A pronúncia das vogais, ou Da beleza da língua portuguesa

Este espaço normalmente é dedicado para vos fornecer dicas de como não escorregar no uso correto do vernáculo. No entanto, hoje, excepcionalmente, ele será dedicado somente a homenagear a língua de Camões. Sim, por mais que gostemos de nos autodepreciar como povo e de rejeitar a colonização portuguesa como algo terrível para o país, ninguém haverá de discordar que a língua que nos foi legada é uma das mais belas maravilhas já produzidas pelo homem.

Veja-se o caso das vogais, por exemplo. Das línguas mais utilizadas no planeta, o português é a única na qual as vogais têm tantas variações fonéticas. O “a”, por exemplo, pode ser pronunciado aberto (“á”), fechado (“â”) e anasalado (“ã”). O mesmo vale para o “e” e  o “o”. Só o “i” e o “u” não tem tantas variações assim.

“Grandes coisas”, você deve estar pensando. Antes de achar que é pouca coisa, imagine a monotonia do francês. Na língua de Baudelaire, “an”, “en” e “in” são pronunciados da mesma forma: “ã”. Já no espanhol, a maior parte das vogais não tem como ser pronunciadas na forma átona. Por isso mesmo, a forma mais certa de identificar um hispanohablante é pedir para dizer “Vovô” e “Vovó”. Nos dois casos, a pronúncia será a mesma: “Bôbô”.

Se isso não fosse o bastante, as regras de fonologia das vogais são uma das poucas coisas cujas regras são claras e constantes na língua portuguesa. Ao contrário do inglês, por exemplo, no qual o “i” pode ser arbitrariamente pronunciado como “ai” ou “i” a depender da palavra empregada, no português não tem erro. Se tiver acento agudo, a pronúncia será aberta; se tiver acento circunflexo, fechada; se houver til, anasala-se a vogal. É sempre assim, sem choro nem vela, com a vantagem de não haver a infame lista de exceções que costuma assombrar algumas regras do vernáculo.

É bem verdade que existem algumas variações na pronúncia de estado para estado no Brasil. É o caso, por exemplo, da vogal “e”, pronunciada na sua forma solo aberta no Norte/Nordeste (“é”) e fechada no Sul/Sudeste ( “ê”). Mesmo assim, isso não é suficiente para afastar a uniformidade no tratamento das vogais de Norte a Sul do país.

Pode parecer banal à primeira vista, mas a riqueza na variação fonética tem implicações profundas no nosso modo de ser e, até mesmo, de pensar. Não é por acaso, por exemplo, que a música brasileira – a boa música brasileira, ressalve-se – é uma das mais curtidas em todo o mundo. Muito disso vem da incrível capacidade de gênios como Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Chico Buarque e Caetano Veloso de jogar com a mudança no tom de vogais idênticas e, ainda assim, construir estrofes rimadas.

Certo mesmo estava Olavo Bilac, ao definir a derradeira a derradeira flor do Lácio como bela, a despeito de, por estas bandas, continuar tragicamente inculta…

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