As políticas anti-imigração, ou A grande vantagem comparativa do Brasil

Hoje saiu a notícia de que o Reino Unido de início a uma campanha para expulsar estrangeiros que queiram ingressar no país. Com o mote Go home or face arrest (“Vá pra casa ou enfrente a prisão”), a campanha pretende atemorizar estrangeiros ilegais já residentes e, mais do que isso, barrar a entrada de novos imigrantes ilegais. O objetivo é claro: tornar a atmosfera britânica o menos friendly possível para gente oriunda de outros países.

Como esperado, a oposição caiu matando em cima do governo britânico, acusando-o de xenofobia y otras cositas más. Mesmo na coalizão governista o programa não foi deglutido com facilidade. Nick Clegg denunciou a política como “pouco inteligente” e ela pode representar a gota d’água em uma coalizão que sempre viveu sob o fio da navalha.

Do ponto de vista histórico, David Cameron não fez nada de novo. Apenas reproduz o mesmo factóide midiático utilizado por 11 em cada 10 governos conservadores em dificuldades. Sarkozy tentou a mesma jogada na eleição francesa. A farsa foi denunciada aqui. Felizmente, o povo francês não caiu na conversa mole e defenestrou Sarkô do Eliseu.

 Pra quem olha de fora, xenofobia e políticas anti-imigratórias sempre pareceram coisa de país desenvolvido procurando bode expiatório. Quando brasileiros são deportados dos Estados Unidos ou barrados na Espanha, um súbito sentimento de solidariedade parece tomar conta do imaginário popular. De certa maneira, quase todo mundo no Brasil toma – até com certa razão – episódios dessa natureza como algo pessoal. Por conseguinte, reage de forma passional e vocifera contra o “racismo” das potências estrangeira, exigindo “reciprocidade” por parte do governo brasileiro.

Fácil é, sem dúvida, criticar outros países quando brasileiros são  humilhados em terras estrangeiras. Afinal, o Brasil sempre esteve do lado barrado da imigração. Deste lado do balcão, qualquer política anti-imigratória é vista como “racismo” e imediatamente denunciada como tal. Difícil mesmo é o brasileiro comum enxergar nas próprias atitudes o mesmo preconceito que gosta de denunciar nas imigrações alheias.

Como todo mundo sabe, o Governo Federal lançou o programa “Mais Médicos”, destinado a minimizar os problemas de saúde no interior do país. A proposta é simples: onde não existam médicos brasileiros ou gente disposta a ir trabalhar, serão contratados médicos estrangeiros para sanar a carência.

Mais rapidamente do que foi lançado, o programa foi detonado pela classe médica. Dizia-se que o programa não resolvia os problemas do SUS e que o brasileiro não poderia ser submetido a uma medicina de segunda classe. Esqueceram-se de verificar que o programa não visa a resolver os problemas do SUS – que realmente precisa de melhorias. A idéia é simplesmente suprir a falta de médicos. Quanto ao aspecto da qualidade, como bem observou o Elio Gaspari, a questão não é saber se os médicos importados trarão uma “medicina de segunda classe”. É saber que tipo de medicina existe nos municípios onde não há médicos.

Como se isso não fosse o bastante, os médicos brasileiros protestavam contra os médicos cubanos como se fossem porta-bandeiras de uma revolução comunista. Resta saber a razão pela qual Cuba exibe índices de desenvolvimento humano – especialmente na saúde – muito superiores aos brasileiros. Mesmo quando se abandonou a idéia de importar cubanos e se resolveu trazer médicos espanhóis e portugueses, a grita continuou. Vai ver que Espanha e Portugal, por “atrasados”, não conseguem produzir médicos do mesmo nível dos médicos brasileiros.

Por trás da reação dos médicos, embute-se de forma dissimulada a forma mais primitiva de xenofobia: a xenofobia corporativista. Reclama-se da importação de médicos não porque os médicos estrangeiros sejam ruins ou de má qualidade, mas simplesmente para se preservar uma reserva de mercado. Curiosamente, o mesmo o cidadão que enxerga “racismo” na deportação de um compatriota não enxerga qualquer problema em detonar a importação de médicos nas redes sociais.

Na verdade, o Brasil sempre foi uma fronteira aberta à imigração estrangeira. A acolhida de imigrantes deu a tônica da formação de um povo altamente miscigenado, único no mundo inteiro. A miscigenação é talvez a maior vantagem comparativa do povo brasileiro. Graças a ela, o Brasil enfrentou diversas crises políticas e econômicas sem jamais descambar para o confronto racial. Quem assistiu a reação à absolvição de um vigilante na Flórida que assassinou um jovem negro deve imaginar do que estou falando.

Há racismo no Brasil? É claro. Mas o racismo e a discriminação só se combatem com maior tolerância e respeito às diversas raças, especialmente as estrangeiras. Nesse sentido, a grita contra a importação dos médicos vai na mão contrária do fim da intolerância. Não é necessário que o grande exemplo que o Brasil tem para mostrar para o mundo seja colocado em risco por conta da reação corporativista de determinada classe.

É o que espero que todo mundo entenda.

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