A piada da imprensa brasileira

No meio de um cenário tão confuso, com escândalos se sucedendo numa velocidade assustadora, muita coisa acaba passando despercebida. E é nessas horas que aqueles que se omitem nos momentos mais decisivos acabam encontram a tão desejada oportunidade para fazer as “pazes com a história” e posar de bonzinhos para a posteridade. Não, não se trata aqui de nenhuma das personagens que tem assaltado (ops!) o noticiário nos últimos tempos. Trata-se, na verdade, de algo muito mais prosaico e sobre a qual pouca gente pára para refletir: a imprensa brasileira.

Que a imprensa brasileira é um desastre, ninguém mais discute. Ensimesmada dentro de uma programação endógena, na qual o entretenimento e a alienação desempenham papel preponderante, os veículos de comunicação no Brasil – com as honrosas exceções de praxe (destaque para a Revista Piauí) – desde há muito deixaram de praticar jornalismo em seu sentido estrito. Quando não assumem descaradamente um lado na guerra política travada entre os grupos de poder do país, limitam-se a reproduzir mecanicamente as notícias que são divulgadas pelos canais oficiais.

Veja-se, por exemplo, o caso da penúltima delação da Lava-Jato: a do ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado. Até as pedras da Praia de Iracema sabiam das inúmeras falcatruas cometidas pelo ex-senador cearense. Seus esquemas em vários órgãos do Estado eram conhecidos de toda a população e tratados abertamente em qualquer roda de bar. Quando Machado foi alçado à presidência de uma das maiores estatais do ramo de petróleo, todo mundo estava careca de saber a razão pela qual ele tinha sido nomeado.

E o que fez a imprensa cearense? Nada. Por longos 12 anos, toda a mídia local “fez-que-não-viu” o passado ficha-suja de Sérgio Machado e limitava-se a relatar suas ações como presidente da Transpetro. Quando se quis trazer um estaleiro para o Ceará, a única coisa que se discutiu foi se um dos concorrentes deveria ou não o erguer no Serviluz. A ninguém ocorreu investigar a razão pela qual se estava discutindo a localização do empreendimento antes mesmo de definido quem iria construir os navios.

Hoje, graças à Lava-Jato, sabe-se que a cada obra tocada pela Transpetro era acrescido um percentual destinado ao bolso de Machado e ao dos políticos que o apadrinharam. Como não existe cegueira seletiva, se a mídia cearense não quis enxergar a corrupção desenfreada do ex-presidente da estatal, fê-lo por opção, não por incapacidade.

Mesmo depois do escândalo, a postura inerte continuou a mesma. Uma vez que a cobertura de todos os escândalos do ex-presidente da Transpetro era liderada pela grande mídia, os principais periódicos nativos limitaram-se a reproduzir as notícias que vinham do Sul do país. O máximo que a imprensa cearense se permitiu produzir fora do script ditado pelos grandes jornais foi descrever os termos do encarceramento negociado com Machado. Numa manchete que choca pelo grau de autismo em relação a todo o escândalo, “O Povo” colocou no último domingo em letras garrafais “A vida após a delação”, descrevendo a prisão domiciliar ao estilo “Ilha de Caras” a que vai se submeter o ex-senador. Sobre as jogadas passadas de Sérgio Machado, nada; nem uma linha sequer.

Esse “privilégio”, registre-se, não é exclusivo da mídia cearense. A rigor, quase toda a imprensa nacional padece do mesmo mal. Há dezenas de larápios que passam o dia a distribuir entrevistas como se fossem alguma espécie de oráculo, quando todo jornalista conhece os rumores dos esquemas sórdidos através dos quais fizeram fama e fortuna. Ao invés de investigá-los e colocá-los contra a parede, boa parte da mídia tupiniquim prefere cortejar os maganos, para com isso não perder suas preciosas “fontes” jornalísticas. É o que ocorre, por exemplo, com José Sarney.

Embora ninguém duvide, não se sabe ao certo se as acusações formuladas por Sérgio Machado contra o ex-presidente são verdadeiras. Mesmo assim, todo mundo que viveu ou que estudou história conhece o desastre que foi sua presidência. Poucos políticos foram tão absurdamente incompetentes no desempenho do ofício presidencial quanto o todo-poderoso maranhense.

Convidado a participar do prestigiado programa “Roda Viva” no ano de 2005, Sarney foi entrevista por uma bancada de jornalistas do mais alto gabarito. Estavam lá, por exemplo, Ricardo Noblat, Paulo Markun e Eliane Cantanhêde. Pois esse time de jornalistas foi incapaz de colocar um político com o “currículo” de José Sarney nas cordas. Não lhe perguntaram sequer sobre a estratosférica hiperinflação que ele legou ao país. Pior. Assistiram passivamente ao ex-presidente falar ao final do programa, na cara dura, que “os nossos fundamentos macroeconômicos eram muito bons”.

Pode-se argumentar que o papel da imprensa é informar, não investigar. Mas a linha que separa uma coisa da outra é muito tênue, e não seria exagero dizer que defender uma atividade midiática sem investigação encerra uma visão muito redutora do que vem a ser  jornalismo.

Não custa recordar que o escândalo de Watergate foi levado a cabo por dois jornalistas do Washington Post. O escândalo de corrupção da Fifa veio à baila depois de anos de intenso trabalho investigativo de um insólito repórter escocês da BBC. E o acobertamento dos casos de pedofilia por padres da Igreja Católica nos Estados Unidos só foi descoberto após a galera do Spotlight jogar luzes sobre o problema. O contraste da atuação da imprensa estrangeira nesses grandes escândalos apenas acentua a desfaçatez da nossa, perdida no seu mundinho político de Brasília.

Ao invés de fingir-se de morta e colocar a cabeça debaixo da terra, bem que a mídia brasileira poderia começar a fazer o seu papel. Afinal, como dizia Millôr Fernandes, imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados.

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2 respostas para A piada da imprensa brasileira

  1. Andre disse:

    Muito bom o artigo meu amigo. Confesso que merecia um excelente, porém o escorregão imperdoável, típico de um zagueiro do Vasco, classificando a limitada e comprometida Eliana Cantanhêde, como jornalista do mais alto gabarito, teve influência direta no resultado.

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