Cidades do mundo: Lisboa

Nem me recordo a última vez em que me dediquei a compartilhar convosco a experiência de visitar uma cidade estrangeira. Para compensar a injustificada ausência durante tanto tempo, vamos hoje visitar a provavelmente mais simpática e certamente mais acessível de todas as capitais européias: Lisboa.

Lisboa

Assim como todo muçulmano deve ir a Meca antes de morrer, todo brasileiro deveria ter como obrigação visitar a capital lusitana ao menos uma vez na vida. Em poucos lugares você conseguirá aprender tanto em tão pouco tempo sobre a alma do brasileiro.

“Do brasileiro?!?”

Sim, do brasileiro.

Em que pese as inevitáveis rixas históricas de quem traz as costas marcadas por mais de três séculos de espoliação colonial, não há nada mais parecido com um brasileiro do que um português. De certo modo, visitar Portugal – e, em particular, sua capital – é entrar em um túnel do tempo e olhar para nós mesmos no passado. É como se cada português andando na rua fosse um protótipo do brasileiro atual: cordato, amistoso,  fatalista, com uma certa propensão para a autocomiseração, mas, ao mesmo tempo, carregando um traço irônico de bom humor que o ajuda a enfrentar as vicissitudes da vida.

Há, claro, quem enxergue no português apenas a rudeza no trato e a rispidez na conversa. Fama injustificada. Os portugueses em geral são extremamente amáveis e simpáticos. Aquilo que muitos vêem como gestos rudes e ríspidos representam, na verdade, objetividade e assertividade. Se um sujeito pergunta a um cearense onde fica a Catedral de Fortaleza, caso ele não saiba, dirá algo assim: “Não sei. Mas, se você for aqui direto, vai parar na praça Tal, onde tem uma banca de revistas do Fulano. Pergunte lá que ele deve saber onde é”. A mesma pergunta feita a um lisboeta resultará no seguinte: “Não sei. Pergunte a outro”. Nesse aspecto, Lisboa não passa de uma equivalente européia do Recife.

Por falar em Recife, quem conhece as grandes capitais coloniais brasileiras – especialmente Salvador e Recife -, reparará em algo estranhamente familiar na arquitetura da cidade. Não por acaso. Lisboa é o exemplo mais próximo na história da humanidade de um Armagedom apocalíptico. Em 1755, um terremoto de quase 9 graus na escala Richter destruiu a maior parte da cidade. Como acontecimentos infelizes ocorrem em série, o sismo provocou uma seqüência de tsunamis, com ondas de 30 metros de altura, que arrasaram o restante da capital. As poucas áreas que escaparam da inundação foram consumidas pelo fogo resultante do desabamento dos edifícios.

Diante do desastre, D. José I convocou o então governador-geral do Brasil, o Marquês de Pombal, para reconstruir a capital lusitana. Uma vez que a época coincidia justamente com o florescimento da então emergente colônia portuguesa, muito do que vê nos centros históricos das capitais brasileiras é similar ao que se observa em Lisboa.

Uma grande vantagem de Lisboa é a sua acessibilidade. Pelo menos 12 cidades do Brasil dispõem de vôo direto para a capital lusitana. Só isso já é uma mão na roda. Significa não precisar de conexões e diminuir – e muito – o tempo de deslocamento até lá. Das capitais do Nordeste, é possível chegar a Lisboa em pouco mais de 6h de viagem, menos do que Fortaleza-Porto Alegre, por exemplo.

Além da facilidade de acesso físico, Lisboa é também é fácil no acesso econômico. É dizer: Portugal em geral é muito barato. Apesar das compras serem feitas em euro, o custo de vida lá rivaliza com o das cidades mais baratas do Brasil. Come-se bem em um restaurante de média categoria, com direito a vinho e sobremesa, por irrisórios EU$ 15,00 (R$ 45,00), menos do que se paga por muito prato-feito vendido por estas bandas.

A culinária, por sinal, é um caso à parte. Em qualquer birosca da esquina é possível comer bem. Se você é fã de bacalhau, há no mínimo umas 300 receitas, distribuídas em uns 500 restaurantes, todos com pelo menos uma opção honesta para satisfazer a alma. Fora isso, há os indescritíveis pastéis de Belém. No entanto, um aviso: pastéis de Belém são somente os produzidos na Fábrica dos Pastéis de Belém, no distrito de mesmo nome. Todos os demais são “apenas” pastéis de nata. Quando você comer um, vai entender a diferença entre o original e o restante.

Mas já tá bom de conversa. Vamos a um roteiro básico de 4 dias pela capital portuguesa:

Primeiro dia: Para começar bem, vá direto e reto a Oriente, onde se situa a parte nova da cidade. Foi lá onde se realizou a Expo 98, e todo o bairro foi remodelado. A visita obrigatória por lá é o Oceanário, que não é o maior da Europa, mas está certamente entre os melhores. De lá, você pode pegar um teleférico que perpassa toda a orla do Tejo, com direito a um vista deslumbrante da Ponte Vasco da Gama (Aliás, quem quiser fazer compras, basta atravessá-la e ir à cidade vizinha, Alcochete, onde está um dos maiores outlets da cidade). Depois do teleférico, você pode conhecer o centro comercial Vasco da Gama, almoçar e visitar as várias lojas que existem por lá. À tarde, você pode alugar uma bicicleta para passear pelas redondezas. Se não, pra quem gosta de jogar, ainda há a opção do Cassino. Há ainda a possibilidade de você ir para o centro da cidade, conhecer o Castelo de São Jorge. Se essa for a opção, quando terminar o passeio siga para a rua das Portas de Santo Antão. Há vários restaurantes excelentes por lá, inclusive o famoso Solar dos Presuntos, embora eu, particularmente, o considere overrated.

Segundo dia: Dia de programação cultural. Vá até o Museu Calouste Gulbenkian, com um variado acervo de obras de várias épocas. De lá, o melhor é andar mais um pouquinho e descer até a Praça Marquês de Pombal, para depois subir até o Parque Eduardo VII. Do alto, você terá uma vista magnífica da cidade, com a avenida da Liberdade em perspectiva e o Tejo ao fundo. Para o almoço, recomendo ir até a Praça de Saldanha e procurar um restaurante chamado Cave Real. Lá, procure os simpaticíssimos garçons Alberto e João, duas figuraças. Eles te tratarão divinamente bem e a comida é das melhores da cidade. À tarde, para quem quiser fazer compras, o recomendado é pegar o metrô em Saldanha até São Sebastião, chegando no El Corte Inglés, um dos maiores shoppings da cidade, ou pegar até Colégio Militar/Luz, descendo no Shopping Colombo. Se compras não é a sua praia, pegue o metrô até o zoológico da cidade. Isso tomará uma tarde inteira. À noite, sugiro seguir ao Bairro Alto, a parte boêmia da cidade. Depois de se perder nas ruelas e ladeiras de lá, escolha um entre as dezenas de restaurantes para jantar (recomendo o Lisboa à Noite ou o Alfaia).

Terceiro dia: Ir a Lisboa e não seguir para Fátima é o mesmo que ir a Roma e não ver o Papa. Sendo assim, tome uma excursão ou alugue um carro para ir visitar o Santuário da cidade. Saindo cedo, você pode visitar Fátima e suas basílicas numa manhã, almoçar por lá e, depois, seguir para Batalha, visitar seu famoso mosteiro, e Alcobaça, para conhecer in loco a trágica história de Pedro, o Cruel, e Inês de Castro. Voltando a Lisboa, a melhor opção para jantar é no Espaço TimeOut, no Mercado da Ribeira. Trata-se de um mini shopping de degustação de comida, reunindo alguns dos chefs mais conceituados de Portugal, a vender pratos dos seus cardápios, mas a preços bem mais módicos do que em seus restaurantes.

Quarto dia: Obviamente, não poderia Belém ficar de fora do roteiro. É lá em que estão boa parte das atrações da cidade. A melhor forma de aproveitar a visita, no entanto, é acordar cedo para tomar o desjejum na Fábrica dos Pastéis de Belém. Além de comer bem, chegando cedo você evitará as enormes filas de turistas, amontoando-se por um pedaço da sensacional massa com nata produzida ali. Depois disso, basta atravessar a rua para conhecer o Mosteiro dos Jerónimos, uma verdadeira jóia da arquitetura manuelina. Ao lado, está o Centro Cultural de Belém, com várias exposições culturais. Passando por baixo da avenida que corta o distrito, você chegará ao Padrão dos Descobrimentos, onde é possível subir de elevador e observar uma linda vista do Tejo. Logo ao lado, está o ícone de Portugal: a Torre de Belém, de onde os descobridores ultramarinos despediam-se da terra firme para desbravar mares nunca dantes navegados. Para jantar, o recomendado é andar até Alcântara, próximo da Ponte 25 de abril. Lá existem vários restaurantes para se despedir em grande estilo dos lisboetas.

Pois é. Quatro dias é muito pouco. Ainda falta tanto pra ver (Estoril, Cascais, Catedral, Museu de Arte Antiga, Museu dos Coches) e você nem teve oportunidade de visitar tudo. Mas, para seu sossego, isso não deve pesar na consciência. Afinal, para quem não tem a alma pequena, Lisboa é logo ali.

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