O uso excessivo do “que”, ou Por um português mais elegante

Prosseguindo com a campanha de espanar o pó das seções mais esquecidas deste espaço, vamos retomar a preferida da Icsa: as nossas velhas e boas dicas de português.

Quem tem um pouco mais de idade já deve ter percebido, mas a qualidade geral do texto escrito no Brasil tem caído assustadoramente. As causas a explicar esse fenômeno são muitas e de variadas ordem, mas, em regra, três são os fatores fundamentais: a deficiência do ensino, a primazia dos resultados nos exames técnicos – e aqui se incluem os vestibulares e os concursos públicos – em detrimento do uso correto do vernáculo e a falta de estímulo à leitura em geral.

Não me interessa, aqui, analisar como chegamos a uma situação na qual a repetição mecânica de conceitos muitas vezes nebulosos acabou se sobrepondo à clareza na comunicação escrita. Interessa-me, contudo, analisar um problema muito pontual e, infelizmente, cada vez mais comum: o uso excessivo da partícula “que”.

Como todo mundo sabe, o “que” é um dos grandes coringas da língua de Camões. Ele tem múltiplas funções, sendo possível encontrá-lo como conjunção, pronome, substantivo, interjeição e até mesmo preposição. Quando, por exemplo, alguém escreve “Você tem que fazer isso”, o “que” aí substitui a preposição “de”, reclamada pelo sentido do verbo “ter” na frase ( “ter de”). De tão popular, o uso intensivo do “que” chegou até mesmo a levar um conhecido articulista à Academia Brasileira de Letras, para desespero de boa parte da doutrina especializada.

Apesar da polivalência morfossintática, não há dúvidas: a função mais utilizada da partícula “que” na modernidade tem sido a de ligar frases, seja como conjunção, seja como pronome relativo. E aí a balbúrdia se instala. Vejamos o seguinte exemplo:

“Hoje, disseram-me que o homem que aqui veio, que me procurou e que não quis deixar o nome, é o mesmo que ontem me telefonou”.

Qual o problema dessa construção?

O problema está na repetição excessiva da partícula “que”. Quando um mesmo recurso estilístico é usado repetidamente, o conjunto geral da obra se empobrece. Para o leitor do texto, o sentimento é um só: o sujeito usa tanto o “que” por lhe faltar conhecimento dos inúmeros outros recursos língüísticos permitidos pelo vernáculo.

No exemplo citado, a mesma frase poderia ser reescrita, sem prejuízo do seu sentido, da seguinte forma:

“O mesmo homem que me telefonou ontem veio aqui hoje, procurou-me, mas não quis deixar o nome”.

Pode parecer frescura, mas isso é tão ou mais relevante quanto o conhecimento da norma culta. Quando se escreve, a intenção não pode se resumir à transmissão de uma mensagem qualquer. Se fosse assim, a linguagem mímica já teria suplantado há muito tempo a escrita, pois dispõe de arsenal maior frente à linguagem escrita.

Na verdade, escrever é como convidar alguém para dançar. Se você dançar direitinho e conseguir exibir diversos passos diferentes, seu parceiro vai gostar e se envolver na dança. Se, ao contrário, você sair por aí distribuindo pisadas no pé, o resultado será um sujeito desolado, dançando sozinho ao fim do baile.

Para fugir do uso excessivo do “que”, portanto, vale recorrer à elipse  (“Não há falar”, ao invés de “Não há que se falar”), uso de outro pronome relativo (“A moça da qual falei”, ao invés de “A moça de que falei”) ou o emprego de expressões sinônimas (“Quanta vontade eu tenho de ganhar na loteria”, ao invés de “Que vontade eu tenho de ganhar na loteria”).

À primeira vista, pode parecer tarefa impossível dispensar o “que” do seu dia-a-dia. Mas a solução repousa apenas no costume. Com o tempo, você conseguirá facilmente escrever um texto inteiro sem recorrer a ele.

Duvida? Então aceite este desafio: releia o texto inteiro e procure alguma frase na qual ele tenha sido empregado (à exceção das próprias referências à partícula). Se eu consegui, você também consegue.

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