Panorama atual II, ou E se Dilma não cair?

Faz exatamente 20 dias desde o último post deste espaço. Nele, analisou-se o panorama atual do cenário político brasileiro e a pergunta cada vez mais presente na boca do povo: Dilma vai cair? Hoje, passados 2/3 de um mês, faz-se necessário complementar a análise, formulando a pergunta ao inverso: e se Dilma não cair?

Até onde a vista alcança, não há qualquer base jurídica para o impeachment de Dilma Roussef. Isso já foi objeto de análise aqui pelo menos um par de vezes. Ainda assim, o fantasma de Fernando Collor insiste em vagar pelos corredores do Palácio do Planalto, assombrando sua atual inquilina. Pior que isso só mesmo a constatação de que há gente do próprio PT fazendo brincadeira do copo para invocar o espírito, como a “mente iluminada” que sugeriu convocar “as massas” a sair de verde e amarelo no 7 de setembro, numa reprise tão ridícula quanto assustadora da jornada que levou à deposição do “Caçador de Marajás”. Felizmente, alguém com um pouquinho mais de tino deu à idéia a destinação que merecia: o lixo.

Do ponto de vista político, a situação não melhorou nada de agosto pra cá. Pelo contrário. Até piorou um pouco. O Governo continua tão perdido como dantes, sem ter qualquer alternativa viável à mão para reagrupar a base e construir uma agenda mínima que lhe permita sair das cordas. Se isso não fosse o bastante, o afastamento de Michel Temer destruiu o pouco que restava daquilo que se convencionou chamar de “articulação política” com o Congresso. Entregue à própria sorte, Dilma agora está condenada ao varejo miúdo do paroquialismo congressual, sem que existam assessores capacitados o suficiente para auxiliá-la nessa tarefa.

Do ponto de vista econômico, tampouco se enxerga melhora no horizonte. A China entrou em crise e o mundo prende a respiração temendo um revival ainda mais apocalíptico do que a quebra do Lehman Brothers. O dólar, que já namorava há tempos a casa dos R$ 4,00, agora já noivou e promete casamento. Tudo isso e mais um orçamento de 2016 que prevê oficialmente um déficit de R$ 30 bilhões, levando muita gente boa do mercado a acreditar que o rombo não será menor do que o dobro disso.

Às voltas com tantos problemas, o Governo ainda se esmera em criar dificuldades para si mesmo. Tal qual uma barata tonta, a equipe de Dilma Roussef sai lançando idéias como balões a torto e à direita, para logo depois estourá-los sem se sentir obrigado a explicar as razões pelas quais desistiu de levá-las adiante. Assim, em menos de uma semana, a CPMF ia voltar e agora não vai mais; a CIDE ia aumentar e agora fica como está; agora, o Imposto de Renda vai subir e ganhar mais uma faixa, mas ninguém acredita que a proposta sobreviva às próximas 24 horas.

A sucessão de iniciativas desconexas entre si e sem o menor respaldo da classe política e empresarial indica que o Palácio do Planalto transformou-se numa grande sala de brainstorm, com uma imensa desvantagem: ao contrário das grandes empresas, as idéias estapafúrdias não são filtradas no final do processo, mas lançadas ao distinto público com pompa e circunstância. Daí a razão pela qual Dilma Roussef recolhe na população menos de 10% de aprovação popular. Resta saber, contudo, o seguinte: e se, mesmo com tudo isso, Dilma não cair?

Descartando-se, por óbvio, a hipótese de (bate na madeira!) morte do titular, há fundamentalmente três possibilidades de que Dilma Roussef venha a ser apeada do poder: 1) renúncia; 2) cassação da chapa via TSE; e 3) impeachment.

Considerando o histórico e o temperamento de Dilma Roussef, pode-se descartar desde já a primeira. Quanto à segunda, o processo judicial de cassação da chapa levaria tanto tempo que seria mais provável que seu mandato terminasse antes da decisão final sobre o caso. Por fim, não parece que a oposição consiga reunir forças para derrubar Dilma via impeachment, a menos que o PMDB resolva desembarcar de vez do barco. Mesmo nessa hipótese, sempre haveria o receio do que poderia acontecer no dia seguinte, levando os próprios oposicionistas a colocar o pé no freio. Afinal, Dilma não é Collor e o PT não é o PRN. As bases petistas, ainda que alquebradas por anos de escândalos sucessivos, ainda dispõem de alguma margem de manobra para botar gente na rua, algo que passou longe de acontecer no impeachment collorido.

Nesse caso, Dilma ficaria reduzida à figura de uma rainha de Inglaterra. Seria presidente, mas não mandaria em nada. Sem base de apoio, com a economia em frangalhos e desacreditada pela população, Dilma seria condenada a ficar reclusa em seu próprio palácio, sem poder ir à rua, sem capacidade de articular iniciativas e, muito menos, de pensar em influir na sua própria sucessão.E quanto ao país? Bem, nessa hipótese, o país sofreria inevitavelmente as consequências de uma paralisia total da gestão pública. A economia entraria de vez em parafuso, com alta generalizada nos preços e retração severa do PIB.

Não que tudo isso seja cenário novo. Absolutamente. O Brasil já viveu algo semelhante no final dos anos 80, quando José Sarney, após fracassar definitivamente com o Cruzado II, transformou-se numa espécie de governante zumbi por três anos. Como ninguém queria tirar o primeiro presidente civil após duas décadas e meia de governos militares, o impasse provocado pela inoperância do Governo foi, digamos, “superado” pela construção de um pacto que permitisse a Sarney terminar seu mandato, sem a desestruturação completa do país. Enquanto isso, todo mundo foi cuidar das alianças para o primeiro pleito direto no Brasil em quase três décadas. Na eleição de 1989, todo mundo era oposição ao Governo (inclusive o PMDB de Sarney).

Se Dilma se mantiver no cargo, esse é o cenário que se desenha. A conferir, apenas, se os agentes políticos terão cabeça e sangue frio suficientes para manter artificialmente vivo o Governo até que o povo, soberanamente, possa escolher que caminho quer seguir depois de consumada a débâcle.

Grandes emoções nos aguardam nos próximos meses.

Esse post foi publicado em Política nacional e marcado , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.