Os efeitos da autossuficiência norte-americana em petróleo

Em homenagem ao Joelmir Beting, vou tratar hoje de um assunto que certamente seria objeto de análise dele. Não o farei com a mesma percuciência, é claro, mas tentarei abordar pelo menos os aspectos principais da questão.

Segundo um relatório da Agência Internacional de Energia liberado recentemente, daqui a pouco mais de 5 anos, em 2017, os Estados Unidos deixarão de ser os maiores importadores do mundo de petróleo e passarão a ser os maiores produtores e exportadores planetários do produto. De acordo com os especialistas da AIE, o desenvolvimento de novas tecnologias, a substituição de combustíveis fósseis por energias alternativas e, principalmente, o começo da extração de óleo da reserva encontrada na Formação Geológica de Green River, entre os estados americanos de Utah e Colorado.

Segundo as estimativas preliminares, o total de petróleo extraível da jazida equivale à colossal quantia de 3 trilhões de barris de petróleo. Apenas para se ter uma idéia, nos últimos 100 anos toda a humanidade consumiu 1 trilhão de barris de petróleo. Ou seja: somente essa jazida conteria uma quantidade três vezes superior a tudo que foi consumido de petróleo no último século.

Há, claro, problemas de ordem técnica e ambiental a solucionar antes disso.

Primeiro, a extração do óleo do xisto não se passa da mesma forma que a exploração de uma jazida “normal” de petróleo. É muito mais difícil e, pior, muito mais caro. Por isso, até hoje não se exploraram as reservas existentes dessa natureza, porque o retorno do investimento é duvidoso.

Ademais, trata-se de um método de exploração extremamente poluente, que envolve riscos de poluição dos lençóis freáticos, emissão de gases poluentes, pequenos terremotos graças à “fratura” do terreno para a exploração e – pasmem – até mesmo o risco de combustão espontânea dos resíduos. Há inclusive casos relatados de “torneiras que explodiam” ou que “soltavam fogo” em regiões próximas à exploração do xisto.

De todo modo, com riscos ou não, havendo rentabilidade na exploração e garantida a mitigação dos danos ambientais, não resta dúvida de que as reservas de xisto serão exploradas pelos americanos. Pela projeção dos analistas, em cinco anos o país passaria da condição de maior importador à de maior exportador do produto.

“E daí?”, deve estar se perguntando você.

Em primeiro lugar, o efeito mais imediato da autossuficiência americana em petróleo será um corte radical em um de seus maiores calcanhares de aquiles: o déficit externo. Hoje, os Estados Unidos ostentam a condição de maior importador de petróleo do mundo, o que contribui para abrir um buraco nas contas externas de aproximadamente US$ 600 bilhões por ano. O buraco é coberto pela emissão de títulos da dívida, comprados em sua maioria por países emergentes, China e Rússia à frente.

Subitamente, o fim ou mesmo a redução do déficit externo a padrões civilizados daria de volta aos americanos as rédeas de sua economia. Se até hoje os ianques ladram mas não mordem os chineses, uma das razões é porque eles são os maiores financiadores da dívida americana. Sem a necessidade de financiamento externo, eles poderia voltar a falar grosso, como gostam, com quase todos os atores internacionais, inclusive com a China.

Em segundo lugar, o efeito será geopolítico. O Oriente Médio é a região mais instável do planeta não somente por conta das divergências religiosas, mas porque abriga as maiores reservas e os maiores produtores de petróleo do mundo. Dependentes do óleo externo, os americanos sempre mantiveram os dois pés na região de modo a assegurar o fornecimento de petróleo para sua economia. Por essas e por outras é que sustentam no poder ditaduras atrozes como a da Arábia Saudita, fechando os olhos para as maciças violações de direitos humanos que esses regimes praticam.

Sem depender – ou sem depender tanto – do petróleo árabe, é possível que o Oriente Médio acabe perdendo grande parte da relevância geopolítica que tem. Na medida em que outros países, como os Estados Unidos e mesmo o Brasil, se tornem grandes exportadores de petróleo, não fará muito sentido ajudar ditaduras sanguinárias a se manterem no poder em troca de um produto que pode ser facilmente obtido de outra fonte “menos custosa” do ponto de vista político.

Com alguma sorte, as guerras infindáveis do Oriente Médio tenderão a se amainar, e a região enfim se verá livre do jogo político das grandes potências. Nesse caso, caminhando com as próprias pernas, é possível que os países da região acabem por encontrar um caminho para um futuro melhor, no qual não seja necessário sufocar pela força os desejos de seu próprio povo.

Quem diria? A redenção da dependência norte-americana de petróleo pode significar a libertação do Oriente Médio.

Só nos resta torcer.

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