Gente x carros, ou O caos nas grandes cidades

Quem vive no Brasil, em qualquer das capitais com mais de 1,5 milhão, sabe o transtorno que é se deslocar pela cidade. À falta de transporte público, o sujeito invariavelmente recorre ao carro para poder exercer seu sagrado direito de ir e vir. Se antes isso era uma apenas um incômodo ocasional nas horas de rush, hoje os engarrafamentos tornaram-se parte da paisagem, tão comuns quanto as pedras portuguesas soltas pelas calçadas.

As razões desse fenômeno são várias, todas conhecidas. Como quase todo mundo tem um carro, os governantes dificilmente se importam como deveriam com o transporte público. O foco das ações de governo é centrado na criação e alargamento de avenidas e na construção de viadutos e túneis. Tudo para tentar minimizar o problema da quantidade de carros em circulação nas grandes cidades.

Às razões desde sempre conhecidas, somam-se alguns fatores agravantes. Primeiramente, a ascensão da classe média. Agora, ela pode ter seu carro, novo ou usado. Em segundo lugar, a facilidade e o barateamento de crédito. Hoje, paga-se um carro em até 5 anos, com juros cada vez menores. Em terceiro lugar, os incentivos que o Governo deu às montadoras para mitigar os efeitos da crise internacional tornaram os carros mais baratos e, portanto, mais acessíveis. Na soma geral, o resultado são mais e mais engarrafamentos pelas ruas das capitais brasileiras.

Outro fator a ser ponderado é o certo fetiche que americanos – de norte a sul – têm quanto ao veículo automotor. Desde há muito, o carro deixou de ser apenas um meio de transporte para se transformar em um símbolo de ostentação, de autoafirmação e de ascensão social. Exemplo clássico desse tipo são os jogadores de futebol. Assim que despontam como “grandes revelações”, compram logo um carro de meio milhão de reais. O sujeito não tem nem teto pra morar, mas tem um automóvel para mostrar aos amigos e pegar piriguetes (Telê Santana, então técnico do São Paulo, deu um esporro histórico em uma de suas estrelas ao saber que cometera semelhante asneira. Mas isso é outra história).

Certa vez, esteve no Brasil um ex-prefeito de Bogotá, na Colômbia. Não me recordo do nome dele, mas uma frase que disse nunca me saiu da cabeça: “Cidade civilizada não é aquela em que todo o cidadão pode e tem seu próprio automóvel. É aquela em que todo cidadão, pobre ou rico, usa indistintamente o transporte público para se locomover”.

Bingo.

Quem vai a Paris ou Londres, por exemplo, pode ver que o metrô é usado tanto pelo sujeito endinheirado como por aquele que não tem onde cair morto. Quando o metrô não cobre a área para onde se quer ir, pode-se fazer a baldeação e tomar um ônibus, limpo, pontual e com faixas exclusivas para circulação. Carro, portanto, só pra quem quer. E, quando tem, o carro nunca é mais caro do que a própria casa, como acontece às vezes por aqui.

A questão, pois, passa pela reestruturação da idéia de deslocamento dentro das cidades. A maior parte do investimento – mais de 80%, diria eu – deve ser priorizada no transporte público: metrô, VLT, faixas exclusivas para ônibus, etc. Fazer o contrário, isto é, gastar mais dinheiro construindo túneis e viadutos para carros particulares é mera variação do dilema do cachorro que busca morder o próprio rabo.

Não se trata, também, de impor, de baixo pra cima, a obrigação de o sujeito abandonar o carro e se espremer em um ônibus fétido às 6 da tarde. Uma pesquisa mostrou que, se apenas 30% da população de Fortaleza resolvesse trocar o carro pelo ônibus, o transporte público da cidade colapsaria. Assim como um parisiense ou um londrino, o cidadão brasileiro deve ser convencido que a melhor forma de se deslocar pela cidade é usar o transporte público. Só então ele deixará voluntariamente o automóvel em casa.

No entanto, para nossa desgraça, entra ano, sai ano, as promessas dos governos continuam as mesmas. A realidade, que é bom, não muda. E o cidadão brasileiro perde, cada vez mais,  tempo e saúde nos engarrafamentos da vida.

Tomara que um dia a ficha caia…

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