Recordar é viver – Especial urgente: “A crise turca”

Com o golpe de hoje na Turquia, excepcionalmente o Recordar é viver vai ter dois posts hoje, pra ajudar os seguidores deste espaço a pelo menos compreender o que se passa na fronteira entre o Oriente e o Ocidente.

 

A crise turca

Publicado originalmente em 12.6.13

 

Quem acompanha o noticiário, assiste, dia sim, o outro também, o pau comendo entre manifestantes e polícia nas praças da Turquia. Sem saber direito o que se passa, boa parte das pessoas se pergunta se isso representa ou não uma “Primavera Turca”. Mas pouca gente se questiona acerca de algo fundamental: como é que, de algo tão banal como a construção de um shopping, evolui-se para uma situação de quase caos nas ruas?

Bom, a Turquia não é para principiantes. Situada estrategicamente na confluência de três grandes continentes (Ásia, Europa e África), a Turquia sempre foi um bicho meio estranho de se compreender. Com bigodes de foca, nariz de tamanduá e orelhas de camelo, a Turquia é um país majoritariamente islâmico, mas aferrado como ninguém à separação entre religião e estado. Mesmo estando mais próximo do Oriente do que do Ocidente, é membro da Otan desde 1952. Numa região rodeada por ditaduras de toda ordem, tem uma democracia razoavelmente bem estabelecida. Entender a Turquia, portanto, impõe a compreensão da convivência constante entre contradições aparentemente insolúveis.

Como todo mundo já viu, a atual crise começou quando o governo de Recep Erdogan resolveu derrubar parte arborizada de uma praça para nela construir um monumento ao consumo. Meio que do nada, as manifestações contra a derrubada das árvores acabaram se transformando em um movimento contra o próprio regime eleito.

A questão, como você já deve ter percebido, é que movimentos assim não brotam do nada. Quer dizer: o estopim pode até ser um fato banal, mas nenhum movimento de contestação aos poderes eleitos adquire tal proporção se não deitar fundas raízes no sentimento coletivo da população. E, no caso da Turquia, o buraco é bem mais embaixo.

Embora o laicismo seja um valor fundamental para a sociedade turca, boa parte dos partidos eleitos congrega membros da comunidade islâmica. O próprio Erdogan é um fervoroso devoto do Corão. De certa forma, é quase natural que a agenda desses partidos passe pela imposição de valores caros à fé islâmica, como a vedação a bebidas alcoólicas e a restrição “obscenidades”.

Foi justamente o que aconteceu com Erdogan. Só nos últimos tempos, ele restringiu a venda de bebidas alcoólicas nas imediações de estádios e escolas, e proibiu o beijo público entre pessoas. Isso explica um pouco o saco cheio da população, mas seria insuficiente para insuflar as massas a ir às ruas.

E aqui vem o outro lado da moeda. Embora a Turquia tenha ostentado níveis de crescimento invejáveis nos últimos tempos, a elevação do PIB está mais para o Milagre Econômico brasileiro dos anos 70 do que para o Milagre Japonês dos anos 60. É dizer: cresce-se, mas com alta concentração de renda. O grosso da população fica a ver navios, enquanto um pequeno punhado de novos-ricos faz a festa nas boates de Istambul.

Pra piorar, a agenda neoliberal de Erdogan desconhece qualquer nível de consciência ambiental. Se por um lado a construção de uma terceira ponte sobre o Estreito de Bósforo por significar algo como “Turquia Grande”, por outro a destruição de toda uma área florestal no leste do país para dar lugar a usinas de energia elétrica causa repulsa em boa parte da população. Isso explica, portanto, porque algo tão banal como a construção de um shopping pôde ser o estopim para tamanha revolta. Aquela é a última área arborizada disponível no centro de Istambul.

É equivocado, no entanto, chamar o que se passa de “Primavera Turca”. Apesar dos pesares, a Turquia é uma democracia, e não uma ditadura unipessoal – como na Líbia – ou familiar – como na Arábia Saudita – estabelecida há décadas. O que acontece na Turquia, portanto, está muito mais para uma versão turca do Occuppy Wall Street do que para a revolução egípcia que derrubou Mubarak.

Haverá consequências piores para Erdogan? É difícil dizer. Esporar a crise como ele tem feito nos últimos dias, com desafios aos manifestantes, certamente não ajuda. O pior que poderia acontecer, para ele, seria uma radicalização total da parte do Governo, inclusive com a adoção mais explícita de medidas pró-Islã. Nesse caso, é possível que o Exército – até agora no canto dele – sai das casernas para restabelecer a garantia da laicidade para o povo turco. Não custa lembrar que em 1997, há pouco mais de 15 anos, ocorreu exatamente isso.

Se é algo que vai se repetir ou não, só Erdogan pode dizer.

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2 respostas para Recordar é viver – Especial urgente: “A crise turca”

  1. Isabel Aguiar disse:

    E o segundo “post”?

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