O reverso da fortuna

Não alcanço a razão, mas por algum motivo o direito americano é muito cinematográfico. Quer dizer: grandes casos da realidade quase sempre podem ser adaptados e render um bom thriller nas tela grande. Ou, na pior das hipóteses, se não houver algum bom caso para retratar, sempre há John Grishman para produzir um bom roteiro disfarçado de romance.

Dessa linhagem, um dos melhores, na minha opinião, é O Reverso da Fortuna (The Reversal of Fortune). Produzido no começo dos anos 90, O Reverso da Fortuna consegue como poucos reunir a um só tempo suspense, história e, de quebra, alguns conhecimentos jurídicos. Tudo na medida certa, sem quem nenhum elemento se sobressaia ao outro.

O filme começa com a aparência de jogo jogado. Claus von Bülow, um exemplar típico de socialite playbou britânico, acaba de ser condenado pelo assassinato da mulher, Sunny von Büllow. Quebrado, com amantes mil, sendo o único herdeiro da fortuna da mulher, pouca gente apostava um tostão furado na inocência de Claus von Bülow.

Os filhos de Sunny, enteados de Claus, fizeram um trabalho primoroso. Contrataram um dos melhores promotores do estado como investigador e conseguiram reunir uma quantidade de provas colossal. No julgamento, von Bülow não teve qualquer chance. Foi trucidado pelas provas e – claro – pela aparência fria e a conduta distante de um playboy britânico nascido na Dinamarca. Nenhum júri simpatizaria com semelhante figura.

Para a apelação, Claus aposta todas as suas fichas em Alan Dershowitz, um professor de Direito Penal altamente conceituado. Dershowitz tem sérias dúvidas quanto à inocência de Claus. Mesmo assim, aceita o caso. “Por quê?” Como ele mesmo diz, porque ele não poderia admitir uma condenação em tais circunstâncias. Se os filhos de Sunny conseguissem condenar Claus, valendo-se de investigadores privados “auxiliando” a polícia, daí pra frente somente negros pobres do Bronx amargariam a cana; moradores do upper east side, nem pensar. Aquilo tudo tinha realmente o deixado pissed off.

Dershowitz monta uma equipe de dedicados alunos, estagiários e jovens advogados. Aos poucos, a trama se revela e, o que parecia tão certo, subitamente começa a ficar turvo. De coitadinhos, os filhos de Sunny passam a escroques. E Claus, de acusado, passa a vítima.

Mas o ponto do alto do filme é a dicotomia cumplicidade-desconfiança que parece reger a relação entre Claus von Bülow e Alan Dershowitz. Jeremy Irons, no papel de von Bülow, tem uma atuação estupenda, a tal ponto que você mesmo passa o filme inteiro pensando se torce a favor ou contra o playboy acusado de assassinato. Irons consegue reproduzir com perfeição a frieza do personagem sem que com isso “afaste” o telespectador de von Bülow. É quase impossível não desenvolver uma empatia natural por aquele sujeito estranho. Não à toa, sua atuação rendeu-lhe o (até agora) único Oscar de melhor ator num papel principal.

Não vou estragar a surpresa e contar o restante do filme. Fica apenas a

Pra quem quiser sentir um gostinho do filme, abaixo vai o trailer do filme:

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