Recordar é viver: “O dólar e os paradoxos do capital”

Há uma piada recorrente no mundo financeiro segundo a qual o prestígio de um economista varia na razão inversa da inteligibilidade de suas declarações. De fato, a Economia é uma das coisas mais mal explicadas do Universo. Isso é no mínimo curioso, dado que as correlações de força no mundo econômico explicam muito do que acontece no mundo: desde o preço do pão no supermercado até o estouro do limite do seu cheque especial.

Pensando nisso, o Blog sempre teve por propósito explicar, entre outras coisas, o meandro desse universo confuso. E, nesta que é a seção mais nostálgica deste espaço, vamos recordar um dos primeiros posts sobre o assunto, cujas revelações devem deixar de boca aberta boa parte dos 63 leitores deste espaço.

 

O dólar e os paradoxos do capital

Publicado originalmente em 1º.4.11

 

Uma das coisas mais curiosas em relação à economia é o conceito e o valor do dinheiro.

Marx escreveu nove volumes (Das Kapital) pra tentar explicar isso. Em suma sumíssima, Marx defende a idéia de que o capital não passa de uma ilusão.

Na sociedade primitiva, não havia dinheiro. O valor das coisas era sempre tido em relação a outra. Intuitivamente, o ser humano atribuía a cada coisa particular um “preço”, que sempre estava relacionado a outra coisa. Por exemplo: 10 ovos compram um quilo de carne. Ou 1 quilo de feijão vale 2 kg de arroz. Esse é basicamente o princípio do sistema de trocas conhecido como escambo.

Obviamente, o “preço” das coisas em relação às outras dependia de fatores como: abundância ou escassez do produto; trabalho para obtê-lo; dificuldade de armazená-lo, etc.

O problema é que, evidentemente, isso não era muito funcional. Se você criava galinhas, tinha que saber quanto uma galinha valia em termos de quilos de carne, em termos de feijão, e por aí vai.

Com o tempo, as pessoas passaram a utilizar coisas até então raras como um instrumento, digamos, universal para as trocas. Uma medida única que funcionasse para todos. Uma das primeiras coisas utilizadas foi o sal. Ele era raro na época, e foi usado por muito tempo para pagar os soldados romanos (daí a origem da palavra salário, do latim salarium).

Mas, como o sal podia ser usado na comida, preferiram trocar por outras coisas ainda mais raras, e que serviam somente como ornamento. E aí a escolha natural recaiu sobre o ouro, a prata e o bronze.

Ouro e prata, principalmente, passaram a ser a referência das moedas e das transações comerciais no mundo. Até que alguém teve uma idéia brilhante: por que o governo não guarda todo esse metal em um local seguro e emite papéis que representem esse valor, garantidos (lastreados, em economês) pelo metal guardado?

E assim surgiu o papel-moeda.

O sistema adotado pela Inglaterra – e que vigorou até o final da II Guerra Mundial – era o padrão-ouro. A moeda de um país valorizava-se ou desvalorizava-se segundo a quantidade de ouro que detinha em suas reservas.

Com o fim da II Guerra, a derrocada da Inglaterra e a ascensão dos Estados Unidos como potência econômica, resolveu-se adotar o padrão dólar-ouro. Todas as moedas do mundo teriam sua base de valor lastreada em dólar, que, por sua vez, estaria lastreado em ouro. Por exemplo: 1000 cruzeiros valeriam 100 dólares, que por sua vez valeriam 28 gramas de ouro. Dessa forma, em última análise todas as moedas tinham seu valor correspondente baseado em ouro.

Numa situação hipotética, se no limite um sujeito com grana quisesse trocar todo seu patrimônio em papel-moeda por um ativo real(ouro), poderia fazê-lo, pois os Estados Unidos e os demais países garantiriam esse sistema. O ouro de todo esse sistema ficava guardado – e ainda fica – no famoso Fort Knox, uma caixa-forte com bilhões de dólares em ouro no meio de Manhattan.

A vaca começou a tomar o caminho do brejo quando os Estados Unidos meteram os pés nas selvas vietnamitas. Com um déficit fiscal cada vez maior, maior também era a necessidade de se emitir moeda (dólar) para pagar os débitos do governo americano.

Como o valor do dólar era fixo em relação ao ouro, muita gente passou a se questionar se o governo americano teria ouro correspondente em suas reservas para justificar uma emissão tão exagerada de moeda.

Não tinha. Nixon sabia disso. Por isso, diante de um ataque especulativo contra o dólar, convocou uma cadeia nacional de TV e disse mais ou menos o seguinte: “Danem-se os especuladores e o mundo. A partir de agora, quem tem dólar tem só um papel verde nas mãos. Não pode mais trocá-lo por ouro”.

O efeito foi imediato: o dólar se desvalorizou, mas a recessão causada pelo aumento da inflação (decorrente da desvalorização da moeda) foi compensada pelo aumento das exportações. Com o dólar mais barato, ficava mais fácil vender produtos americanos ao exterior.

Com uma só canetada, Nixon derrubou todo o sistema arquitetado por Lord Keynes em Bretton Woods. Para os americanos, a coisa só melhorou. O dólar já era, à época, a coisa mais líqüida do universo. Isso significa que, em qualquer lugar do mundo, sempre você achará alguém disposto a aceitar vender alguma mercadoria recebendo dólar em troca (tente fazer a mesma coisa com o Real e você vai entender do que estou falando).

Sem alternativas, as outras nações não tiveram outra escolha senão continuar a comprar dólar como moeda de reserva. No caso do Brasil, por exemplo, o valor das nossa moeda está diretamente vinculado a, entre outras coisas, a quantidade de dólar que temos em caixa (as famosas reservas internacionais).

O problema é que o dólar, em si mesmo, não pode ser trocado por nada. Não tem nenhum valor intrínseco. É, fundamentalmente, uma moeda fiduciária. Ele só vale porque o governo americano diz que vale e o mundo todo, acreditando nisso, continua comprando dólar.

Paradoxalmente, foi o mais conservador dos presidentes americanos (Nixon) que comprovou a teoria marxista de que o valor do capital é uma ilusão.

O dia em que acordarmos dela, o mundo tremerá.

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Uma resposta para Recordar é viver: “O dólar e os paradoxos do capital”

  1. Angelo disse:

    Será que a CHINA, num futuro mais ou menos próximo, fará com que o mundo acorde desse sonho ilusório? Ou será o conjunto dos BRICS?

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