A divisão no eleitorado brasileiro

Imagino que, a esta altura do campeonato, já deve estar dando no vosso saco ver este que vos escreve tratando das eleições de 2014. Mas prometo que este será o último post sobre o assunto nesta semana.

Uma das premissas mais utilizadas pelos “analistas” para projetar cenários eleitorais diz respeito à repartição do eleitorado nacional. Segundo o senso comum, a população divide-se quanto às preferências de voto em três grandes porções de igual tamanho: 1/3 seria petista; 1/3 seria anti-petista; e 1/3 não teria qualquer preferência partidária apriorística.

Não se trata de uma premissa inteiramente falsa. Analisando-se superficialmente os números das eleições, seria possível concluir que a divisão em terços do eleitorado é até certo ponto válida. O problema, no entanto, não está exatamente na matemática, mas no aspecto político dessa premissa.

De cara, a repartição do eleitorado nacional em terços soçobra ao atribuir ao PT uma importância desproporcional ao peso que ele tem no cenário político nacional. Para quem admite como verdadeira essa tese, tudo na política nacional gira ao redor do PT. O terço que não está com ele está contra ele, e o restante vota ou não com ele a depender das circunstâncias eleitorais do momento.

Muito dessa tese deriva da análise estreita das duas primeiras eleições “pra valer” do período pós-ditadura. Como a eleição de 1989, com seus trocentos mil candidatos, foi atípica – todos eram oposição a Sarney -, utiliza-se como amostra as eleições de 1994 e de 1998. Na primeira, Lula perdeu para Fernando Henrique Cardoso no primeiro turno, por 54% a 27%. Na segunda, FHC foi reeleito, ganhando novamente de Lula, por 53% a 31%. Daí a conclusão de que tudo nas eleições gira ao redor do potencial eleitoral do PT. Felizmente, neste caso, o buraco é bem mais embaixo.

Voltando-se um pouco no tempo, verifica-se que a divisão do eleitorado em terços se apresentou muito antes de o PT sequer ser pensado como partido. Na eleição de 1945, por exemplo, o General Eurico Gaspar Dutra bateu o Brigadeiro Eduardo Gomes por 55% a 34%. Na eleição seguinte, em 1950, o próprio Vargas bateria novamente Eduardo Gomes por 49% a 30%. Nas duas eleições pré-golpe, o padrão se manteria. Em 1955, JK bateu Juarez Távora por 35% a 30%. Em 1960, Jânio bateria o Marechal Henrique Lott por 48% a 33%.

O que esses números demonstram?

Demonstram que, na verdade, a divisão do eleitorado não se dá em função do PT, mas de quem está no poder. O terço que os analistas mais apressados apontam como identificado com o PT, assim como o outro terço que supostamente o detestaria, não tem qualquer sentimento especial em relação ao partido. Votam ou não nele conforme ele esteja na oposição ou no governo.

No fundo, ao contrário do que prega o “PTcentrismo” eleitoral dessa tese, o que está em jogo é algo bem mais simples: um terço do eleitorado é governista, no matter what; o outro terço faz da oposição ao governo uma profissão de fé. Só essa conclusão permite atar as duas pontas da história, separadas por 21 anos de ditadura militar.

Para comprovar essa tese, basta ver em retrospecto as eleições acima citadas:

1 – Em 1945, Dutra representava a situação (foi apoiado por Vargas). Seu opositor recebeu 34% dos votos;

2 – Em 1950, Vargas era a própria situação encarnada. Seu oponente recebeu 30% dos votos;

3 – Em 1955, JK era visto como continuação do varguismo. Seu opositor recebeu 30%;

4 – Em 1960, Jânio era a oposição mais radical contra o governo. Venceu Henrique Lott, apoiado por JK, que recebeu exatos 33% (1/3).

Somando-se a esses resultados os das eleições pós-redemocratização, pode-se perceber que o padrão historicamente tem se mantido. Além das duas eleições de 1994 e 1998, nas quais Lula ficou com o terço oposicionista do eleitorado, as de 2002, 2006 e 2010 confirmam a tese da divisão dos votos em razão do sentimento íntimo em relação ao governo. Em 2010, por exemplo, Dilma Roussef (situação) recebeu no primeiro turno 47% dos votos, enquanto o oposicionista José Serra ficou com 33%.

Na verdade, a conclusão de que a divisão do eleitorado em petistas e anti-petistas é falsa porque a divisão do eleitorado não se dá em função dele, mas em razão de quem está ou não no poder. A identificação com o PT deriva do fato de que, até 2002, ele era o principal partido da oposição. Depois disso, o partido do governo. Isso explica por que o PT se beneficiou ora dos votos oposicionistas (1994, 1998 e 2002), ora dos votos situacionistas (2006 e 2010).

Em razão disso, aconteça o que acontecer em 2014, se houver segundo turno, pode-se dar de barato que Dilma Roussef estará nele. Não só porque ela é candidata à reeleição, mas porque o terço governista do eleitorado, com seus 30% de votos, é o bastante para colocar um candidato – qualquer candidato – na segunda rodada de votação. Quanto à oposição, resta saber se terá competência suficiente para ir além do terço do eleitorado que naturalmente detesta o governo – qualquer governo.

Numa coisa, contudo, a teoria da tripartição dos votos está correta: quem define a eleição não são os dois terços extremados, mas o terço que está no meio, movendo-se pendularmente de um lado para o outro. Para onde ele se inclinar, estará decidida a parada. A questão é saber: ele penderá para a situação ou para a oposição em 2014?

Isso só as urnas dirão.

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5 respostas para A divisão no eleitorado brasileiro

  1. Mourão disse:

    Alguns probleminhas no seu raciocínio meu caro. Em 1950. nem de longe Getúlio, um líder populista de enorme popular, podia ser identificado com a situação, representada pelo ultraconservador Dutra, ligado umbilicalmente aos EUA. Afora isso, você tomou por base os votos dos candidatos e não de partidos políticos. Na verdade, do eleitorado 30%, mostra-se inclinado pelo PT, um outro tanto semelhante o rejeita, o que prova de fato que no Brasil desde 1989, as eleições têm o PR como referencial. Até mesmo as discussões quase sempre descambam para tradicional você é petista?, toda vez que alguém não se inclina a escrachar os adeptos dessa legenda, principalmente os denominados mensaleiros. Quanto a Jango, não concorreu com LOTT, pelo contrário foi seu vice. E Jânio fez um campanha demagógica denuncista, tão ao gosto da nossa brava classe média, sem representar nenhuma clara oposição a Juscelino, o qual detinha grande prestígio popular. Mais uma vez, a situação pouco parecia com o que percebe no momento, pois Jãnio, de fato, não representava, partido ou ideologia definidos. Era meramente um populista de direita, travestido, às vezes de esquerda, às vezes de nacionalista, mas na verdade um enganador.
    Como mote futuro, apenas observo que estou,ainda de longe, acompanhando o nascimento do Novo partido.

    • arthurmaximus disse:

      Vamos lá por partes, Comandante:

      1 – No que toca à referência ao Jango, foi um daqueles erros de escrita que passam despercebidos quando a revisão é mal feita. Já fiz a correção no texto. Repare, no entanto, que, um pouco antes no texto, fiz a referência correta: “Em 1960, Jânio bateria o Marechal Henrique Lott por 48% a 33%”.
      2 – Getúlio podia, sim, ser identificado como situação em 1950. Noves fora o apoio inconteste que deu à eleição de Dutra em 1945, os partidários dele resolveram fazer um teatrinho na eleição de 1950, lançando um candidato supostamente apoiado pro Dutra: Cristiano Machado. O abandono de Cristiano durante a campanha foi algo tão ostensivo que, depois, o termo “cristianizar” incorporou-se ao vocabulário político nacional, como sinônimo de lançar um candidato como boi-de-piranha;
      3 – O senhor pode até dizer que Jânio não era exatamente oposição a JK, mas situação é que ele não era. Jânio representava uma ruptura evidente como tudo o que o Governo JK representava. Para tanto, basta lembrar que o mote da campanha dele era uma vassoura, com a qual supostamente varreria a corrupção de Juscelino. De resto, concordo com tudo em relação à descrição de Jânio;
      4 – A eleição de 1989 não serve como parâmetro de nada. Fora que não havia ninguém que se declarasse situação e tivesse o apoio de Sarney, mesmo Lula, candidato do PT, teve somente 16% dos votos, e quase perde a vaga no segundo turno para Brizola, que teve 15%.
      5 – Reitero que a tese do “PTcentrismo” político nacional não faz sentido, por dois motivos, principalmente: 1) Não explica os movimentos do eleitorado antes do surgimento do PT, nos quais se identifica claramente um percentual de aproximadamente 1/3 do eleitorado votando de forma consistente na oposição – qualquer que fosse ela; 2) Traz para o partido uma dimensão que ele não tem. Se de fato 1/3 do eleitorado fosse majoritariamente petista, seria de se esperar que tal percentual se reproduzisse, ao menos de maneira parcial, nos Estados e nos legislativos, em todos os níveis de Governo. Hoje, dos 27 Estados, apenas 4 são comandados por petistas (pouco mais de 10%). Na Câmara, o percentual de petistas não chega a 20%. O mesmo vale para o Senado. E se formos levar em consideração as prefeituras e os diversos legislativos estaduais e municipais espalhados pelo país, não encontraremos o PT ocupando 1/3 do espaço político.

      Na verdade, como escrevi no texto, a questão toda gira em torno da dualidade PT-PSDB, em voga há 20 anos. Com isso, confunde-se oposicionismo e situacionismo com “petistas” e “anti-petistas”, quando as divisões no eleitorado vão muito além da simpatia pessoal que o eleitor possa ter por determinado partido político, seja ele qual for.

      Um abraço.

  2. Mourão disse:

    Por pates meu caro.
    1. Desculpe, não notei o equívoco.
    2. Getúlio era situação, sim, mas considerando que para as massas.
    3. Ok ele encarnava a própria nação.
    4. Sem duvida
    5. Muito bem argumentado,, mas discordo em parte, ou simplesmente observo que em Minas, São Paulo, Rio Grande do Sul e parte do Nordeste o PT é decisivo nas eleições majoritárias
    Boa noite, e valeu pelo contencioso de ideias…..De leve.

  3. Mourão disse:

    Reescrevo: Por partes meu caro

  4. Pingback: Projetando 2022, ou Uma saída pelo Ceará? | Dando a cara a tapa

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