A futilidade das colunas sociais, ou A grande sacada de Zuckerberg

Outro dia, estávamos eu e Ana O. a discutir sobre o conceito existencial das colunas sociais. “Cicrano e Beltrana batizam seu novo pimpolho”; “Fulana recebe amigos em petit comité para festejar aniversário”;  “Beltrano e Cicrana recebem 400 convidados para suas bodas”, e por aí vai.

Assim como a duplicata e a jabuticaba, as colunas sociais são um produto tipicamente nacional. Alguém pode argumentar que em outros países também há revistas e programas de TV especializados em fofocas. Fora isso, há coisas universais, como revistas de “amenidades” com capas do tipo: “Após separação, Fulana recolhe-se no Castelo do raio que o parta para se reencontrar consigo”. No entanto, nesse tipo de exemplo, as fofocas ou as “matérias” sem sentido são produzidos com base no cotidiano de pessoas famosas. Famosas porque suas atividades as tornou conhecidas, ou famosas pelo simples fato de serem ricas, ou mesmo ambas. Há, claro, o rebaixamento em certos casos para subcelebridades, mas até nestes a fama momentânea justificaria o suposto interesse do público em saber o que determinada pessoa conhecida faz no seu dia-a-dia.

Já na coluna social, não. Expressão máxima do provincianismo, as colunas sociais não trazem pessoas famosas. Trazem pessoas que querem ser famosas. Como ainda não alcançaram a fama, suprem a necessidade de “reconhecimento” pagando a “jornalistas” para “cobrirem” eventos sociais íntimos. No meio de sorrisos falsos e fotos corrigidas pelo photoshop, a fina flor do high society local se esbalda nas páginas dos jornais locais.

Isso explica, ao menos em parte, a existência das colunas sociais. Os jornais não precisam de leitores para elas. Elas pagam-se a si mesmas. Há, claro, quem deva se interessar sobre qual foi a decoração da Igreja no batizado do filho de Fulana, ou o vestido que Cicrana utilizou no seu casamento. Mas isso deve ser a minoria. Trata-se, no fundo, de uma “autopropaganda paga”.

Foi provavelmente isso que Mark Zuckerberg percebeu. Rejeitado pelos clubes sociais de Harvard por ser “só mais um nerd”, Zuckerberg resolveu seu criar seu próprio clube. Quem assistiu ao filme Rede social, deve se lembrar de um diálogo no qual Zuckerberg explica a Eduardo Saverin qual seria o sentido de sua rede social: “Seria como ter o nosso próprio Phoenix (clube social). Só que nós seríamos os presidentes”.

Bingo.

O que é o Facebook, senão a criação de sua própria “coluna social”? Como “presidente”, você sozinho pode definir a “pauta”: quais eventos vai “cobrir” (Eu na praia; Eu ouvindo som em alto volume para encher o saco dos vizinhos) e que pessoas vai mostrar (Eu e fulana indo ao cinema; Eu e Beltrano bebendo cerveja). Tudo isso com uma vantagem adicional: você não precisa ser famoso nem precisa pagar dinheiro para outra pessoa “cobrir” os seus eventos. Instantaneamente, todos os seus “amigos” da rede social terão acesso ao seu mais novo “evento”, e poderão “compartilhar” a experiência com você. Tudo ao alcance de um clique no computador.

Pode parecer revolucionário (e provavelmente é). Mas tenho pra mim que redes sociais como o Facebook não fizeram nada além de disseminar o provincianismo. Se antes ele era escamoteado pelo “glamour” das páginas de jornal, agora é travestido da “modernidade” da Internet. A grande sacada de Zuckerberg é, pois, essa: a futilidade deixou de ser privilégio das elites. High tech, agora ela se tornou democrática. E todos podem ter a sua própria coluna social.

Resta, contudo, uma dúvida: o que leva as pessoas a quererem compartilhar momentos íntimos com outras que mal conhecem?

Anúncios
Esse post foi publicado em Variedades e marcado , , , . Guardar link permanente.

Uma resposta para A futilidade das colunas sociais, ou A grande sacada de Zuckerberg

  1. Pingback: A praga dos youtubers | Dando a cara a tapa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.