A Blitz, ou O nascimento do pop nacional

Faz tempo que não se escreve nada sobre música neste espaço. Para cobrir o vazio de posts, vamos hoje a uma banda ícone do rock nacional: a Blitz.

Para quem curte pop/rock dos anos 80, a Blitz é parte obrigatória do acervo. Arrisco-me a dizer que nenhuma das grandes bandas que fizeram sucesso a partir daquela década mágica – Barão Vermelho, Legião Urbana, Engenheiros, Paralamas, etc. – teria conseguido algum lugar ao sol se Evandro Mesquita não tivesse reunido sua intrépida trupe para uma apresentação musical no Circo Voador.

Além de Evandro Mesquita e Billy Forghieri como líderes, a Blitz ainda reunia Fernandinha Abreu (sim, ela mesma) e Márcia Bulcão como backing vocals; Ricardo Barreto na guitarra, Antônio Pedro no baixo e Lobão (sim, ele mesmo) na bateria.

Mais do quem banda de rock, a Blitz foi a precursora de todo um movimento na música nacional. Com suas letras ingênuas e suas insinuações sacanas, a banda deu início a uma lenta transição entre a música política e contestadora presente na MPB dos anos 80 para uma batida mais leve e irreverente, mas sem poder (tanto) seu caráter crítico.

Além da performance teatral, o que fazia da Blitz algo inovador era o emprego inteligente da linguagem típica da juventude carioca, do sujeito que ia pra praia surfar, pegar mulheres e saía à noite para as baladas. A ditadura ainda não havia acabado, mas seu fim prenunciado já era algo previsto no horizonte. O otimismo com o fim daquele período sombrio indicava que seria necessário mudar o foco, lutar outras lutas, porque aquela, mais hora, menos hora, seria vencida.

Tudo começou quando Evandro Mesquita teve a brilhante idéia de pegar alguns versos de Zeca Mendigo, que faziam a festa da galera surfista de Ipanema, e juntar-lhes parte do texto de um espetáculo de seu grupo teatral. Nascia assim o megahit Você não soube me amar:

Nunca se vira nada igual. O ar despojado, os diálogos entremeados, a batida diferente, nada daquilo lembrava o rock tradicional produzido até então. A atmosfera circense evocava algo que não era exatamente musical, mas que mais se assemelhava a histórias em quadrinhos.

O sucesso foi imediato. Em poucos meses, mais de um milhão de cópias vendidas do compacto Você não soube me amar.

Mas, naquela época, ninguém fazia sucesso impunemente. É dizer: o establishment de então não aceitaria calado tanta subversão em forma de letras e músicas. No segundo disco, três canções – Cruel, Cruel Esquizofrênico Blues e Ela Quer Morar Comigo Na Lua – foram censuradas pelo Governo. Inconformado, Evandro Mesquita riscou o master do LP com um prego. Como o master era o molde do qual todas as cópias eram feitas, a tiragem toda saiu com o que Evandro chama de “cicatriz”.

Mesmo assim, o segundo disco trazia duas baladas que também entrariam no rol de clássicos do período. A dois passos do Paraíso e Betty Frígida consagraram definitivamente a Blitz como a grande banda nacional do começo dos anos 80.

Até mesmo uma tosca versão de Itsy Bitsy Teeny Weeny Yellow Polka Dot Bikini serviu como pretexto para retratar as circunstâncias da juventude carioca que se esbaldava nas praias da cidade. Pois quem não lembra da Ana Maria e seu Biquíni de bolinha amarelinha?

Depois desses dois discos, a Blitz ainda lançou um terceiro em 1984, mas sem o mesmo apelo dos predecessores. Como o sucesso costuma cobrar seu preço – e ele não é barato -, começaram a rolar intrigas internas no grupo, em parte alimentada pela ciumeira com a proeminência de Evandro Mesquita na mídia. Com a saída de Lobão, Fernanda Abreu e outros integrantes, a banda se desfez. Foram quatro anos de sucesso ininterrupto, que só encontrariam paralelo tempos depois com o surgimento do RPM.

Mesmo com o fim da banda, a Blitz continuou a ser referência na cultura dos anos 80. A “Blitzmania” fez com que surgissem álbuns de figurinhas com a banda, coleções de roupas com os modelitos new wave do grupo e até mesmo uma série de TV. Para quem não sabe, a série Armação Ilimitada teve na Blitz inspiração confessa.

Por tudo isso, a Blitz foi um ícone de sua geração. Ela representou não somente glorificação da irreverência juvenil, mas a transição musical entre o rock e o pop. Mais do que isso. Foi talvez a banda mais influente na formação da juventude daquela época. Afinal, depois dela, nunca mais pedir batata frita foi encarado como somente querer uma porção de aperitivo.

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