre antes do nosso nascimento e depois da nossa morte excede em muitas vezes o curto período no qual damos as caras por estas bandas. Mas, por outro lado, é justamente essa finitude que dá beleza à vida.

Na verdade, quando nos damos conta de que um dia partiremos dessa pra uma melhor, podemos nos voltar para as coisas que realmente importam nas nossas vidas. É a perspectiva de que o amanhã pode não chegar que confere o necessário sentido de urgência à nossa parca existência. Se o sujeito fosse viver para sempre, por qual razão levantaria de manhã cedo para fazer qualquer coisa?  Se o dia seguinte fosse uma certeza imanente, não haveria qualquer motivo para fazer nada. Tudo poderia ficar para depois.

Uma vez que a eternidade é uma quimera, a brevidade da vida conduz à ação da nossa parte. A mera dúvida impõe que, seja lá o que for que queiramos fazer, devemos fazer hoje, porque o amanhã pode não chegar. Cada mínimo momento pode ser o nosso último. Por isso mesmo, como disse Homero na Ilíada, tudo é mais belo porque estamos condenados.

A vida é curta. Aproveite-a da melhor forma possível. Você só tem uma chance.

#FicaaDica

Anúncios
Esse post foi publicado em Variedades e marcado , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s