O combate ao Estado Islâmico, ou A persistência inconsequente no erro

É inacreditável. Quando você acha que a avalanche de erros acumulados durante a História ensinou alguma coisa aos americanos, eis que os caras resolvem enfiar a pé na jaca novamente.

Para quem não acompanha o noticiário, os Estados Unidos resolveram intervir no Iraque para combater os radicais do Estado Islâmico (Isis). Cavalgando aquilo que a jornalista Dorrit Harazim brilhantemente definiu como “terrorismo ostentação”, os fundamentalistas do Isis divertem-se filmando decapitações de civis presos no Iraque e lançando os vídeos no Youtube, provocando uma onda de horror e repulsa mundo agora.

A mais nova “Guerra ao Terror” será realizada somente com ações aéreas, assegura Obama, enquanto tem de explicar que os 3.000 soldados enviados farão apenas o trabalho de “assessoramento” do Exército Iraquiano. Tudo isso enquanto o chefe do Estado Maior dos Estados Unidos depunha numa comissão do Senado para explicar que, “se necessário”, não hesitaria em recomendar ao presidente norte-americano o envio de tropas terrestres.

Obviamente, pesa contra os americanos a responsabilidade por ter jogado o Iraque nas trevas nas quais se encontra. Afinal, foram eles que resolveram destronar Saddam Hussein e acender o rastilho de pólvora de uma nação fragmentária, uma verdadeira colcha de retalhos étnico-cultural, que só se mantia unida graças à mão de ferro do ex-ditador iraquiano. Duas guerras e dez anos de ocupação depois não poderiam resultar em outra coisa: a explosão de um conflito civil cujo fim não é possível avistar no horizonte.

Como desgraça pouca é bobagem, os ingleses – às voltas com seus próprios problemas internos – relutam em ajudar os americanos. David Cameron, no entanto, se diz disposto a “ajudar” o combate ao Estado Islâmico com o envio de armas para os curdos no norte do Iraque.

Parece piada. E de mau gosto. David Cameron fala de armar curdos como se desconhecesse que os rebeldes que os americanos agora querem combater não tivessem sido armados pelos próprios ianques. Sim, são as armas que os Estados Unidos enviaram “secretamente” à oposição síria para derrubar Bashar Al-Assad que hoje servem à causa do Isis. Ou alguém por aí acha que os radicais islâmicos tiram de suas orações tanques e mísseis capazes de derrubar aviões?

O pior de tudo é ver a recorrência no erro. Os que os americanos estão passando agora foi o mesmo que se passou em inúmeras outras ocasiões.

Quando a União Soviética invadiu o Afeganistão, resolveram ajudar os mujahideen. Vinte anos depois, estavam os americanos envolvidos numa caça sem precedentes a Bin Laden e os talibans. Hoje, continuam com os pés enfiados no mesmo atoleiro que ajudou a levar ao fim o Império Soviético.

Quando o Irã se tornou uma república islâmica e seqüestrou os diplomatas americanos, alguém teve a brilhante idéia de armar seu vizinho, o Iraque, para provocar uma guerra. A guerra Irã-Iraque durou oito anos, sem vencedores. No começo da década seguinte, lá estavam os americanos para conter Saddam Hussein, que invadira o Kwait e dera início à Primeira Guerra do Golfo.

Agora, com o Iraque correndo o risco de voltar ao século VII, vemos os americanos tentando resolver a besteira que fizeram. Não lhes ocorreu ainda a sábia simplicidade do dito popular:

Errar é humano. Insistir no erro é burrice.

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2 respostas para O combate ao Estado Islâmico, ou A persistência inconsequente no erro

  1. André disse:

    Os americanos são assim mesmo e olha que você foi até condescendente no comentário. Tais interferências visando os interesses americanos vem de longa data. A mãe dessas interferências desastrosas aconteceu no Irã no início da década de 50, com a derrubada do primeiro ministro iraniano Mohammed Mossadegh, através de um plano executado pela CIA. Mossadegh defendia ou já havia nacionalizado a exploração do petróleo no Irã, contrapondo – se aos interesses americanos e ingleses. Esse acontecimento é considerado a semente da Revolução Iraniana. O livro ” todos homens do Xa” conta todo esse processo, recomendo.

    • arthurmaximus disse:

      Tem razão, André. Esse tipo de “política” vem de longe. E o pior é que, quanto mais o tempo passa, menos se acredita que os americanos vão se dar conta de que o resultado dela é sempre o mesmo: mais terrorismo. Um abraço.

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