Lula ministro, ou O ocaso do governo Dilma

Quem viveu a infância na década de 80 deve se lembrar.

Havia um jogo distribuído pela Grow, através do qual os participantes recebiam cartas designativas de coisas como carros, motos, aviões ou helicópteros. Em cada carta, havia a ficha técnica do modelo recebido. No bate-pronto da rodada, vencia o jogador cuja carta indicasse o maior valor da categoria escolhida (velocidade, HP, peso, etc.). Todavia, havia também uma carta especial, que prevalecia sobre todas as outras. A essa carta dava-se o nome do jogo: Super-Trunfo.

Para os privilegiados que vivenciaram aquela época, o Super-Trunfo tornou-se sinônimo de salvação quando não havia mais a quem recorrer. Numa só mão de cartas, o sujeito jogava a partida de sua vida, torcendo para que do outro lado não houvesse uma carta A1, a única capaz de bater o Super-Trunfo. Tal é a sensação de quem observa os últimos movimentos da presidente Dilma Rousseff nesse período de crise.

Na semana passada, Dilma era uma presidente de muito passado e pouco futuro. De lá pra cá, o ex-líder do governo no Senado, Delcídio Amaral, jogou tudo que tinha à mão e mais um pouco no ventilador; 3,5 milhões de pessoas foram às ruas pedir a sua cabeça; e um de seus assessores mais próximos, o ministro Aloízio Mercadante, foi flagrado numa conversa no mínimo imprópria com um assessor de Delcídio. Sem alternativas à mão, Dilma recorreu ao seu Super-Trunfo: o ex-presidente Lula.

Nomeado para a Casa Civil, Lula traz consigo a aura de “político mais popular da Terra” quando deixou o cargo, carisma e capacidade de comunicação inegáveis, assim como reconhecida habilidade no jogo político. Mas, além disso, traz também o ônus de estar sendo investigado por relações nada republicanas com empreiteiras e dúvidas ainda não esclarecidas sobre seu patrimônio. Tudo isso e mais o desgaste de ter indicado a própria Dilma Rousseff para sucedê-lo, quando todos hoje em dia – à direita e à esquerda – responsabilizam-na diretamente pelo estado de coisas que estamos vivendo.

No meio de tudo isso, a dúvida que fica é: Lula na Casa Civil é realmente a salvação para Dilma?

À primeira vista, pode parecer que sim. Afinal, a presidente já não ostentava condições de conduzir politicamente o país. Ajuste fiscal é coisa do passado. Reformas? Ninguém sabe, ninguém viu, e a única que ela se dispunha a patrocinar (a da Previdência) foi mandada para as calendas. O PMDB já lhe dera aviso prévio, enquanto Eduardo Cunha articula com seus asseclas a marcha do Impeachment.

Nesse panorama, a nomeação de Lula para a Casa Civil tenta resgatar um pouco da governabilidade perdida. Se não for possível aprovar reformas, as costuras de Lula pretendem ao menos conseguir o terço necessário para barrar a tramitação do impedimento na Câmara dos Deputados. Com alguma sorte, uma ampla reforma ministerial – inclusive com troca do comando do Banco Central – pode trazer alguma paz para o mercado, estressadíssimo com a possibilidade de retorno da “Nova Matriz Econômica”.

À segunda vista, a nomeação de Lula pode revelar-se um tiro n’água. Com meio mundo querendo ver Dilma pelas costas, é no mínimo duvidoso que Lula consiga arregimentar gente suficiente para reverter a maré contrária ao governo. Além das imensas dificuldades de virar o jogo no campo econômico – que hoje é o principal sintoma de envenenamento do humor popular -, Lula chega ao ministério “manco”, tendo de dividir seu tempo de microfone entre os problemas da gestão que assume e sua defesa nos processos judiciais em curso.

Além disso, Lula chega ao ministério marcado pelo signo da fuga. É bem possível que o ex-presidente tenha assumido a Casa Civil como última tentativa de salvar o legado petista, mas, para boa parte da população, fica a inquietante impressão de que sua nomeação visou a livrá-lo da jurisdição de Sérgio Moro. Nesse cenário, o Super-Trunfo da presidente pode acabar barrado pela única carta no baralho hoje capaz de batê-lo: a Operação Lava-Jato.

Mas o maior problema não reside na possibilidade de Lula salvar ou não o governo de sua pupila. Reside na constatação de que sua nomeação encerra de forma prematura o segundo mandato de Dilma Rousseff. Ela, que sempre resistiu a ceder poder a qualquer personagem que lhe fizesse sombra (Henrique Meirelles na Fazenda é só um dos exemplos), agora entregou todo o seu governo a uma figura capaz de eclipsar o mais eletrificado dos postes. Dispondo de carta branca para nomear e demitir quem bem quiser, Lula transforma sua pupila numa “ex-presidente em atividade”. Dilma pode até manter-se no cargo, mas sua estampa presidencial equivale hoje à da Rainha Elizabeth II, senão menos.

Há exatamente uma semana, o Blog profetizara que, em qualquer dos cenários futuros, Dilma não ocuparia a cadeira de presidente da República. Só não se imaginava que quem viria a derrubá-la seria seu tutor e maior padrinho: Luiz Inácio Lula da Silva.

Como diria Morpheus, fate, it seems, is not without a sense of irony.

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