O conflito na Faixa de Gaza, ou Há futuro para Israel?

Todo mundo sabe da mais nova guerra entre palestinos e israelenses no Oriente Médio. Quem não sabia, ficou sabendo hoje, depois que a diplomacia brasileira entrou em um rififi verbal com sua congênere israelense acerca da “proporcionalidade” da retaliação judaica aos foguetes lançados desde a Faixa de Gaza. Bate-bocas à parte, interessa saber o seguinte: o que esse novo conflito prenuncia para o futuro da Palestina e do Estado Judeu?

Do ponto de vista estritamente pragmático, a atual batalha entre palestinos e hebreus não difere muito das outras dezenas já travadas pelo menos no último quartel de século. Pelo menos desde quando Yasser Arafat convocou a primeira grande Intifada em 1987, o estado de beligerância entre os dois pretendentes à Terra Sagrada é uma constante. Até aí, nada de mais, pois a paz sempre foi uma mercadoria escassa na região.

Do ponto de vista geopolítico, no entanto, a questão fica mais complicada. Israel nunca foi visto com bons olhos por seus vizinhos árabes. Independentemente do mérito ou não do movimento sionista, o fato é que os países da região nunca engoliram a história de “indenizar” os judeus massacrados pelo holocausto nazista com a entrega forçada do território que lhe fora prometido por Javé.

Para os judeus, a posição de “estranho no ninho” nunca fez lá muita diferença. Como o Brasil bem viu agora, Israel está se lixando para o que resto do mundo acha de suas ações de “autodefesa”. Para eles, tudo é uma questão de sobrevivência, ainda que ela tenha de vir a custo de manifestações de repúdio generalizado mundo afora.

Entretanto, essa posição de “dane-se o mundo” só se sustenta porque encontra respaldo incondicional na única e verdadeira superpotência do planeta: os Estados Unidos. Com seu imenso poderio econômico e militar, somado ao seu mui conveniente poder de veto no Conselho de Segurança da ONU, os americanos deixam Israel muito à vontade para fazer o que bem entenderem.

O problema é que mesmo a política de “costas quentes” pode não durar para sempre. Por muito tempo, os americanos não estiveram sozinhos no apoio a Israel. O drama do pós-Guerra, associado às atrocidades cometidas pelos alemães, tornavam quase automática a simpatia de qualquer um pelo Estado Judeu. Hoje, a coisa é bem diferente.

Desde que se tornou potência militar hegemônica na região, Israel trocou as guerras com os seus vizinhos por um confronto intestino e sem fronteiras contra os rebeldes palestinos. Uma coisa é defender os hebreus quando se vêem invadidos pela conjunção das forças da Síria, da Jordânia e do Egito, como aconteceu na Guerra dos Seis Dias. Outra, bem diferente, é ver todo o seu poderio bélico exercido contra um impotente povo sem fronteiras, que não tem qualquer capacidade de oferecer resistência à máquina de guerra adversária.

Com a reprodução inversa do embate entre Davi e Golias, Israel arrastou a si mesmo para um espaço de isolamento que hoje só encontra paralelo na Coréia do Norte. Praticamente não há aliados na região. E, mesmo aqueles que hoje apóiam os judeus, fazem-no por pre$$ão dos Estados Unidos.

Pior do que isso é saber que mesmo seus parceiros norte-americanos já não nutrem o mesmo apoio incondicional de outrora. Noves fora o fato de que Bibi Netanyahu e Obama não se dão, já faz tempo que a opinião pública americana deixou de enxergar Israel como uma pobre nação perseguida pelos seus maldosos vizinhos. E a última coisa que político de qualquer nacionalidade quer é arrastar para si um ônus político que lhe custe votos na eleição.

O crescente isolamento de Israel, portanto, pode conduzir a uma situação na qual nem mesmo os Estados Unidos poderão mais sustentar uma política de resposta violenta e desproporcional a qualquer agressão. Quando essa hora chegar, os israelenses se descobrirão sozinhos, em um mundo cercado de inimigos por todos os lados.

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