O curioso caso dos verbos defectivos

Uma das primeiras coisas que se aprende na escola é a conjugação verbal. Na mesma linha do inglês to be, toda criança aprende no primário o esquema eu sou, tu és, ele é, nós somos, vós sois e eles são. Daí por diante, com diferentes graus de dificuldade, a ordem é basicamente a mesma. Decoram-se as flexões tempo, modo, pessoa e número e o sujeito conseguirá conjugar qualquer verbo.

A porca, no entanto, começa a entortar o rabo quando se chega ao caso dos verbos defectivos. Figuras estranhas da língua portuguesa, os verbos defectivos fogem à regra segundo a qual basta saber a desinência verbal para conjugar um verbo. Ao contrário dos verbos abundantes, os verbos defectivos não têm como ser conjugados em determinadas pessoas. Daí o adjetivo “defectivo”, ou seja, o verbo que sofre defecção (falta de algumas formas), por não possuir conjugação completa.

As razões para a caracterização de um verbo como defectivo ainda hoje não estão muito claras. Em alguns casos – como o do verbo reaver -, atribui-se à eufonia o desaparecimento de algumas conjugações. Soaria péssimo ouvir algo como “eu reavo”, por exemplo. Em outros – como o do verbo chover -, atribui-se a defecção a questões lógicas. Afinal, a menos que se esteja falando de forma metafórica, não há como imaginar alguém dizendo “eu chovo”.

De todo modo, a existência dos verbos defectivos continua sendo uma incômoda casca de banana na linguagem corrente. Provavelmente por conta de sua natural extravagância, muita gente se recusa a aceitar a inexistência de conjugação em determinadas pessoas e tempos e conjuga o verbo mesmo assim. Em alguns casos, de tão difundido, o erro quase se tornou a regra no dia-a-dia.

No verbo adequar, por exemplo, é muito comum encontrar pessoas que falam e escrevem “eu adequo”. Mais comum ainda é encontrar gente falando “eu explodo”, quase sempre para se referir a algum acesso de fúria. Nos dois casos, no entanto, a conjugação não obedece às regras da gramática clássica. Tanto “adequar” como “explodir” são verbos defectivos. E, como verbos defectivos, nenhum deles é conjugado na primeira pessoa do singular no presente do indicativo.

Algumas dicas, no entanto, podem ajudá-lo na hora de evitar deslizes na conjugação de verbos defectivos. Em primeiro lugar, os verbos impessoais em geral – chover, gear, nevar, ventar – guardam entre si a semelhança de não contarem com todas as conjugações. Da mesma forma, todos os verbos relacionados a vozes de animais – cacarejar, latiar, miar, zurrar – também são defectivos, pelo simples fato de que não se concebe um ser humano reproduzindo tais sons.

Outra dica importante no tema verbos defectivos é atentar para os “desaparecimentos” comuns a todos eles. Primeiro, os verbos defectivos só são incompletos no presente (todos no indicativo e alguns também no subjuntivo). Segundo, a todos eles falta a conjugação da primeira pessoa do singular no presente do indicativo.

Para escapar de maneira definitiva dessa casca de banana, a dica é sempre atender ao ouvido. Toda vez que a conjugação soar estranha, troque o verbo empregado por outro com significado semelhante. Ex: “Eu ajusto o balanço”, ao invés de “Eu adequo o balanço”; “Eu elimino o problema”, no lugar de “Eu abolo o problema”.

Se, mesmo assim, a utilização do verbo parecer imprescindível ao seu texto, adapte a forma textual para empregá-lo no infinitivo. Ao invés de escrever “Eu bano o uso do Windows”, use “Eu vou banir o uso do Windows”. Seu texto ficará tão claro como antes, sem o inconveniente de aparecer um cara chato para apontar erros nele.

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