Recordar é viver: “O imbróglio dos direitos de transmissão do Brasileirão”

Tendo em vista que os clubes brasileiros andam novamente às voltas com sua relação de amor e ódio com a Rede Globo, vale a pena recordar esse post de cinco anos atrás.

Apenas para provar que, no Brasil, o futuro adora repetir o passado.

E Cazuza vive…

O imbróglio dos direitos de transmissão do Brasileirão

Publicado originalmente em 27.4.11

Agora essa: depois de muitas idas e vindas, o Cade resolveu tirar o dele da reta e já insinua que a Globo pode mesmo ficar com os direitos de transmissão do Brasileirão a partir de 2012.

Pra explicar a quem perdeu a polêmica: a Globo desde sempre detém os direitos de transmissão dos jogos do campeonato brasileiro. Pagava um preço bem convidativo. Pra ela. Até outro dia, não havia concorrente à altura para de$afiá-la no leilão com os clubes.

Turbinada pela propaganda paga pela Universal, a Record tem agora bala na agulha o suficiente para minar, pouco a pouco, a hegemonia da Globo no cenário das televisões abertas. O primeiro e poderoso golpe foi tirar da Vênus Platinada os direitos de transmissão das Olimpíadas de 2012, em Londres. (Repare que a Globo simplesmente ignora o assunto; não há uma única nota de rodapé sobre o evento, que acontece no ano que vem.) A Record ainda tentou tirar a transmissão da Copa de 2014, mas não foi páreo para o prestígio que a Globo ainda tem junto à Fifa e aos políticos brasileiros.

Com o Brasileirão, em princípio, o bicho tinha pegado. O Cade havia decidido que era ilegal a cláusula contratual firmada com o Clube dos 13 que dava à Globo o direito de cobrir a oferta de qualquer outro concorrente. Tratava-se de um jogo de cartas marcadas: sabendo quanto o concorrente ofereceu, bastava à Globo oferecer R$ 1 a mais e levaria a transmissão.

Conversa vai, conversa vem, firmou-se um Termo de Ajustamento de Conduta. O Clube dos 13 se comprometeria a excluir a cláusula do contrato. Pra decidir quem seria a rede a transmitir os jogos, chegou-se – com a ajuda da Globo – num formato parecido com uma licitação pública: envelopes fechados, quem oferecesse a maior proposta levaria.

Com o tempo, a ficha caiu na Globo. Num modelo como esse, era impossível ter certeza de que ela venceria a licitação. Com os bolsos recheados, a Record faria uma oferta boçal qualquer. À Globo restaria apenas uma opção: oferecer no escuro uma proposta ainda mais boçal, arriscando-se a gastar muito mais do que imaginava. Perder ou desistir não era opção: boa parte da grade de programação da Globo depende dos jogos do campeonato brasileiro para levantar a audiência e “chamar” patrocinadores. Se perdesse, a Globo poderia arriscar o primeiro lugar no Ibope e sua própria sobrevivência.

Arquitetou-se, assim, uma pantomina. Depois de ter ajudado o Clube dos 13 a elaborar o edital de concorrência, retirou-se da disputa, sem maiores explicações. A Record, sentindo o cheiro de queimado, fez o mesmo. Sobrou só a Rede TV.

Sabendo quanto a Rede TV oferecera pelos direitos de transmissão, a Globo foi cooptar, um a um, os clubes de futebol. Ofereceu a cada um deles um acordo individual, em que ganhariam mais do que o oferecido no acordo RedeTV-Clube dos 13. Nessa tarefa, deve-se dizer que teve a colaboração amiga da Record, que caiu na armadilha de disputar o Brasileirão nos subterrâneos futebolísticos. Perdeu, assim, o argumento moral.

Resultado: ficaram a Rede TV e o Clube dos 13 sem mercadoria pra vender. Todos os clubes cederam às tentaçõe$ da Globo. A proibição de privilégio à Globo na disputa pelos direitos de transmissão foi mandada ao espaço. E o Cade, desrespeitado, agora faz cara de paisagem.

Certo estava De Gaulle: “O Brasil não é um país sério”.

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